
Mais chuva no Sul e em parte do Sudeste, menos no Norte e calor acima da média no Norte e no Nordeste. A primavera de 2026 começa com perspectivas distintas pelo Brasil, sob influência de um El Niño que pode superar a intensidade dos episódios registrados desde 1950. Entre outubro e novembro, a maior frequência de frentes frias deve favorecer as chuvas no Sul e na metade sul do Sudeste.
As previsões são apresentadas por Ana Carolina Nóbile Tomaziello, pesquisadora do Grupo de Estudos Climáticos do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP, no Boletim Climatológico deste mês. Segundo ela, o aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico equatorial altera a circulação atmosférica e os padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões do planeta. “O que estamos observando é um padrão de circulação atmosférica que tem favorecido a ocorrência de chuvas acima da média, principalmente no Sul e em parte do Sudeste do Brasil”, explica. Esse comportamento marcou agosto e persistiu em setembro, com volumes expressivos também no Estado de São Paulo.
Na capital paulista, os primeiros 14 dias de setembro foram suficientes para estabelecer um novo recorde de chuva para o mês na série histórica do Instituto Nacional de Meteorologia, iniciada em 1943. Considerando a primeira quinzena, o acumulado no Mirante de Santana, na zona norte, chegou a aproximadamente três vezes a média de todo o mês de setembro.
A tendência é de que a cidade mantenha o padrão mais chuvoso pelo menos no início da primavera, com temperaturas na média a abaixo dela. Mas a previsão não é a mesma para todo o Sudeste. Enquanto a metade sul tende a receber mais chuva, o setor norte deve apresentar volumes na média a abaixo dela, em um comportamento mais próximo ao esperado para o Nordeste.
No Norte, a previsão é de chuvas abaixo da média. No Nordeste, os volumes devem ficar na média a abaixo dela, principalmente pela influência do El Niño. Já no Centro-Oeste, a expectativa é de precipitações próximas à média, embora Mato Grosso do Sul e o sul de Goiás possam registrar condições mais chuvosas.
As temperaturas também devem apresentar diferenças regionais. A previsão aponta valores acima da média no Norte e no Nordeste, na média a acima dela no Centro-Oeste, próximos à média no Sudeste e na média a abaixo dela no Sul.
A intensidade do El Niño é outro ponto de atenção. Segundo a previsão da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos citada pela pesquisadora, há 75% de chance de que, entre outubro e dezembro, o fenômeno supere a intensidade dos episódios registrados desde 1950.
Ana Carolina explica que o El Niño pode modificar a posição e a intensidade dos jatos atmosféricos, corredores de ventos intensos em grandes altitudes. A intensificação desses ventos favorece o deslocamento de ciclones extratropicais e sistemas frontais para latitudes mais ao norte, ampliando a influência desses sistemas sobre o Sul e o Sudeste.
Os efeitos, porém, variam entre os episódios e conforme a época do ano. Historicamente, durante o verão, o fenômeno tende a favorecer chuvas no Sul e pode reduzir as precipitações no Norte e no Nordeste, aumentando o risco de estiagens. “Nenhum evento de El Niño é igual ao outro”, ressalta a pesquisadora, lembrando que outros fenômenos climáticos atuam simultaneamente.
A nova estação também sucede um agosto excepcionalmente quente em escala global. Conforme os dados do Copernicus apresentados na entrevista, a temperatura média do planeta chegou a 16,96 graus Celsius, tornando agosto de 2026 o mês mais quente da série iniciada em 1940, tecnicamente empatado com julho de 2023. A pesquisadora atribui esse cenário à combinação entre o aquecimento global provocado pelas atividades humanas e a intensificação do El Niño.
Entre as consequências, ela aponta o aumento da frequência de eventos climáticos extremos, o estresse sobre os ecossistemas marinhos e a elevação do nível do mar associada ao derretimento de geleiras. Para acompanhar os possíveis desdobramentos no Brasil, Ana Carolina reforça a importância das previsões sazonais.
Grupo de Estudos Climáticos
O Boletim Climatológico mensal vai ao ar no último dia útil de cada mês e o GrEC é composto de uma equipe multidisciplinar de pesquisadores dedicados ao estudo e monitoramento das condições climáticas e atmosféricas, tanto no Brasil quanto globalmente. Fundado com o objetivo de investigar os fenômenos climáticos e suas consequências, o GrEC atua na previsão de eventos extremos, na análise de tendências climáticas e na elaboração de cenários futuros que ajudam a orientar políticas públicas e estratégias de adaptação às mudanças climáticas.
O grupo é coordenado pelo professor Tércio Ambrizzi, especialista em Climatologia e Mudanças Climáticas, e pela professora Rosmeri Porfírio da Rocha, que foca suas pesquisas em meteorologia aplicada e eventos climáticos extremos. Ambos possuem ampla experiência acadêmica e prática, contribuindo com suas expertises para a produção de estudos e boletins que auxiliam no entendimento dos padrões climáticos, além de participarem de projetos de cooperação nacional e internacional voltados para o clima e o meio ambiente. O grupo tem ainda os pós-graduandos Paola Gimenes Bueno e Christhyan Paixão de Godoy Lopes como coordenadores discentes.
No player abaixo Gabriel Soares entrevista a pesquisadora Ana Carolina Nóbile Tomaziello no Boletim Climatológico completo.
Matéria: Rose Talamone | Jornal da USP.



