Paciente com doença renal crônica tem maior risco de ser hospitalizado e morrer ao contrair dengue, aponta estudo
Pesquisa analisou 5,8 milhões de casos confirmados da arbovirose no Brasil, em 2024
O Brasil vivenciou em 2024 a pior epidemia de dengue já registrada na série histórica, iniciada no ano 2000. Foram 6,5 milhões de casos prováveis da doença e mais de 6 mil óbitos, segundo o Painel de Monitoramento de Arboviroses, uma plataforma digital do Ministério da Saúde que oferece dados atualizados de doenças transmitidas por artrópodes, principalmente mosquitos.
Diante de números tão alarmantes, pesquisadores da Faculdade de Medicina de Botucatu (FMB), da Unesp, em colaboração com a Universidade Federal do Ceará (UFC), decidiram investigar o impacto da dengue em pacientes com o sistema imunológico comprometido em razão da doença renal crônica (DRC). Os resultados revelaram que indivíduos com DRC que contraem dengue têm até três vezes mais risco de morte, e duas vezes e meia mais chance de desenvolver uma forma grave da doença.
Doença renal crônica é um termo usado para descrever um conjunto de alterações na estrutura e na função dos rins, órgãos responsáveis por filtrar e eliminar as toxinas do organismo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) avalia que, globalmente, a condição afeta 10% da população. No Brasil, a prevalência em adultos é estimada em 6,7%, triplicando em indivíduos com 60 anos ou mais. De evolução lenta e muitas vezes assintomática, quando não tratada, a DRC pode levar à paralisação desses órgãos.
Como a dengue é uma doença de notificação compulsória, ou seja, todos os casos suspeitos ou confirmados devem ser informados ao Sistema de Informações de Agravos e Notificação (SINAN), do Ministério da Saúde, os pesquisadores escolheram fazer uma análise populacional com base nos dados registrados no ano da epidemia. Os resultados foram publicados em janeiro deste ano na revista PLOS Neglected Tropical Diseases.
Para o estudo, foram considerados apenas os casos confirmados de dengue por meio de exames laboratoriais ou avaliação clínica, com informações completas na plataforma, que totalizaram mais de 5,8 milhões de registros. Dentre esses, foram identificados os pacientes com doença renal crônica: 30.527 ou 0,5% da amostra.
A partir da análise dos dados, comprovou-se que a dengue apresenta piores desfechos em pacientes com DRC. “Para a população geral, o óbito por dengue foi de 0,1%. Quando se considera apenas os pacientes com doença renal crônica, essa porcentagem chegou a 2,2%”, afirma o médico Gabriel Berg de Almeida, docente do Departamento de Infectologia, Dermatologia, Diagnóstico por Imagem e Radioterapia da Faculdade de Medicina de Botucatu e um dos autores do artigo.
Outro dado importante obtido foi em relação ao agravamento da doença. Enquanto o índice de dengue grave na população geral ficou em 0,1%, entre os pacientes com doença renal crônica foi de 1,6%. Dados corroborados pelo índice de hospitalização. “Entre os pacientes com DRC, 14% necessitaram de hospitalização. Na população geral esse índice ficou em 4%, uma diferença bem importante”, pontua Berg.
Tratamento dos números e resultados
Os dados brutos, obtidos por meio da análise dos casos registrados no SINAN, indicaram uma diferença considerável na evolução da dengue em pacientes com e sem doença renal crônica. Os autores do artigo explicam, entretanto, que foi preciso considerar que o paciente renal crônico é comumente mais velho e apresenta outras comorbidades associadas, como hipertensão e diabetes, o que poderia interferir nos resultados.
