
Em geral, a primeira língua da criança surda no Brasil é a língua brasileira de sinais, conhecida como Libras. Todo o aprendizado do estudante surdo deve ser mediado pela modalidade gestual-visual, que permite o acesso ao conhecimento das diversas disciplinas escolares, entre elas o português. Libras, portanto, é a língua de interação e instrução dessa criança, enquanto o português é a sua segunda língua. Mas a barreira linguística que se impõe neste contexto cria obstáculos ao aprendizado da língua portuguesa escrita.
Para solucionar essa lacuna pedagógica, um projeto interinstitucional sediado na Unicamp desenvolve uma pesquisa aplicada a políticas linguísticas nacionais para a educação de surdos que resulte na criação de material didático próprio para esse grupo linguístico.
“Ainda há surdos que saem da escola sem ter aprendido o português”, afirma Ivani Rodrigues Silva, especialista em linguística aplicada, docente de Fonoaudiologia da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp e pesquisadora responsável do projeto Centro de Ciência para o Desenvolvimento de Tecnologia Assistiva para a Educação Bilíngue de Surdos (CCD-TAEBS). Esse trabalho é realizado em parceria com pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal do ABC (UFABC), com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Iniciado em 2024, o projeto tem duração prevista de cinco anos e conta com o apoio da Secretaria de Educação do município de Campinas.
“O surdo hoje está dentro das escolas utilizando, para sua aprendizagem, as mesmas metodologias das crianças e jovens ouvintes. Isso tem produzido falhas na formação escolar, já que ele termina o ensino médio sem uma produção textual ou uma compreensão leitora semelhante à do ouvinte”, afirma Silva. “
Não é porque o surdo é surdo que ele não consegue passar no vestibular, mas sim porque até agora a escola está falhando em relação ao seu ensino”, acrescenta. Segundo ela, a proposta é fazer um material específico para essa minoria linguística, de modo a inserir o sujeito surdo na sociedade letrada.
Amparados pela lei
A Libras é reconhecida como a língua natural para pessoas surdas pela Lei 10.436/2002, que estabeleceu o seu uso cotidiano como direito do surdo. Além de garantir o acesso dos surdos à educação, o que é um direito previsto na Constituição, a norma promoveu uma grande mudança na perspectiva desses indivíduos como cidadãos. Porém, apesar da legislação favorável, “a operacionalização da educação bilíngue para surdos ainda está por vir”, constata Silva.
Em 2005, o Decreto 5.626 complementou a lei de 2002 estabelecendo diretrizes para a educação bilíngue e reconhecendo que os surdos têm uma língua natural diferente da língua da maioria dos brasileiros e que, consequentemente, o português deve ser ensinado aos surdos como segunda língua.
“Houve avanços legais, mas a oferta de material de ensino dirigido à comunidade surda é escassa e não atende ao desenvolvimento das interfaces de leitura e escrita da língua portuguesa. A escola continua utilizando os materiais de ouvintes para ensinar surdos, e as metodologias são as mesmas. Isso representa um apagamento desses estudantes em nossas escolas”, diz a professora. “Ainda há pouca sensibilização da sociedade e pouco mudou no cotidiano.”
“Acreditamos que o ensino deve ser na língua forte do aluno, mas ele precisa também aprender a língua da sociedade envolvente”, defende Silva, que atualmente coordena o Centro de Estudos e Pesquisas em Reabilitação Prof. Dr. Gabriel O.S. Porto (Cepre), que serve de sede ao projeto da Fapesp.
Criado na Unicamp em 1973 para atendimento a pessoas com deficiência visual e auditiva, o centro ampliou suas atividades, anos depois, para o ensino e a pesquisa. Com uma equipe multiprofissional, a instituição também contribui para a formação de alunos de graduação, pós-graduação e especialização.

O profissional surdo
“Esse projeto tem uma relevância muito grande em relação à educação em língua de surdos, do português como segunda língua, porque foram identificadas lacunas no aprendizado dos surdos, que precisam ter um ensino equivalente ao dos ouvintes. É também um trabalho muito importante que valoriza e faz reflexões a respeito do trabalho do profissional surdo”, diz Luciana Aguera Rosa, professora surda que integra a equipe de pesquisadores do Cepre, onde trabalha há dez anos.
Rosa sempre estudou em escola pública de ouvintes, até o ensino médio. “Tive que me esforçar muito para desenvolver a escrita, com apoio de amigos e da família. Precisamos lutar constantemente pelos nossos direitos”, conta a professora, que fez graduação em Letras-Libras no polo Unicamp, uma parceria da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) com a Faculdade de Educação (FE) da Unicamp.
“Nós, surdos, estamos sempre atrasados em relação aos ouvintes”, relata Rosa, que também foi aluna do Cepre. “Tenho muito orgulho desse centro porque ele me ajudou muito e impactou demais na minha vida. Lembro de quando eu era pequena, numa época em que ainda não existia Libras nas escolas, antes da promulgação da lei de Libras.”
Ela é pós-graduada na área de Educação e tem como meta incentivar o desenvolvimento educacional das pessoas surdas. “Eu sei o quanto é angustiante a dificuldade na escrita. Sei o quanto os alunos surdos sofrem com o português como segunda língua, porque eu também sofri.”
A estudante surda Thays Silva de Oliveira, de 13 anos, também encontra barreiras no aprendizado do português. “Nasci surda e meus pais descobriram quando eu tinha nove meses. No Cepre me ensinam as palavras e a estrutura do português. Eu acho importante ter ensino voltado para os surdos, para conseguirmos fazer provas e mais atividades”, diz ela, que cursa 8º ano do ensino fundamental e quer estudar Medicina.
