
Os recifes de coral estão entre os ecossistemas que abrigam a maior riqueza de espécies. Estimativas indicam que cerca de um terço de toda a diversidade marinha encontra-se, ao menos em um estágio de vida, nesses ecossistemas, e que os corais-verdadeiros (ordem Scleractinia) são os principais protagonistas dos recifes. Corais em crise é o título da série produzida pelo Centro de Biologia Marinha (Cebimar) da USP. No total são quatro reportagens especiais escritas por Aline A. Zanotti, mestre e doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Sistemas Costeiros e Oceânicos da Universidade Federal do Paraná (UFPR), em parceria com o Cebimar, e bolsista de Jornalismo Científico pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), sob a supervisão dos professores da USP Marcelo V. Kitahara e Alvaro Migotto. O objetivo é apresentar um panorama completo dos corais, detalhando sua biologia, a importância desses ecossistemas para os oceanos e os desafios e crise que enfrentam atualmente.
A primeira tem como tema Corais em crise: calor, poluição e um futuro incerto – A história dos corais, da origem aos grandes recifes, trazendo um panorama científico aprofundado sobre a história evolutiva e a biologia que sustentam esses organismos. “Serão abordados temas como a importância dos corais, a origem dos grandes recifes e a revolução da simbiose com as zooxantelas, a inovação evolutiva que garantiu o sucesso dos corais, mas que hoje expõe sua vulnerabilidade frente ao aquecimento das águas e ao branqueamento em massa”, contam os autores no Instagram. Para ler a matéria completa clique aqui.
A importância dos corais vai muito além dos números. Os recifes, um dos ecossistemas mais abundantes, são formados e, em grande parte, construídos pelos corais. Eles abrigam cerca de um terço da biodiversidade marinha conhecida, incluindo peixes, tartarugas, estrelas-do-mar e uma infinidade de outros organismos que passam pelo menos parte de suas vidas associados a esses ambientes. Por abrigarem milhares de organismos, os recifes funcionam como áreas de abrigo e alimentação para diversas espécies de peixes, influenciando diretamente a pesca. Além disso, por formarem grandes estruturas tridimensionais, atuam como barreiras físicas na zona costeira, protegendo o litoral da força das ondas e da erosão. Sua beleza também impulsiona o turismo sustentável na região.
Como detalhado no episódio inaugural, há cerca de 230 milhões de anos, os corais começaram a desempenhar um papel importante em águas rasas, diversificando-se, tornando-se mais abundantes e dando início à formação dos recifes como os conhecemos hoje. Ao que tudo indica, essa transformação foi consequência do estabelecimento de uma associação simbiótica entre corais e microalgas unicelulares fotossintetizantes, popularmente conhecidas como zooxantelas. Atualmente, cerca de metade das espécies de corais conhecidas vive em simbiose com microalgas. Mas é justamente essa associação — que, há milhões de anos, impulsionou a diversificação e o sucesso ecológico dos corais em águas rasas — que hoje está sob ameaça.
O aumento da temperatura do mar, aliado a outros impactos locais, tem afetado diretamente a simbiose entre corais e microalgas. Um sinal claro da ruptura dessa associação é o branqueamento em massa dos corais de águas rasas, que ocorre quando eles expulsam as microalgas, deixando o tecido translúcido e expondo a coloração branca de seus esqueletos calcários. Esse fenômeno vem afetando corais em todo o mundo e, mais recentemente, também os corais brasileiros. Desde 1988, quando ocorreu o primeiro episódio de branqueamento de corais considerado global, os cientistas passaram a encarar o fenômeno como um verdadeiro ponto de virada para a saúde dos recifes.

Refúgio brasileiro
O segundo capítulo da série, Corais em crise: O fim do “Refúgio Brasileiro”?, conta que, historicamente, a costa brasileira foi apontada como um possível “refúgio climático”, capaz de poupar as espécies de corais dos piores impactos do aquecimento dos oceanos. “Infelizmente, esse cenário tem mudado”, revelam os autores. Eles mostram que o aumento do estresse térmico na costa brasileira vem provocando episódios de branqueamento em massa. O capítulo também apresenta um relato científico de uma dramática expedição realizada no Nordeste no final de 2024. “Em locais como Maragogi (AL), testemunhamos de perto as consequências do quarto evento global de branqueamento, com taxas de mortalidade de corais que chegaram a impressionantes 88%”, lamentam.
