Estudo revela evolução e diversidade genética únicas dos indígenas americanos
Genomas das populações nativas da América apontam para um processo de povoamento complexo e diferentes ondas migratórias dentro do continente

Um estudo com participação da USP usou a técnica de análise de DNA em diferentes países da América para trazer novos dados sobre a diversidade genética e a história evolutiva dos povos americanos. No trabalho, publicado nesta quarta-feira (22) na revista Nature, foram apresentados dados de 128 genomas de indígenas americanos, revelando uma extensa e antes não caracterizada diversidade genética.
Esse tipo de análise é capaz de revelar a ancestralidade, indicar as rotas migratórias dos diferentes povos e as dinâmicas das populações estabelecidas no continente. Os novos dados contrariam modelos simplistas de povoamento, apontando pelo menos três dispersões para a América do Sul, seguidas por diferenciação regional e continuidade a longo prazo.
A professora Tábita Hünemeier, do Instituto de Biociências (IB) da USP, que atua na área de genética de populações humanas e liderou pesquisa, explicou ao Jornal da USP que vem colaborando com grupos de pesquisadores da Argentina, México, Bolívia, Peru, entre outros, que têm pesquisado a história evolutiva e diversidade dos povos da América diretamente com populações indígenas locais. Na mais recente investigação, ela analisou genomas de mais de uma centena de indivíduos, de diversas populações nativo-americanas.

“Muitas perguntas que estão respondidas para outros continentes ainda não foram respondidas para a América”, afirma a pesquisadora. “Tenho pensado no quão importantes são esses estudos para essas comunidades. Primeiro, porque isso traz uma imensa visibilidade para elas, e, segundo, porque no momento em que os estudos genéticos se estabelecem, é possível trazer soluções para essas pessoas do ponto de vista de saúde, por exemplo. Se não existem estudos sobre alguns povos, essa parte da população está sendo negligenciada.”
Falando diretamente com as populações, e, por vezes, com os líderes das comunidades indígenas, o estudo foi viabilizado mediante uma parceria entre os pesquisadores e as comunidades autóctones de países americanos, que gerou devolutivas acessíveis para os povos estudados, como resultados clínicos e análises de ancestralidade.
O trabalho reuniu um conjunto amplo e de alta qualidade de genomas de povos indígenas das Américas. Com esses dados, é possível entender melhor como a história das populações – como migrações e mudanças ao longo do tempo – e a seleção natural influenciaram a diversidade genética desses povos. Isso traz novas e importantes informações sobre suas características genéticas únicas, suas origens, relações entre grupos, contribuições de humanos antigos (como neandertais) e adaptações ao ambiente.
Diversidade indígena
O Projeto de Diversidade Genômica Indígena Americana é composto de 128 genomas completos de alta cobertura de indivíduos indígenas de 8 países da América Latina (Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, México, Paraguai e Peru), representando 45 populações e 28 famílias linguísticas.
O conjunto de dados expande a representação indígena na genômica, em especial de populações geograficamente e linguisticamente diversas, e em particular, das terras baixas da América do Sul. Para a maioria das análises, os dados indígenas americanos foram integrados com genomas antigos e contemporâneos. O conjunto de dados final incluiu 199 indivíduos indígenas contemporâneos de 53 populações e 31 famílias linguísticas.
Foram usados dois métodos de análise para estudar o material genético disponível. O primeiro, baseado na “identidade por descendência” ou IBD, consegue detectar eventos mais recentes (das últimas 50 a 100 gerações), mas não capta bem o passado mais longínquo. Já as abordagens coalescentes são boas para estudar eventos antigos, mas têm pouca precisão para períodos recentes. Ao combinar as duas, foi possível ter uma visão mais completa da história evolutiva.
Esses resultados mostram que o desenvolvimento das populações indígenas das Américas foi complexo – desde a separação de seus ancestrais asiáticos até a diferenciação dentro do continente – e também revelam o impacto duradouro da colonização europeia na diversidade genética.
Mas a pesquisadora relata algumas dificuldades encontradas na condução do estudo. “Usando dois conjuntos de dados, o nosso, que é o de populações indígenas atuais, e o antigo, que é anterior à chegada dos europeus, fizemos comparações. Só que claro, tem um buraco aí entre os dois, porque o nosso é genoma completo de alta fidelidade e o genoma antigo é encontrado em fragmentos. Então, no DNA contemporâneo, conseguimos identificar algumas mutações, mas nos antigos é mais difícil porque é um material desgastado. Mesmo assim, tentamos fazer as aproximações da melhor maneira possível”, explica.
Além dos “buracos” no material genético mais antigo, que não conserva as informações em sua totalidade, ainda existem desafios na obtenção dessas amostras no Brasil. A professora explica que o DNA se conserva melhor quanto mais frio e seco é o clima, contrário ao que observamos no território brasileiro, que ainda possui o agravante de um solo ácido, que “come” os ossos a partir dos quais as amostras foram coletadas.
Olhar multifacetado
Embora bastante consistentes com estudos anteriores, os resultados da pesquisa mostram que as diferenças genéticas entre povos indígenas das Américas estão, em parte, ligadas à geografia; ou seja, populações mais distantes tendem a ser mais diferentes geneticamente.
No entanto, isso não explica tudo. Fatores históricos, como migrações, isolamento de certos grupos e até aspectos culturais, também tiveram grande influência. Por exemplo, em algumas regiões (como partes da Amazônia e do Chaco), houve pouco contato entre populações, aumentando as diferenças genéticas, enquanto outras áreas mostraram mais troca entre grupos, especialmente entre a Mesoamérica e a América do Sul. Em resumo, a diversidade genética desses povos foi moldada por uma combinação de distância geográfica, história populacional e interações culturais.
“Isso é uma coisa importante de destacar: que esse é um estudo feito por grupos de pesquisadores do sul e das regiões de onde as populações são oriundas. Além disso, analisamos essa diversidade dentro de um contexto antropológico, cultural e linguístico. Não foi um estudo genético ‘esvaziado’, sem levar em conta todos os outros processos humanos que têm impacto na evolução e diversificação dos povos.”
Uma história não contada
A compreensão mais aceita atualmente é que os primeiros seres humanos tenham se originado e evoluído no continente africano, enquanto o último estágio da dispersão humana no planeta teria ocorrido na América, vinda de outras partes do mundo entre 15 mil a 20 mil anos atrás. Povos nômades da Ásia teriam alcançado a América após alguns milênios isolados na ponte terrestre que ligava a Ásia à América, conhecida como Beríngia, no último máximo glacial. Após o final da última era glacial, essa ponte foi inundada, dando origem ao Estreito de Behring, e forçando a entrada dos primeiros seres humanos na América.

