Dia não
História sobre trabalhos e dias
Dias sim, dias não
eu vou sobrevivendo sem um arranhão
da caridade de quem me detesta
Cazuza, “O Tempo não para”.
O sr. Kurz tirava o lixo dia sim, dia não.
No dia sim, deparava-se com o seu vizinho, o sr. Jacó, pois ele estava na calçada, varrendo e recolhendo do chão as folhas caídas das árvores. Trocavam um bom dia, com a mão levantada, e o sr. Kurz voltava ao seu portão, onde mergulhava para ressurgir dali a quarenta e oito horas.
No dia não, não se encontravam nunca.
Num destes dias não, porém, o sr. Kurz não só se encontrou com o sr. Jacó, mas ainda, o abordou, o que chocou o sr. Jacó, quase o levando a um infarto.
O sr. Jacó não era nem impassível nem metódico como o sr. Kurz: tirava o pequeno saco de 20 litros, preto, mas que podia ser azul ou verde também, uma ou duas vezes por semana, somente quando acumulava lixo o suficiente para dele se lembrar e retirá-lo à rua.
O sr. Jacó morava sozinho, embora não por vontade própria, pois era viúvo.
Do sr. Kurz os vizinhos deduziam que era um solteirão, embora houvesse a possibilidade de ter tido esposa, amantes ou até (ai, conversas da dona Candinha), cultivar o Amor Que Não Se Ousa Dizer o Nome. Como saber? Pois o sr. Kurz morava naquela casa há somente dez anos. Provavelmente tinha tido uma vida pregressa.
A rua onde o sr. Kurz e o sr. Jacó moravam, não juntos, como disse, mas um ao lado do outro, estava no centro da próspera, porém pequena, cidade de interior. Onde o destino quis que estivessem as casas do sr. Kurz e do sr. Jacó, com seus respectivos proprietários as ocupando. E pelo motivo simples de estarem lado a lado, por fatalidade se encontravam algumas vezes.
Nestas ocasiões, importunas e desagradáveis, o sr. Kurz exigia que o tratamento a ele dispensado fosse de “sr. Kurz”. O sr. Jacó não exigia nada, somente respondia “bom dia, sr. Kurz”, ou “boa tarde, sr. Kurz”. À noite, nunca tinham se encontrado. O sr. Jacó dava de graças a Deus por isso.
Do sr. Jacó os vizinhos sabiam o sobrenome, pois era de uma das famílias tradicionais da cidade. Seus pais, tios e avós tinham sido esteio da comunidade desde o tempo do Imperador, seus bisavós ou tatataravós estavam entre os que tinham aberto no meio do mato as picadas para a fundação do arraial. A casa onde morava estava num dos logradouros mais velhos do centro, próximo ao local da fundação; seu calçamento de paralelepípedos talvez cobrisse, sob camadas fundas de saibro e terra vermelha, algum cabresto, alguma rédea, quem sabe até alguma tamboladeira de prata dos antigos paulistas.
O sr. Kurz exigia que o chamassem de senhor, e de Kurz, e mais não se sabia dele, a não ser que comprara a casa da família Rosalva que, ai que tristeza, tinha se acabado com o último filho, o Conrado, que antes de morrer com sessenta e poucos anos, não tinha deixado a ninguém o legado de sua miséria, não tivera filhos. Conrado, que ninguém chamava de senhor pois era um notório pinguço, uns dois anos antes de morrer vendera aquela histórica e respeitável residência, para torrar tudo na busca incessante pelo último litro de caninha do universo. Não conseguiu o que buscava, naquela trilha que seguiu, mas no percurso bebeu dois sítios, um negócio da família, duas casas e a herança que os pais tinham deixado no banco Mercantil.
