Atraso no diagnóstico da doença de Crohn triplica risco de cirurgia em crianças no Brasil
Estudo aponta demora média de 17 meses no diagnóstico e expõe falhas no reconhecimento da doença, que precisam

Um estudo liderado pela Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) mostra que o tempo médio entre os primeiros sintomas e o diagnóstico da doença de Crohn chega a 17 meses — período suficiente para triplicar o risco de cirurgia em pacientes pediátricos. Os dados foram publicados recentemente no Journal of Pediatric Gastroenterology and Nutrition e acendem um alerta para um problema menos visível: a dificuldade de reconhecimento precoce da doença na prática clínica.
Realizada de forma multicêntrica, a pesquisa acompanhou, por 18 meses, 124 crianças e adolescentes das regiões Sudeste — entre eles, pacientes de dois serviços do Hospital das Clínicas da FMUSP (Instituto da Criança e do Adolescente e Instituto de Gastroenterologia do Instituto Central do HCFMUSP) —, Nordeste e Sul do País. Foi identificado que, quando a doença acomete o intestino delgado, os sinais clássicos muitas vezes não aparecem. A diarreia com sangue, por exemplo, não é predominante. Há relatos de sintomas mais inespecíficos, como dor abdominal confundida com gastrite e perda de peso, que, por sua vez, são frequentemente subestimados. Quando o diagnóstico finalmente ocorre, 42% dos pacientes já apresentam atraso de crescimento, e parte deles evolui com complicações que exigem cirurgias, com ressecções extensas do intestino delgado e até morte.
De acordo com a coordenadora do estudo e pesquisadora da FMUSP, Jane Oba, o ponto crítico para o atraso no diagnóstico está no reconhecimento da doença na atenção primária à saúde da criança.
“O principal gargalo é educacional. A doença ainda não está incorporada ao raciocínio clínico de muitos profissionais, o que faz com que sintomas persistentes sejam tratados como quadros comuns”, afirma a médica.
Além do impacto clínico, o atraso ajuda a explicar por que a doença de Crohn ainda é subnotificada no Brasil. Embora a incidência esteja em crescimento global, os números nacionais em crianças seguem abaixo dos observados em países desenvolvidos. “O atraso no diagnóstico é um fator modificável. Se conseguimos reconhecer mais cedo, conseguimos mudar completamente a trajetória da doença”, explica a pesquisadora.
O estudo também evidencia um descompasso entre o que é praticado no Brasil e as recomendações internacionais de tratamento. A Nutrição Enteral Exclusiva (NEE), considerada terapia de primeira linha para crianças por evitar o uso de corticoides, ainda é pouco utilizada. Barreiras de custo, logística e ausência de padronização nacional limitam o acesso, levando ao uso mais frequente de medicamentos com maior risco de efeitos adversos no desenvolvimento infantil.
Outro achado relevante é que o padrão da doença em crianças brasileiras — em uma população altamente miscigenada — se aproxima mais do perfil observado em países asiáticos do que em populações europeias ou norte-americanas. Para a os autores da pesquisa, isso reforça a necessidade de estratégias diagnósticas e terapêuticas mais adaptadas à realidade brasileira.
Além dos Departamentos de Pediatria e de Gastroenterologia e Nutrologia da FMUSP, o estudo contou com parcerias do Hospital Israelita Albert Einstein (SP), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre (RS) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
O artigo completo está disponível na revista científica Journal of Pediatric Gastroenterology and Nutrition.



