O limiar da ruptura: o que está por trás dos deslizamentos e a luta contra o solo saturado
Março é um dos meses com maior recorrência desses acontecimentos, mas existem tecnologias e medidas capazes de limitar os danos

As “águas de março”, as chuvas que acontecem durante o mês, é um dos mais críticos para os deslizamentos no Sudeste, principalmente em locais íngremes com construções irregulares. Após semanas de chuva, durante essa estação, o solo perde sua coesão física e acaba cedendo. O deslizamento não é causado apenas pelo “peso” da água, mas pela pressão que ela exerce entre os grãos de terra, anulando o atrito que segura a encosta. Esse é um problema contínuo nessa época do ano nas encostas de serras, que ocasiona diversas mortes e acidentes catastróficos na vida de muitos.
Camila Viana, professora do Departamento de Geologia Ambiental e Aplicada do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo, explica como a água acumulada pelo solo durante todo o verão vem à tona no final desse período, causando os deslizamentos. “O solo é um reservatório natural de água, que funciona como uma esponja, e, ao longo do ano, parte da água das chuvas se infiltra nas encostas. No começo da estação, a esponja está mais seca, com maior capacidade de absorção e drenagem, sem que ocasione grandes impactos estruturais. Conforme os eventos de chuva acontecem, o vazio entre as partículas que formam o solo é preenchido pela água.”

“Junto com as chuvas, o lençol freático sobe seu nível, e a pressão da água dentro do terreno, dentro desse maciço de solo, também aumenta. E é isso que vai começar a gerar instabilidade. O que controla a estabilidade é, na verdade, o equilíbrio entre a força da gravidade, ou seja, como a encosta está localizada. Então, a gravidade tenta puxar esse material para baixo, e a própria resistência interna do solo, que é uma combinação de fatores, como o atrito dos grãos, a coesão e a sucção, desaparecem, devido à crescente umidade. É como se o solo perdesse sua cola interna”, completa Camila.
Tecnologias de previsão
A professora explica como tecnologias, como os sensores de umidade e inclinômetros, podem ajudar a evitar essas tragédias. “O sensor de umidade ajuda a medir o quanto de água está presente naquela terra e em que profundidade, assim é possível identificar quando está começando a se aproximar da saturação crítica. Mas é importante ressaltar que, em qualquer sistema de monitoramento, não adianta só instalar o sensor, eu tenho que estabelecer diferentes níveis de criticidade, que vão disparar alarmes e alertas para mobilizar equipes de contenção.”
“O inclinômetro, por outro lado, vai tentar medir pequenos deslocamentos internos, então antes que um movimento seja deflagrado, que o deslizamento ocorra por completo, geralmente ocorrem pequenas movimentações no terreno, poucos milímetros e centímetros, que essa tecnologia irá detectar. Ou seja, esse movimento é progressivo e é possível intervir antes do colapso total da encosta.”
A vegetação natural e a política habitacional para prevenção
Além das medidas tecnológicas que ajudam na prevenção, a manutenção da vegetação natural das encostas é também um método eficiente de prevenção desses acidentes. “Em áreas muito íngremes, o plantio de determinados tipos de árvore ou vegetação que têm raízes mais profundas dão um reforço extra e estabilizam a superfície. O segundo papel que ela exerce é de proteção, interceptando parte da chuva e reduzindo o impacto direto e os efeitos de erosão superficial, que facilita o desmatamento, sobre o solo. Além disso, também ajuda no controle da água que entra na terra e na evapotranspiração local.”
“A solução, entretanto, também é social e política. Não são só políticas habitacionais, mas planos de desenvolvimento urbano, planos diretores e diversas outras medidas também. Então, todas as políticas de infraestrutura, de meio ambiente, de mudanças climáticas têm esse papel de preparar melhor o poder público dentro dessa lógica de gestão de risco e desastre, para mitigar aquilo que eu não posso eliminar completamente, mas reduzir ao máximo os impactos negativos”, finaliza Camila.