O sr. Kurz recolheu o que Conrado lhe vendera a preço vil, promoveu reforma. Ainda assim, renovada, não lembrava, aos mais velhos, a casa que a família Rosalva construíra à custa de muito sacríficio, primeiro no corte da cana, depois no armazém de secos e molhados que, com outro dono, ainda existia a apenas três quadras dali, firme, forte e inamovível até segunda ordem. A casa dos Rosalvas tinha sido uma pequena joia, em estilo eclético, com ânforas no cimo dos beirais, e guirlandas de estuque na fachada; aos antigos, lembrava um pequeno palácio que coroava o centro, com suas janelas de vidros coloridos imitando vitrais, seus batentes e guarnições ornamentados à grega, seus frisos à romana, colunas toscanas, carrancas com soldadinhos clássicos para segurar as janelas. Pináculos e remates em estilo gótico, triangulares, com os rendilhados que se espera. Tudo pintado com cores mescladas, cada cor tingindo um diferente elemento. Era um ponto luminoso de cores, formas e curiosidades de várias épocas, quase um mostruário arquitetônico, um generoso motivo de conversas, suposições e histórias inventadas, unidas confusamente à profusa estima devotada à família por seus conterrâneos e vizinhos.
O novo proprietário mandara pintar tudo de uma cor só, um bege genérico. Mandara reparar os elementos que com o tempo tinham caído ou se despregado da fachada, mas sem muito cuidado; as ânforas, originalmente quatro, no instante da compra eram duas e meia; ao fim, tinham sido todas retiradas. Dois pináculos góticos estavam quebrados, e foram recobertos com massa, desfigurando os rendilhados próprios. De mais a mais, os vidros coloridos, desbotados, rachados ou quebrados, tinham sido todos substituídos por vidros transparentes, martelados. Para completar os reparos, o antigo muro e portão da fachada, muito baixos, que batia mais ou menos à cintura, foram removidos, o murinho demolido, o portão arrancado e vendido a peso. Um muro de dois metros e meio de altura foi levantado, com massa de cimento chapiscado, separando da rua o terreno onde antes dona Bernadete dos Rosalvas plantara o jardim, que se elevava da calçada à fachada da casa. Muro benéfico à sensibilidade dos passantes que ainda guardavam alguma lembrança daquelas sombras e plantas; pois o jardim tinha tido suas roseiras, jasmins e outros arbustos de flores, de cem anos ou mais, arrancados, e no lugar tinham assentado um piso frio, friíssimo, branco e barato, que preservou somente as duas últimas árvores, tão velhas e tão presas ao chão, que o sr. Kurz desistiu de removê-las. Ele nunca soube os seus nomes, e nunca procurara saber.
O sr. Jacó tinha sua casa tão antiga quanto a do vizinho, mas não me deterei em descrevê-la tanto, bastando saber que tinha o estilo um pouco mais atualizado, ou seja, o neocolonial dos anos 1940 ou 50, com linhas muito simples, quase austeras, se comparadas ao projeto anterior da casa do sr. Kurz. Ainda mantinha a dignidade com suas telhas coloniais de um alaranjado já amarronzado, gradinhas de metal cobrindo os óculos, aberturas nas paredes que refrescavam os interiores, paredes caiadas em branco, batentes marrons de jacarandá grosso, uma varanda azulejada com cenas galantes portuguesas, acompanhados de vasos de plantas cultivadas pela esposa falecida do sr. Jacó, e que as mantinha por um estranho sentimentalismo, pois quando viva ele as detestava regar, como impunha a sua querida, e um jardim com espécies vegetais bem brasileiras, como mandava a moda naqueles tempos distantes de nacionalismo hoje incompreendido. Duas cadeiras de vime completavam a varanda que dava para a rua. Uma porta de correr, de vidro transparente, podia fechar tudo, se o dono quisesse. As cadeiras eram limpas mas não eram usadas há quinze anos.
Depois da morte de sua mulher, tomara por costume comer pouco, por não ver precisão nem ter grandes vontades. Nunca fora um apreciador de pratos, nem de bebidas, não tinha disto (para falar de algo que o sr. Jacó somente admitia para si enquanto via televisão de vez em quando, desdenhava de quem colocava a felicidade em comer bem, em restaurantes finos ou que gostava de entornar a lata com bebidas chiques ou caras; era gente fraca e sem vontade). Portanto, não só mantinha hábitos econômicos, mas na verdade preservara o que já era uma toada que vinha do início do seu casamento há cinquenta e tantos anos. Mantinha o hábito de fazer a pequena compra do mês no armazém Rosalva. Assim economizava tanto no consumo, quanto nas sacolas que carregava e nos passos que usava para chegar ao armazém. Não se animava mais em ir à missa, na matriz longe de cinco quarteirões. Ia ao banco uma vez a cada dois, três meses, no centro, ao lado da Matriz, e cada vez mais resolvia o que precisava pelo telefone, com o gerente. Não recebia visitas, não tinha filhos, e mesmo sem temer pelo destino do Conrado, que, Deus o tenha, era pinguço, adiava, um dia após o outro, a decisão que o Último dos Rosalvas tinha tomado, pois era apegado à casa como quem guarda a mechinha de cabelos presenteado pela primeira namoradinha, dentro de um livro velho.
