“A solução é alugar o Brasil”. Se o Rauzito não entendia muito bem de política, ao menos esta frase sintetiza profundamente seu desencanto com o país e seus políticos. Não sei se o melhor seria alugar, porque não sei se haveria interessados.
Para alugar o Brasil seria necessário antes sanear o poder público, envolvendo os três poderes. Porque se a gente mostra a situação atual, como está, sem tirar nem pôr, quem entende do traçado sabe que não é bom negócio, e vai se mandar.
É possível pensar que um novo inquilino viria com gás para fazer ele mesmo toda a limpeza de terreno necessária. Mas aqui vivem as almas mais bondosas do mundo, dispostas a ajudar. Em pouco tempo, com a lábia dos nossos grandes colaboradores, o cenário voltaria ao que era antes, com o inquilino novo nos bolsos de Vorcaro.
Além de que, se for para sanear antes, não compensa mais alugar, nem vender, nem trocar, porque aqui, se plantando, adubando, tirando as pragas, tudo dá. Mas é preciso trabalho e determinação e eleger bons representantes. Apenas plantar dá praga rapidinho. Avisa lá o rei.
É o que vivemos, um excesso de pragas. Nunca se imaginou um eleitorado tão despreparado assim, ou nunca se imaginou que até as almas boas do Congresso Nacional seriam corruptos em potencial?
Dias desses escrevi a tese de Machado de Assis, de que a ocasião faz o furto, mas o ladrão já nasce feito. Se essa for de fato a verdade, Brasília não teria jeito, mesmo que se faça uma creche para se educar os nossos futuros governantes.
Um amigo insiste que todos somos corruptos em potencial, só nos faltam as oportunidades para corromper. O dinheiro farto, para ele, é tão sedutor quanto uma princesa apaixonada. Os olhos brilham, as mãos esquentam e o desejo de resolver todos os problemas pessoais forçam a uma decisão limite e desonesta.
Citei também o sociólogo Matthew Shirts, que participava de uma palestra em seu tempo de universitário na Universidade de Berkeley, quando o palestrante soltou a máxima: “Todo homem tem seu preço”. Até que um aluno do fundão perguntou: “Quanto o senhor quer para mudar de ideia?”
Se a tese do meu amigo estiver certa, onde houver Vorcaros, haverá corrupção. Se Machadão estiver com a razão, seria necessário acompanhar as crianças para terem uma moral melhor e aquelas com perfil cleptopata devem ser desviadas de Brasília em tempo.
Agora, se o palestrante de Shirts estiver com a razão, a lógica está perdida, porque certamente ele teria um preço para mudar de ideia. Se as três teses conviverem juntas, o Brasil só terá um destino: “ou se restaura a moralidade ou nos locupletemos todos”.
Frases de efeito criativas há para todos os gostos. Mas, no fundo, no fundo mesmo, acho ainda que a culpa é do eleitor, que não aprendeu a ler. Se aprendeu a ler, não é capaz de entender. Se entende, distorce tudo ao seu gosto e interesse. Precisamos então começar tudo de novo da estaca zero e falar mesmo sobre moral. Acho que é melhor alugar o Brasil.




