Entre a alma e o algoritmo
O que Dona Dulce diria sobre o tema do Salão de Humor deste ano?
Dona Dulce era um robô que morava no 420. Aos sábados, eu via minha vizinha indo à igreja antes das 7 horas. No último final de semana, ao invés de ficar olhando pela janela e seguir no limite das possibilidades seus passos miúdos e automáticos, resolvi acompanhar, discretamente, o passeio desta senhora até seu destino.
Com os chips visivelmente envelhecidos e o olhar de quem não é mais deste mundo, ela permaneceu imóvel diante da capela. Estranhei seu comportamento. No entanto, achei que aquela parada abrupta era apenas fruto de um toque de Alzheimer, natural em mulheres solitárias como dona Dulce, com idade, creio eu, próxima dos 90 anos.
Ela persignou-se, permaneceu alguns minutos com a cabeça baixa, deu meia volta e regressou para casa. Com cuidado e por respeito, eu também fiz o nome do Pai e continuei em seu encalço. Juro que eu achava que ela ia assistir toda a missa, mas não foi o que aconteceu naquela manhã. Algo de errado estava acontecendo com Dona Dulce.
Hoje fiquei sabendo que minha vizinha de longas datas se mudou para um núcleo avançado de estudos sobre robôs envelhecidos, em São José dos Campos, para onde vão os robôs que já não conseguem mais exercer suas funções com autonomia. Uma espécie de Lar dos Velhinhos da Informática avançada.
Quem acompanhou o momento em que ela foi conduzida a um veículo especial para o transporte disse que seus gestos eram de uma pessoa dividida entre sentimentos humanos e movimentos de máquina desregulada. “Uma tristeza ver uma mulher robô que quase ganhou a dimensão humana, mas nunca deixou de agir com cautela, submetida ao rigor de uma programação sistemática”, contou uma de suas amigas, que é professora de informática.
Sinto pena da Dona Dulce, que deve estar jogada em um canto do grande armazém de robôs, testados para ver se conseguiam resistir à vida humana, programados para um estilo simples de ser, como as mulheres do interior do Brasil de antigamente.
Não teve filhos. Lutou como pode com uma programação obsoleta que a aprisionava em gestos medidos e repetitivos. Mesmo assim, chegou a fazer algumas amigas. Nenhuma delas, no entanto, conseguiu conviver com seus hábitos semiautomáticos, como o de dormir em pé. De manhã, Dona Dulce despertava espontaneamente e já começava a trabalhar. Sua casa era seu templo. Um brinco de limpeza e ordem.
Falava bem e se comportava exemplarmente diante das visitas. Oferecia café, apesar de não apreciar a bebida. Gostava mesmo de jogar dama e nenhuma das vizinhas eram páreo para ela. Sua programação era humana até um ponto, pois logo seu lado máquina se destacava e ela escolhia ficar a sós para recarregar as energias.
A tecnologia, no entanto, não soube lhe dar uma morte digna. Apenas desregulou seus chips no momento final e a silenciou, sem considerar seus sentimentos humanos, que era de alguém que preferia ser enterrada no Cemitério da Saudade. Seu último gesto público foi se persignar diante da paróquia São Judas Tadeu, que eu tive o privilégio de ver com exclusividade.
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Achei este texto apropriado para explicar como me senti quando fiquei sabendo da categoria Temática do Salão de Humor deste ano: IA x IH – O Duelo do Século. Uma vez que os algoritmos de dona Dulce foram aos poucos sendo aprimorados ao ponto de seus sentimentos se tornarem humanos, ou muito próximo disso.
Sua alma não era a de um robô, mas de um ser que vive na transição entre a tecnologia e a tradição. Dona Dulce se foi e desde já sinto saudades de uma mulher que, como ninguém, soube valorizar sua Inteligência Artificial, dando a ela uma profunda dimensão subjetiva, de Inteligência Humana. Descanse em paz, Dona Dulce.
Ah, quanto ao salão de humor e sua temática? Trata-se de uma guerra que não existe. É mais uma barrigada de uma galera que antevê o caos sem dimensionar corretamente os pontos de conflito que podem levar a algo deletério para a humanidade.
Duelo entre algoritmo e alma. Entendo que a discussão envolve mais os empregos em que a pessoa fica separando as porcas dos parafusos no chão de fábrica, dá 1000 pingos de solda por dia em uma carcaça de aço, ou não se cansa de ir à prateleira x para pegar a peça 8G304 para o Hyundai 305plus.
Meu amigo, esse tipo de serviço, nem a dona Dulce aguentaria.