Mesmo assim era estimado por todos que o conheciam, embora estes, ano a ano, diminuíssem, e naquele momento, em que o sr. Jacó encontrou-se com o sr. Kurz na calçada, no dia não, estes que o estimavam cabiam com folga dentro do Passat LS 1981, azul, que o sr. Jacó ainda guardava na garagem, que, não sabia ele, estava com o radiador seco, sem água.
Não era possível. Primeiro, que o seu vizinho tivesse um nome italiano, embora o sobrenome fosse alemão (ou austríaco, sabe-se lá),
Segundo, que ele escrevesse!
Um convite para o lançamento de um livro. Um livro!
Quem poderia supor, tendo lido o que escrevi logo acima, que não só o sr. Kurz, mas também o sr. Jacó, um respeitável senhor de uma família tradicional, viúvo e descendente dos fundadores da cidade, fosse também um escritor?
Ora, ele tivera os seus anos como colaborador de um dos jornais citadinos. Em determinado momento, escrevera em dois deles, quando houvera um surto de quatro publicações circulando por aí, preenchendo a rotina sem novidades da própria cidadezinha com novas do mundo, preenchendo corações com crônicas, poemas, palavras cruzadas e anúncios, forrando gaiolas de passarinhos e servindo como embrulho de peixes, ovos e bananas. Era um consolo ver as frutas que sua mulher trazia embrulhadas em sua coluna semanal “Alvíssaras”, ver as folhas com seu nome impresso cobrindo vidros de janelas ou mesmo as bancas de feira.
Tinha sido homenageado, certa vez, na Academia de Letras da cidade, e fora anos depois eleito como um de seus Imortais. Certo era que fazia vinte e poucos anos que a academia fizera sua última sessão, e depois disso ninguém mais tocara no assunto. Consolava-o sim o fato de que, nas últimas vezes que tinha ido à biblioteca municipal, havia uma estante com os livros de autores da cidade, e lá estava o único livro que tinha editado com seus próprios recursos, “Alvíssaras, e outras minudências”, por Jacob Nunes de Barros Filho?
Duvidava que o sr. Kurz, agora revelado como Camaldoli Kurz (um nome que, absolutamente, não tinha ritmo, não combinava uma parte com outra, não tinha harmonia, cadência, era portanto dissonante, arrítmico, inarmônico), lesse Dante como ele o fazia noites seguidas, tivesse na cabeceira o Eça, fosse íntimo de Machado e Camilo, cultivasse os grandes como Almeida Garret, além é claro, de cultivar a amizade de Shakespeare, Cervantes e Camões.
Ele mesmo relembrava, suspirando sobre seus velhos volumes do colégio, do curso Clássico, seu latim capenga, manquitola (isso não admitia, nunca, nem na mais recôndita fresta do coração). E ainda podia, ainda que não fosse lá muito frequente, ler o Fausto de Goethe no original, e os livros que amara na juventude na mesma língua de Flaubert, e que por vezes faziam-no reencontrar velhas paixões e amizades – Marguerite, Emma Bovary, Bouvard e Pecuchet, Lucien, Cosette...
Quem é que podia se chamar, com toda a precisão e propriedade, de um intelectual?
Quem, à vera, chamar-se-ia mesmo letrado? Um verdadeiro amante da literatura, dos grandes autores e de sua herança?
Um livro? E ainda, do sr. Kurz!
Quem poderia imaginar que o Clube de Campo, o local das grandes e importantes festas, seria o local de lançamento do livro do sr. Kurz?