Para evitar distorções, os pesquisadores utilizaram dois métodos estatísticos para o tratamento dos dados brutos, a Ponderação pelo Inverso da Probabilidade de Tratamento (IPTW) e a Regressão Logística Multivariada. “Usamos o IPTW para balancear as populações de forma a se tornarem comparáveis. A população geral e a população com doença renal crônica foram ajustadas para todas as outras variáveis de sexo, idade, nível socioeducativo e para as outras comorbidades, como hipertensão, diabetes, doença hematológica”, explica Berg. “Ainda assim, quando fizemos a Regressão Logística Multivariada [segundo método], vimos que a doença renal isolada tem um impacto importante”, completa.
Segundo o pesquisador, a conclusão após a análise estatística é de que a doença renal, por si só, triplica o risco de morte e aumenta em duas vezes e meia a chance de a dengue se tornar grave, independentemente de qualquer outra condição do paciente.
Além disso, esse paciente também dá sinais de que provavelmente precisará de acompanhamento mais especializado. Isso porque o estudo também identificou que portadores de DRC apresentam mais sintomas característicos da dengue, como náuseas, dor nas costas, dor nos olhos e ocorrência de prova do laço positivo, nome dado para o exame que avalia a fragilidade capilar e risco de complicações hemorrágicas. “Esses são sinais clínicos que mostram que o paciente pode desenvolver um quadro mais grave da doença”, afirma o pesquisador da FMB.
Apesar do volume de dados analisados, os autores do estudo também alertam para a necessidade de se considerar que, em razão de as informações do SINAN serem alimentadas somente por profissionais da saúde, a doença renal crônica ainda pode estar subnotificada, com a indicação apenas de casos clinicamente reconhecidos, excluindo-se, por exemplo, indivíduos com graus leves de dano renal.
Berg afirma que na literatura médica já haviam estudos que apontavam um risco maior de agravamento da dengue e óbito em doentes renais crônicos, mas nenhum com um número tão expressivo de pacientes analisados. “Apesar de serem dados secundários, obtidos por meio de base de dados, é importante destacar que o Brasil é um dos países que têm essas bases mais robustas, por conta do tamanho do SUS, da sua capilaridade e do acesso à informação”, destaca. “Nós somos um país privilegiado em termos de notificação compulsória e de análise epidemiológica”, ressalta o docente.
Os autores destacam que estudos anteriores indicavam que indivíduos com doença renal crônica são mais suscetíveis a desfechos adversos de doenças infecciosas como a dengue, devido à sua resposta imune enfraquecida, um estado de inflamação sistêmica crônico e pela presença frequente de outras comorbidades, como diabetes e hipertensão.
Indicações a partir do estudo
Diante do risco aumentado de morte e de agravamento da dengue, o estudo deixa claro que os pacientes renais crônicos precisam ser reconhecidos como uma população vulnerável durante os surtos da doença no país. Uma das propostas de ação prática feita pelos pesquisadores é a inclusão dessa população no grupo prioritário para receber a vacina contra a dengue. No final do ano passado, a Anvisa autorizou a aplicação do medicamento e em janeiro deste ano ela começou a ser aplicada inicialmente em profissionais da atenção primária à saúde. Posteriormente a vacina será aplicada na população entre 12 a 59 anos.
Outra ação sugerida pelos autores do estudo é que os renais crônicos tenham prioridade nos atendimentos e sejam avaliados com rigor, seguindo o protocolo de atendimento sistematizado para pacientes com dengue.
Atualmente, o Ministério da Saúde orienta que esses pacientes sejam divididos em quatro grupos clínicos: A, B, C e D. No grupo A, explica o docente, estão pacientes que não têm nenhuma comorbidade, enquanto no outro extremo, o grupo D, estão pacientes gravíssimos que precisam de UTI. O grupo B inclui os pacientes que estão bem, mas têm algum fator que pode causar o agravamento do quadro, como gestantes, idosos, pacientes cardiopatas, hipertensos, diabéticos. “Hoje não existe a inclusão do doente renal crônico nessa categoria. Nossa sugestão é que esse paciente seja visto como as outras comorbidades dentro desse fluxo do programa de atendimento”, completa.
Matéria: Leire Bevilaqua | Jornal da Unesp




