Se você apresenta uma foto de Paulo Gonet fumando charuto com a turma de Daniel Vorcaro, em Londres, o PGR nem muda a posição da pupila. É um homem discreto, que não se importa com o que não é o seu ofício. Fumar charuto é apenas o seu hobby.
E, por falar em pupila, Gonet é pupilo de Gilmar Mendes. Logo, logo, o decano do Supremo vai ter que agir como Lula: “Quem é essa tal de Gonet?” Porque as relações de causa e efeito, desde Aristóteles, influenciam muito a gente. Flávio Dino sabe disso (aqui pode rir).
Mas é fato inconteste que Gonet foi indicado por Gilmar Mendes, seu fiel escudeiro. Suponho que não cheguem a ser como Dom Quixote e Sancho Pança, em que um colocava a mão no fogo pelo outro, apesar das loucuras do cavaleiro apaixonado. Ou melhor, Sancho tornou-se um grande admirador de Quixote, apesar de sua pequena estatura. Algumas paranoias de Quixote até o encantavam.
Mas, quando falamos em pequena estatura no STF, estamos falando em moral. O tamanho de um homem se mede pela sua moral, como diria um certo argentino. A análise é outra. Posso dizer que Gonet é o cão de guarda de Gilmar e dali só saem questões relacionadas aos inimigos do seu dono e nada mais.
Gilmar é tão esperto que pensou em tudo. Ele só não acreditava que Gonet ia ser tão ingênuo a ponto de querer aparecer em foto, como esta, publicada hoje (19) pelo Estadão:
Gonet garante que a foto foi tirada em 2024, quando Vorcaro ainda era somente um grande banqueiro, não um investigado, e gostava de pagar charuto para autoridade palaciana. O PGR, evidente, não vê conflito de interesses nisso. Mas façamos uma retrospectiva, com a ajuda da IA:
• 2021: o BC já havia determinado ajustes no Master relacionados a problemas na qualidade e na composição de seus ativos, segundo documentos posteriormente analisados pelo TCU.
• 2023: a situação começou a ficar mais delicada com as mudanças regulatórias envolvendo precatórios. O Master tinha mais de R$ 6 bilhões nesses ativos e passou a enfrentar maior pressão sobre capital e liquidez.
• Primeiro semestre de 2024: este é um marco importante. O próprio BC informou posteriormente ao TCU que passou a fazer “acompanhamento contínuo da gestão de risco de liquidez” do Master, porque o banco tinha muitos desembolsos previstos e baixo estoque de ativos líquidos.
• Segundo semestre de 2024: a situação se agravou. O Master havia planejado captar R$ 15 bilhões em recursos institucionais de longo prazo, mas conseguiu apenas R$ 2 bilhões. O BC também identificou problemas de capital, liquidez e gerenciamento de risco de crédito.
• Novembro de 2024: houve um termo de compromisso com o BC, dando ao Master aproximadamente seis meses para adequar questões de governança, capital e liquidez.
• Janeiro de 2025: o BC passou a analisar especificamente novas carteiras que o Master estava criando para captar recursos, apesar dos problemas de liquidez. Segundo Gabriel Galípolo, isso chamou a atenção da autoridade monetária.
• Março de 2025: o BRB anunciou a compra de 58% do Master. A própria tentativa de venda pode ser vista como um indicativo público de que o banco precisava de uma solução para sua situação financeira, embora o anúncio não significasse, por si só, que o banco estivesse insolvente.
• 18 de novembro de 2025: finalmente, o BC decretou a liquidação, mencionando expressamente “grave crise de liquidez” e “comprometimento significativo” da situação econômico-financeira do conglomerado.
Está mais do que claro que havia conflitos de interesses já no período da foto de Gonet com o charuto em Londres e que o Banco Master precisaria do PGR, assim como precisaria de Gilmar Mendes. Há matérias no Estadão identificando pessoas próximas a Gilmar que movimentavam dinheiro grosso vindo do Banco Master. Devagar o roteiro perfeito vai se compor.
O jornalismo investigativo pegou Alexandre de Moraes. O jornalismo investigativo vai pegar Gilmar Mendes. E ele terá que se explicar melhor, sem discursinho de engambelação. É só uma questão de tempo. Os indícios já existem. Mas quem é esse tal de Gilmar Mendes?





