Drogas sintéticas avançam e desafiam a saúde pública
Relatório da ONU alerta para a expansão global das drogas sintéticas, mais potentes e difíceis de detectar, e para o aumento do número de novas substâncias psicoativas
A dependência de opioides costuma ser mais intensa e mais difícil de tratar – Foto: Freepik
Um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) aponta que o mercado de drogas sintéticas continua em expansão e preocupa especialistas em saúde pública. Mais potentes e produzidas em laboratório, essas substâncias podem causar dependência rapidamente e são cada vez mais difíceis de identificar. Segundo o documento, 331 milhões de pessoas usaram substâncias psicoativas em 2024.
De acordo com o professor Arthur Guerra de Andrade, psiquiatra, fundador do Grupo de Estudos em Álcool e Drogas (Grea) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP e primeiro coordenador do Projeto Redenção, a principal diferença em relação às drogas tradicionais está na forma de produção.
A maioria das drogas conhecidas tem origem em plantas, como a maconha e a cocaína, ou deriva de produtos naturais, como o tabaco. Já as drogas sintéticas são produzidas em laboratório para reproduzir ou potencializar os efeitos dessas substâncias. “O que nós estamos vendo agora é um crescimento enorme de drogas que não são plantadas. São drogas sintéticas, que mimetizam o efeito dessas drogas de origem vegetal, mas com uma potência muito maior”, explica o professor.
Novas substâncias desafiam o tratamento
Outro desafio é que muitas dessas drogas ainda não podem ser identificadas pelos exames toxicológicos disponíveis. Segundo o relatório da ONU, o número de novas substâncias psicoativas em circulação chegou a 755.
Arthur Guerra afirma que, no passado, essas drogas eram produzidas em laboratórios improvisados. Hoje, segundo ele, organizações criminosas chegam a contratar especialistas altamente qualificados para desenvolver novas fórmulas, o que acelera o surgimento de substâncias ainda desconhecidas pelos serviços de saúde.
Tratamento exige apoio especializado
No Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP funciona o Instituto Perdizes (Iper), unidade hospitalar com 80 leitos destinada ao tratamento de pessoas com dependência química. Entre os ambulatórios especializados, um é dedicado exclusivamente ao atendimento de pacientes com dependência de opioides.
Segundo Arthur Guerra, esse tipo de dependência costuma ser mais intensa e mais difícil de tratar. “A pessoa tem que querer sair dessa situação. Se ela não tiver essa vontade, esse objetivo, não é o hospital, a família ou o empregador que vão conseguir fazer isso por ela. Ela precisa estar consciente da necessidade do tratamento”, afirma.
Além do atendimento hospitalar, os Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD) oferecem assistência especializada para pessoas com dependência de álcool e outras drogas. Somente na cidade de São Paulo existem 35 unidades desse tipo.
A internação para desintoxicação costuma durar cerca de 28 dias. Além dos medicamentos para controlar os sintomas da abstinência, o tratamento inclui psicoterapia, meditação, atividade física e o apoio da família e dos amigos.
Prevenção é o principal desafio
Para Arthur Guerra de Andrade, o maior risco das drogas sintéticas está na falsa sensação de controle. Ninguém inicia o consumo acreditando que desenvolverá dependência. No entanto, no caso dessas novas substâncias, o primeiro contato pode ser suficiente para desencadear um quadro de dependência em alguns usuários.
Mais potentes, mais difíceis de detectar e produzidas em constante evolução, as drogas sintéticas representam um desafio crescente para a saúde pública e reforçam a necessidade de investimentos em prevenção, informação e ampliação da rede de tratamento.
Fonte: Jornal da USP





