Um terço das embalagens plásticas não é reciclado e vira rejeito em aterros
Resultados de pesquisa na Região Metropolitana de São Paulo contribuem para pressionar pela revisão de políticas públicas de logística reversa, em debate no Congresso Nacional

Cerca de 30% das embalagens plásticas que usamos no dia a dia não são recicladas e acabam como rejeito em aterros sanitários por sua composição mista – os laminados de embalagens de salgadinhos, café e sachês, por exemplo. A constatação é de uma pesquisa da USP que realizou um inventário em materiais coletados em três cooperativas da Região Metropolitana de São Paulo. Os dados falam a favor da revisão de políticas públicas sobre a logística reversa de embalagens plásticas, tema atualmente em debate no Congresso Nacional.
O estudo também identificou que empresas como Nestlé, Bauducco, Coca-Cola, Danone, Colgate, Lacta, Aurora e Sadia estão entre as maiores geradoras desse tipo embalagem mas, por manterem forte atuação junto a setores estratégicos do governo, isentam-se da responsabilidade estendida ao produtor.
Essa responsabilidade envolve assumir o ônus financeiro e operacional de todo o ciclo de vida das embalagens e a criação de canais de logística reversa para garantir o retorno de suas embalagens, relata o autor do estudo, o historiador Fábio Luiz Cardozo. “O ônus acaba sendo transferido para os catadores de materiais recicláveis, que enfrentam o aumento da carga horária de trabalho para triagem do material, lidam com maior volume de embalagens no rejeito e sofrem com a perda de renda, uma vez que parte relevante do que é coletado não tem valor econômico”, explica ele.
O pesquisador defendeu sua dissertação de mestrado na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, sob orientação da professora Sylmara Lopes Francelino Gonçalves Dias e coorientação da professora Jutta Gutberlet da University of Victoria (Canadá)
Plásticos e rejeitos nas cooperativas
O plástico apareceu como o segundo material mais recorrente entre os resíduos analisados nas três cooperativas, atrás apenas do papel. Apesar da posição, o plástico foi o item que mais gerou renda para os trabalhadores.
Do material coletado, porém, uma parcela significativa foi classificada como rejeito, sem possibilidade de reciclagem ou reaproveitamento. Os índices variaram entre as unidades: 36% na cooperativa A, 27% na cooperativa B e 33% na cooperativa C.
Segundo o pesquisador, parte dos materiais coletados não apresenta viabilidade econômica para reciclagem devido à dificuldade de separação de seus componentes e às limitações tecnológicas disponíveis. Ele explica que muitas embalagens são compostas de múltiplas camadas, contêm aditivos ou misturas de resinas, além de frequentemente estarem contaminadas por resíduos orgânicos, o que torna o processo caro ou inviável. “No caso brasileiro, o destino mais comum dos plásticos é o aterro sanitário, o lixão ou ficar por ai na natureza: nos rios, no oceano e no solo”, afirma Cardozo.
Entre os resíduos plásticos de difícil reciclabilidade identificados estavam as bandejas de PET (polietileno tereftalato) utilizadas nos supermercados para acondicionamento de alimentos (carne, frutas); as embalagens de polipropileno (PP) comuns em produtos como manteiga, margarina e sorvete; itens de poliestireno (PS) presentes em potes de iogurte, brinquedos e eletrodomésticos, além de garrafas coloridas e copos descartáveis; embalagens de policloreto de vinila (PVC), usadas em películas para alimentos; e o polipropileno biorientado (Bopp), comum em embalagens multicamadas (espelhadas) de salgadinhos, biscoitos e chocolates, além de plásticos contaminados ou com aditivos químicos.
O levantamento feito nas três cooperativas identificou as marcas mais presentes nos resíduos analisados. A Nestlé lidera a lista, seguida por Coca-Cola e Lacta. Outras empresas como Garoto, Bauducco, Agi Frutas, Danone e Tirolez também aparecem com frequência, além de marcas como Colgate-Palmolive, Sadia, Clube Social e Vigor.
Até maio deste ano está aberta consulta pública para contribuições de cidadãos, empresas, especialistas e organizações da sociedade civil sobre a implementação do Decreto nº 12.688/2025, que prevê a regulamentação sobre a logística reversa de embalagens plásticas no País.
Empresas que produzem embalagens não recicláveis
O estudo aponta que grandes empresas do setor de embalagens influenciam políticas públicas sobre resíduos sólidos, atuando em consultas públicas e articulações no governo para evitar assumir responsabilidades pela coleta e reciclagem de seus produtos.
Na opinião de Cardozo, o decreto 12.688/2025 deve mudar esse cenário ao exigir metas mais rigorosas das empresas, como a recuperação de 32% das embalagens plásticas até 2026 e 50% até 2040, além de prever a inclusão de material reciclado nas embalagens (22% em 2026 e 40% em 2040), fortalecendo a economia circular.
Marcas que produzem plásticos não recicláveis
Tabela elaborada pelo autor
Para a professora Sylmara Dias, a implementação do decreto é fundamental para organizar e viabilizar economicamente a logística reversa no País, especialmente por tratar do elo mais caro e complexo da reciclagem, que inclui a coleta, a separação e o retorno desses materiais. “A implementação do decreto é vista como essencial para estruturar a cadeia, distribuir custos de forma mais justa e tornar o sistema de reciclagem mais eficiente e sustentável”, diz.
Em sua avaliação, a pesquisa de Cardozo chamou a atenção para a dimensão do problema dos resíduos e suas causas estruturais, além de mostrar que o impacto desse problema recai diretamente sobre os catadores, que dedicam horas de trabalho a materiais sem valor comercial.
Cardozo defende que a mitigação do problema dos resíduos passa pela responsabilização das empresas, que devem assumir os custos da coleta, triagem e reinserção dos materiais no ciclo produtivo, além de garantir a remuneração adequada dos catadores. Segundo ele, isso exige o redesenho de embalagens, o cumprimento das metas previstas no Decreto nº 12.688/2025 e investimentos em sistemas eficientes de logística reversa.
O pesquisador também ressalta a importância de incluir catadores e cooperativas na formulação de soluções. Como exemplo, cita a criação de um indicador de circularidade de embalagens plásticas, que só considera recicláveis os materiais com viabilidade real de coleta, separação e comercialização.
A participação à consulta pública pode ser feita pela plataforma Brasil Participativo. A dissertação completa pode ser acessada no seguinte link.
Matéria: Ivanir Ferreira | Jornal da USP