Camaldoli Kurz, da Academia Paulista de Letras
convida para o lançamento do livro, de sua autoria,
FOLHAS AO VENTO
crônicas publicadas no “Diário Paulista” entre 1950 e 1963
no Clube de Campo Campestre, no dia tal, do mês tal do ano tal
às 20h00
Será um prazer recebê-lo e à sua família.
Favor confirmar sua presença pelo telefone xxxx-xxxx
Traje: formal.
Roeu o osso. Depois de anos, foi ao melhor restaurante do centro e comeu um filé à cubana. Cortou o dedo cortando o bife, que estava um tanto duro; um pouco do sangue ficou na faca, lambeu para saber que gosto tinha.
O seu sangue tinha gosto de saibro seco, terra vermelha.
Na biblioteca municipal, não conhecia mais ninguém: todos os funcionários que conhecia tinham se aposentado. Os livros eram outros: quem é que lia Flaubert, Zola, Hugo? Shakespeare era personagem de um filme, não é? Dom Quixote, Fausto, Bovary, ilustres, ou opacos, desconhecidos. Tudo estava embaçado. Perto da estante que procurava, apostilas ultrapassadas de cursinho, livros para doação que ninguém queria, montanhas de romances mediúnicos, comprados com dinheiro público por uma diretora louca que considerava aquilo literatura, livros de capa dura editados pelo Círculo do Livro que tinham tido seus dias. Na estante que temia encontrar, livros escritos por muita gente que conhecera e se lembrava, pastas de recortes de jornais quebradiços, volumes com o corte cobertos de camada grossa de poeira, e no meio deles, “Alvíssaras”, de um passado mesozóico. O único exemplar estava com a lombada quadrada quebrada ao meio. Umas folhas soltas, despregadas da encadernação, e viu que faltavam outras. Sentiu-se um fêmur desenterrado de Australopithecus, sem legado a não ser o de ser antigo, tão antigo quanto uma palavra caduca num manual de etimologia, um trilobita.
Presenteara seus contemporâneos com o testemunho da sua época vibrante, agitada e esperançosa, em “Alvíssaras”, otimistas, orgulhosas das realizações de seus confrades citadinos. Gritos de incentivo, de estímulo, mas também elogios para conquistas e realizações, exclamações pela beleza vista na rua, na igreja ou nos eventos sociais, suspiros de saudades e nostalgia, e alguma reclamação por imperfeições, estas poucas mas sempre presentes porque ninguém, ou nada, é perfeito.
Aquilo tudo fora-se. Pessoas andando pelas ruas com chapéus panamá, palhinha, ou de palha, se fossem mais simples; ternos cortados em alfaiates. Vestidos cortados de moldes de revistas francesas; produtos de toucador. Lojas de armarinhos. Troleys e cavalos. Carros e chofers de praça. Telefones pretos. Ligas para prender meias. Escândalos, quando se revelavam traições. Crimes passionais. Crianças jogando bolinhas de gude nas calçadas, brincando de pais-esconde-esconde ou pais-pega-pega. Meninas de tranças e saias rodadas. Meninos de calções e corte de cabelo escovinha. O cinema passando Tarzan, os “Perigos de Nioka”, Oscarito e Grande Otelo, Mazzaropi. O primeiro arranha-céu da cidade com sete andares, na praça central. Ovos com gemas vermelhas, toicinho, xerez e licor de jabuticaba. Livros com páginas coladas, cortadas com aparadores; revistas com capas de mulheres com saias curtas e cinta-liga, com o busto coberto, mas decotado. Venda de votos para a mais bonita candidata à Miss Festa das Nações. A primeira choperia da cidade com mesas de bilhar, chope geladíssimo e bandas tocando bossa-nova. Clubes com piscina, bailes de carnaval com lança-perfume, matinês. Moças de maiô, rapazes de calção. Chás do Clube da Lady. Desfile de Sete de Setembro. Missa do Galo.
Não ir ao Clube de Campo, na data combinada, não era opção. Era a necessidade de verificar os itens de uma lista de checagem (e não um checklist, esta mania atual de se falar tudo em inglês!). Checar se ainda alguém o reconhecia. Checar se ainda estava vivo, ao menos na memória de algum daqueles homens carecas, de cabeça branca, de bengala, de cadeira de rodas até. Das mulheres, duvidava, nunca se dera com nenhuma, ainda mais numa época em que as amizades entre sexos era sinal quase certeiro de relacionamento extraconjugal.