Segundo a matéria, a diversidade de corais zooxantelados no Brasil é relativamente baixa: atualmente, há registros de apenas 18 espécies ao longo da costa brasileira, de norte a sul. No entanto, os corais brasileiros têm particularidades, como o alto grau de endemismo, ou seja, a ocorrência de espécies exclusivas na costa do País. Nesse contexto, destacam-se as espécies do gênero Mussismilia, popularmente conhecidas como corais-cérebro. A maior diversidade de corais zooxantelados do Brasil concentra-se no Nordeste. O registro mais ao sul é o do coral-estrela-de-dez-raios (Madracis decactis), encontrado até o litoral de Santa Catarina. Entre as espécies endêmicas, Mussismilia hispida é a única cuja distribuição se estende até o Estado de São Paulo, que representa o limite sul da distribuição geográfica da espécie.
A terceira reportagem, Corais em crise: Mais fundo, mais seguros? A promessa das profundezas, apresenta hipóteses sobre o tema. Segundo a matéria, embora cerca de metade das espécies de corais viva em simbiose com as zooxantelas e, portanto, seja suscetível ao branqueamento, essa relação simbiótica também limita a distribuição dos corais em função da profundidade, já que as zooxantelas precisam de luz para realizar a fotossíntese. Ainda assim, parte das espécies de corais zooxantelados do Brasil já foi observada em ambientes mesofóticos (meso significa meio e fótico, luz), situados entre 30 e 150 metros de profundidade. Para nós, pode até parecer uma região profunda e escura, mas ainda há luz suficiente para que organismos fotossintetizantes, como as zooxantelas, mantenham sua atividade. “Por receberem menos luz e calor, muitos cientistas investigam a hipótese de que esses ambientes funcionem como refúgios climáticos para os corais zooxantelados”, informam os autores.
De modo geral, os recifes mesofóticos atuais ainda estão sendo descobertos. Sabemos que são bastante biodiversos, o que levou cientistas a propor algumas hipóteses concorrentes frente ao aquecimento atual. A primeira hipótese diz que ambientes mesofóticos não funcionam como refúgios, pois os corais que ali vivem são adaptados a condições específicas e podem apresentar sinais de branqueamento em resposta a aumentos sutis na temperatura, o que os torna ainda mais vulneráveis. Já a segunda hipótese acredita que ambientes mesofóticos oferecem, sim, proteção, já que os eventos de aquecimento afetam principalmente a superfície do oceano. Assim, corais que vivem em maiores profundidades são menos afetados por anomalias térmicas e estariam mais protegidos contra eventos de branqueamento.

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A quarta e última reportagem da série Corais em crise: oceanos de plástico e a epidemia de doenças, além do aumento da temperatura das águas, os recifes de coral, tanto os rasos quanto os mesofóticos, também sofrem com diversos tipos de poluição. Um estudo de 2018 estimou que mais de 11,1 bilhões de itens plásticos estavam emaranhados nos corais da região do Pacífico. Já uma pesquisa mais recente, liderada por Hudson Pinheiro, do Centro de Biologia Marinha (Cebimar) da USP, sugere que os recifes de coral estão entre os ecossistemas marinhos mais contaminados por plástico, em comparação com os demais ecossistemas estudados até hoje.
Um dado particularmente alarmante desse estudo é que os recifes mesofóticos apresentaram uma quantidade ainda maior de resíduos plásticos do que os recifes de águas rasas. Segundo os autores, uma possível explicação é que os ambientes rasos são mais influenciados pelas ondas, o que dificulta o acúmulo prolongado de resíduos. Já nos recifes mais profundos, esses detritos tendem a se depositar com mais facilidade e a permanecer no local. Além do impacto visual, os resíduos plásticos aumentam significativamente a suscetibilidade dos corais a doenças: a probabilidade de um coral adoecer passa de 4% para 89% quando ele entra em contato com plásticos. Isso ocorre porque os plásticos desequilibram a comunidade microbiana dos corais, tornando-os mais vulneráveis a infecções por microrganismos patogênicos.
Como alerta a reportagem, o cenário, sem dúvida, é preocupante. O último século impôs aos corais e, consequentemente, aos ecossistemas recifais desafios em uma velocidade que talvez não tenha precedentes nos últimos milhões de anos. Então, os corais vão desaparecer? Provavelmente, não… Mas os ecossistemas recifais não serão os mesmos para as próximas gerações. Os corais podem desaparecer de algumas regiões e se desenvolver em outras, ficar restritos a maiores profundidades, apresentar mudanças na composição das espécies construtoras dos recifes ou se tornar menos abundantes em águas rasas. Algumas espécies já enfrentam a extinção local e, infelizmente, podem não resistir.
“Diferentemente do passado, os fatores que hoje colocam os recifes em risco estão, em sua maioria, diretamente ligados às escolhas humanas. Isso também significa que as soluções estão, em grande parte, em nossas mãos. Ainda dá tempo de proteger os recifes, investir em ciência e mudar a forma como nos relacionamos com o oceano”, esperam os autores.
Matéria: Claudia Costa | Jornal da USP.



