Deus da Matemática
Histórias que voltam, com um emaranhado de fantasias, como se fosse sempre domingo de manhã
Eu gosto de recontar histórias. Principalmente as de infância. Porque elas voltam com um emaranhado de fantasias, como se fosse sempre domingo de manhã, com sol primaveril e um tempo infinito para brincar.
Éramos craques de bola. Principalmente em campos inclinados, terrenos pouco plainos, de onde arrancávamos touceiras, porque precisávamos daquele espaço para a correria.
Um drible, um gol, o dia estava ganho. Era só almoçar e assistir desenho animado. Se a mãe pegasse no pé, éramos obrigados a fazer os exercícios de matemática para o dia seguinte.
Até hoje sou bom de matemática. Mas confesso que um dia, depois de tanto deixar exercícios sem fazer, resolvi enterrar meu caderno no fundo do quintal, para que ninguém soubesse dessa parte da minha história pessoal. Em um passe de mágica, desapareceram todos os meus problemas.
No meu pensamento de menino, estava que eu arrumaria um caderno novo e explicaria para a professora que o caderno sumiu e até minha mãe ajudou a procurar, mas nada. “Deve ter caído no Triângulo das Bermudas, para onde vai tudo o que desaparecia lá em casa”.
Mas não contei com uma surpresa. Meu cachorro me viu enterrando o caderno e, em questão de meia hora após o crime, estava ele lá, abanando o rabo em minha frente, com todos os meus exercícios não resolvidos escancarados entre seus dentes.
O que dizer à professora sobre o ocorrido? Por que o meu caderno estaria tão sujo? Fiz as lições do dia mesmo assim, pensando em como fui tão despreparado para um crime primário. Não fiquei com raiva do cão, mas de mim mesmo. Eu deveria ter cavado mais fundo.
Até que minha mãe percebeu a minha impertinência e foi saber o que estava acontecendo. Não teve como escapar. Contei a ela que durante a noite sonhei que havia alguém no fundo de casa e resolvi saber quem era.
Levantei-me e era o Deus da matemática me perguntando sobre as fórmulas mágicas que eu havia descoberto para resolver contas com tanta rapidez. Ele queria o meu caderno e eu entreguei a ele.
“Somente hoje, mãe, eu vi o drama. Não era o Deus da Matemática, mas o cachorro que havia sequestrado o meu caderno e enterrado no fundo do quintal, como se fosse um osso. Nem foi eu que descobri isso. Ele mesmo se responsabilizou em devolver o caderno hoje de manhã”.
Claro que a minha mãe não achou graça nenhuma e quis saber se eu fiz a lição. Mostrei a ela apenas a página com os exercícios feitos. No dia seguinte, diante da professora, ela logo foi perguntando: “Pelo jeito você sonhou de novo com o Deus da Matemática”.
Eu era bom em matemática e não em arrumar desculpas para as minhas molecagens. Pois havia me esquecido que aquela não era a primeira vez que eu repetia a mesma história. Assim que cheguei em casa, resolvi acabar definitivamente com as minhas fantasias. Peguei a enxada e cavei o buraco onde estavam os meus segredos.
Aquele era apenas o décimo caderno que eu havia enterrado. Encontrei também a plaquinha em que eu havia escrito: “Caverna do Deus da Matemática”. Fiquei rindo de mim mesmo, até que minha mãe me acordasse para ir à escola.