Quem sabe, os acadêmicos lá estivessem. Quem sabe, até os antigos companheiros da imprensa, sobreviventes de uma era arqueológica, todos juntos numa mesa, com daiquiris e cubas-libres, o recepcionassem como um tesouro, e não uma múmia, alevantado de um sarcófago venerando.
Recebera um sinal sinistro. Abrira o jornal de manhã, e misturado ao café que, esquecera, não adoçara, misturou o amargo do primeiro gole ao choque de ler o nome, na coluna de falecimentos, do editor-chefe do jornal que primeiro publicara as suas “Alvíssaras”. Um a menos na mesa dos daiquiris.
Resolvera, depois do choque e do convite, não mais sair à rua no horário que o sr. Kurz saía para botar o lixo. O sr. Jacó resolveu queimar o seu lixo no quintal: restos de comida, plásticos, papel, embalagens. Quanto ao que não podia ser queimado, principalmente latas de metal e borracha (fedia muito queimar esta porcaria), foi juntando e decidiu, levaria para algum lugar de Passat.
Mexer com o lixo mexeu com suas mãos, que começaram a coçar por mudanças na disposição dos móveis, nas tralhas que juntava há mais de quinze anos. Era uma pena ter tantas coisas sendo que havia gente sem nada; pegou eletrodomésticos, como um aspirador de pós, uma enceradeira, uma máquina de lavar, secadora, tudo inútil, pois pagava uma senhora para limpar a casa uma vez por semana, que ainda lavava a sua roupa. Pensou o quanto era uma bobagem guardar muitas coisas, como pilhas e pilhas de jornal que estava acumulando e nem tinha percebido; vitrola, aparelho de som, caixas de som, toda uma coleção de discos, fitas cassete e até alguns CDs, que nem ouvia mais, depois do passamento da falecida; roupas que não usava há séculos, casacos comprados em viagens à Europa, cachecois, camisas de seda e gravatas fora de moda, que usou só uma vez, e jamais plus; álbuns e mais álbuns de fotos de uma vida alegre, despreocupada, sem dramas nem tragédias; e finalmente, as roupas da falecida, as quais há uma semana tinha verdadeira veneração, e que agora pareciam as tralhas de um animal de estimação cujo sacrifício fora penoso. Melhor jogar tudo fora, ou doar para a caridade.
Chegaria ainda aos seus livros. Eles dormiam em seu escritório, em estantes caladas, que não se pronunciavam, e que guardavam cupins como se fossem cupons premiados em barras de chocolate. Eles dançavam em sua cabeça como um dos itens últimos de uma lista gigantesca, com a penúltima linha escrita “Passat”. Sabia o que estava escrito na última, e que na verdade não era a última, e que não estava escrito “livros”. Sabia que começava com a letra “c” e terminava com “asa”, mas desta preocupação, voava.
O sr. Kurz, impassível e metódico, um dia antes do lançamento do seu livro, atravessou a rua na frente de sua casa, e foi atropelado por uma moto. O motoqueiro não foi identificado, e fugiu. Atendido pelo SAMU e recolhido à Santa Casa de Misericórdia, Camaldoli Kurz teve seu óbito declarado uma hora e cinquenta e nove minutos depois.
Alcançariam, de alguma maneira, as razões e sentimentos do sr. Jacó ao sr. Kurz, na hora de sua morte? O sr. Jacó, também conhecido como Jacob Nunes de Barros Filho, chegava, com seu melhor terno, à frente do Clube do Campo, no dia e hora marcadas, para o lançamento de “Folhas ao Vento”, depois de passar dois dias hospedado no Hotel Royal, sem ter voltado para sua casa, ao lado da casa do sr. Kurz. O Hotel Royal era ainda o melhor da cidade, e nele se hospedara para se ambientar novamente junto ao “espírito citadino”, que descreveu em sua própria crônica, por ocasião da festa de gala de inauguração do estabelecimento, publicada na coluna “Alvíssaras” de 25 de março de 1959:
“Nunca a cidade presenciou noite tão refulgente quanto a de ontem. Do céu, contemplando o desfile de personalidades presentes, estrela nenhuma pode ter dito que não teve inveja de tão elegantes, belas e estrídulas evas, e tão elegantes, decididos e confiantes adões. Entre todas as mais elegante e bela, a primeira-dama, sra. Dalva Guidolin; não menos estelar era seu cônjuge, o nosso galardoado edil, sr. Lúcio Guidolin, que além de administrador competentíssimo, ainda consegue alinhar-se como guardião da moda, algo invejável, e invejado, entre os de sua classe, a política.