Neste contexto, estudos genômicos de populações indígenas da América continuam sendo os mais escassos dos grupos continentais humanos, apesar de fornecerem informações importantes sobre o povoamento inicial do continente e os fatores que moldam a diversidade genética entre as populações indígenas.
“Eu acredito que o estudo atual seja muito importante para dar um contexto no debate sobre o povoamento da América. Conseguimos compreender melhor as ondas migratórias, que agora entendemos como sendo três; e vimos a afinidade dos povos americanos com as populações da australásia (sub-região do continente Oceania, que abrange a Austrália e Nova Zelândia, por exemplo), o que surpreende nessa discussão, detalha Tábita Hünemeier.
“Existe um pensamento muito eurocêntrico de que a América é ‘simples’, que por ser mais recente, tem pouca diversidade. Claro, tem menos diversidade que a África, porque foi o último continente a ser povoado, mas ainda assim tem uma pluralidade enorme. Temos 15 mil anos de história, isso não é pouco. Os povos são diversos e têm uma história evolutiva única que tem que ser considerada.”
Além da história, os estudos de variabilidade genômica entre as populações indígenas americanas também têm impactos na saúde e na evolução dessas comunidades – representadas por uma amostragem diversa e geograficamente ampla.
“Antes, ouvia-se que os dados genéticos não possibilitam ver toda essa estrutura ou os processos que aconteceram aqui. Na verdade, é possível sim, mas a partir de uma perspectiva diferente, porque a maioria dos marcadores utilizados na análise do DNA em estudos de genética de populações são desenhados para estudar a população europeia. É evidente que não é a mesma coisa. A novidade é que agora temos um banco de dados para contra-argumentar isso”, afirma a pesquisadora.
Tábita Hünemeier acredita que a pesquisa é um dos primeiros passos em uma montagem mais fidedigna do quebra-cabeças sobre a história dos povos indígenas americanos – ainda longe de ser completado. “A partir daqui, a gente tem muito para responder. Esse estudo responde a muitas questões, mas abre ainda mais perguntas, e eu acho que isso é o mais interessante”.
A pesquisa contou com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (Fapesp), da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Cnpq), do Programa de Bolsas de Ciência e Inovação (Eutopia-SIF) – cofinanciado pela União Europeia através do programa Marie Skłodowska-Curie (Cofund) -, do Acordo da Fundação Nacional de Ciência Suíça sobre Linguagem em Evolução do NCCR (Suíça), do Instituto Nacional de Ciências Médicas Gerais do Artigo Institutos Nacionais de Saúde (Estados Unidos da América) e da Sociedade Max Planck (Alemanha). O estudo teve a colaboração de diversos indivíduos e comunidades indígenas da Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, México, Paraguai e Peru, e foi conduzido em colaboração com V. Acuña Alonzo e G. Macín.
O artigo The evolutionary history and unique genetic diversity of Indigenous Americans foi publicado na revista Nature e pode ser acessado neste link.
Matéria: Sthephany Oliveira | Jornal da USP.