Não clamem os apressados que eu esteja a bajular o primeiro casal de nossa urbe. O sr. Guidolin recebe tais elogios como terno cortado à sua justa medida, sem tirar nem pôr nada inútil ou desnecessariamente. Mais ainda merecedora é sua esposa devotada, dama integralmente ciosa e cumpridora de seus deveres.
Ressalto o brilho de presenças tão alvissareiras por serem o sinal dos tempos que correm, brilho de progresso material, cultural e porque não dizê-lo, espiritual.
O espírito citadino, no qual vivemos mergulhados, enche de orgulho qualquer um que tenha a sorte de pertencer a esta comunidade e a esta época específica; nunca houve tão feliz conjunção entre necessidades, ambições e a competência e preparo para supri-las e realizá-las.
Há de se perguntar o leitor porque levanto tais mastros de exaltação, com flâmulas de glória tão excelsas, por ocasião de uma inauguração de um hotel. Um local utilitário, um mero serviço corriqueiro. Porém, hão de se lembrar os mais velhos que há pouco tempo não havia quase nada, a não ser um punhado de casinhas e choças, nesta planície onde hoje ergue-se nossa pujante cidade. Aquele arraial ergueu-se, enfim, num tempo curto, mas dinâmico, cheio de vida, em realizações que mostram a força do nosso braço e a mente vivaz de nosso povo.
Erguem-se, enfim, não só um hotel, moderníssimo, mas também estações ferroviárias de duas diferentes companhias, um novo Paço Municipal, nova Câmara de Vereadores e nova Cadeia, além do Fórum que virá breve, uma Rodoviária e novas linhas de bondes e ônibus circulares, policiamento eficiente e garantidor da ordem e da lei; o orgulho de termos quase toda a nossa juventude alfabetizada, na maior rede de escolas em uma só cidade do estado; e por fim, rede de esgoto e fornecimento de água encanada à quase totalidade de nossa população.
Tudo noticiado e documentado por quatro jornais, duas rádios e uma revista mensal, que conta com o trabalho de jornalistas e colaboradores da própria cidade, que cultivam as artes da escrita como seus amantes diletos; não por último, músicos, pintores, amadores do teatro e até do ballet, brindam nossos concidadãos com suas obras artísticas, coroando nosso Espaço Comum da cidade com as realizações do Espírito Citadino a que aludi no começo deste artigo, e às quais incluo minhas contribuições, modestamente, não, orgulhosamente, como filho desta urbe a qual ofereço minha singela gratidão.”
Alcançou o sr. Kurz o brilho estelar daquele “espírito citadino”, que o sr. Jacó via em si refletido, não, irradiado, agora refulgente e imorredouro, grato e sorridente, que o fez tomar decisões e levantar-se para reclamar sua glória sesquipedal, por conta de um convite no dia não da retirada do lixo para a calçada?
O que ocorreria, por outro lado, ao sr. Jacob Nunes de Barros Filho, se soubesse, ali parado, esperando a resposta do porteiro do Clube de Campo, que nunca apertaria a mão do seu vizinho, impassível e metódico, que colocava o lixo na rua um dia sim, um dia não, e que o cumprimentava com a mão levantada, dobrando levemente os dedos, e que ainda exigia que o chamassem de “sr. Kurz”, que não teria a dedicatória e autógrafo em seu exemplar de Folhas ao Vento?
Folhas ao vento
Já que o destino assim nos transformou,
Envelheci na lucidez da imensa provação
Num labirinto de tristeza e saudade
Num relicário, a cruci dor da ingratidão
“Folhas ao Vento”, letra e música de Vicente Celestino
.