Márcia Alves Antonia da Silva, mãe de Lerrandro, de 15 anos, leva o filho ao Cepre desde os seus 8 anos para sessões de fonoaudiologia. Ele nasceu surdo. “Como mãe, você se sente incapaz. Procurei ajuda de todos os lados.” Lerrandro fez um implante coclear na Unicamp e hoje consegue falar, mas ainda está em processo de aprendizagem do português. “Apesar de alfabetizado, se você colocar um texto na frente dele, ele vai ler, sem entender. Por isso eu acho que tinha que ter um material apropriado para surdos, como tem para pessoa ouvinte. Ele quer fazer faculdade”, diz a mãe.

Equipe multidisciplinar
A equipe multidisciplinar do projeto tem formações distintas em áreas como linguística, artes, pedagogia e fonoaudiologia. Nos dois primeiros anos, o projeto focou no mapeamento e na pesquisa etnográfica, em parceria com a escola municipal, seus professores e gestores. “O que estamos procurando fazer é uma pesquisa que construa subsídio para uma política linguística realmente voltada para o estudante surdo”, afirma Ana Cecília Cossi Bizon, professora do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) e uma das pesquisadoras principais do CCD-TAEBS.
Segundo Bizon, essa é uma área ainda com pouca pesquisa, e o trabalho do Cepre, anterior ao projeto, tem contribuído também para a formação de um corpo de pesquisa. “O Cepre é um lugar transdisciplinar que se tornou referência nessa área, capaz de subsidiar uma política pública e linguística que tenha impacto direto para essa população.”
De acordo com a pós-doutoranda e pesquisadora do CCD-TAEBS Cássia Sígolo, a comunidade surda é muito diversa. “Em alguns casos é um surdo filho de pais surdos, então a língua de sinais circula em casa como língua natural; ou um surdo filho de pais ouvintes, caso em que o surdo vai ter aquisição tardia da Libras e isso vai impactar no processo de escolarização. Há também grupos mais vulneráveis por questões raciais, sociais ou econômicas”, explica.
De acordo com a professora da FCM e do Instituto de Artes (IA) Lucia Reily, o projeto é focado no aprendizado do português, mas a equipe identifica também uma demanda reprimida entre os professores de outras disciplinas, como inglês, história, geografia, química, física e matemática. A pesquisadora e pós-doutoranda Tatiana Martins Gabas reforça a ideia de que o ensino da língua portuguesa não serve apenas para as aulas de português no contexto da escolarização, mas também para aprender todos os outros conteúdos.
A equipe conta ainda com a pós-doutoranda Marcela Dezotti Cândido, que desenvolve uma proposta curricular que subsidie a elaboração de materiais didáticos para estudantes surdos, e a pesquisadora grega Maria Mertzani, bolsista de pós-doutorado no CCD-TAEBS. Segundo Mertzani, desde 2004 a Grécia tem educação bilíngue como política nacional. Isso significa que existe um currículo nacional para língua de sinais grega e um currículo para o grego como segunda língua para os alunos surdos. Parte da equipe multidisciplinar já visitou o Reino Unido e deve ir à Suécia para conhecer o modelo de ensino para surdos nesses países.
PARCERIA COM A ESCOLA
A parceria do projeto CCD-TAEBS em Campinas acontece com a Escola Municipal de Ensino Fundamental e Educação Infantil (Emefei) Júlio de Mesquita Filho, um estabelecimento bilíngue português-Libras localizado no Jardim São Vicente. São cerca de 430 estudantes ouvintes e 75 crianças surdas. Os alunos surdos são provenientes de 50 bairros diferentes e dispõem de transporte da prefeitura. Já as crianças ouvintes residem em bairros no entorno da escola. Em 2015, quando se tornou bilíngue, havia apenas seis crianças surdas.
“Desde 2024, o projeto tem contribuído com elementos para tecer uma prática de ensino da leitura e da escrita focada na Libras como primeira língua e no português como segunda língua”, diz a vice-diretora Danieli Tasca. “Também é nosso objetivo que os alunos surdos tenham autonomia fora da escola.”
A Emefei Júlio de Mesquita Filho é uma escola em período integral, com aulas das 7h20 às 15h50. Por seu caráter bilíngue, a escola inclui a Libras como disciplina obrigatória inclusive para alunos ouvintes. A escola conta com professores bilíngues Libras-português que atuam junto aos professores polivalentes e especialistas, como os de português e inglês.
Mariana Bonotto, professora de inglês da Emefei Júlio de Mesquita, teve seu primeiro contato com uma língua de sinais na igreja católica. Mais tarde, fez curso de Libras. “Quanto mais o surdo conhece a estrutura do português, mais ele pode fazer comparações com o inglês”, explica Bonotto, que também explora recursos visuais em sua aula.
“Estamos traçando um panorama dos principais obstáculos para poder levar propostas sobre estratégias e material didático que deem ao professor mais autonomia em relação ao processo. Queremos deixar alguns princípios como contribuição, porque aprender língua não é só aprender vocabulário”, diz Silva.
CAMINHOS ATÉ O PORTUGUÊS
Relatos (em Libras) de surdos da Emefei Júlio de Mesquita Filho
Stephany Cirilo de Oliveira, 27 anos, ex-aluna e instrutora de Libras – Fui aluna da escola Júlio de Mesquita e hoje trabalho aqui como instrutora de Libras. Fiquei surda após ser acometida pela meningite na infância, aos três meses de idade. Estudei antes em outra escola que não tinha Libras. Eu era sozinha, sem amigos. No português escrito, eu sempre copiava, mas não entendia o significado de algumas palavras. Eu só copiava. Na Júlio, consegui ter compreensão porque ensinavam as duas línguas. Comecei a aprender português e desenvolvi. Também tinha interação entre os alunos, eu conversava, tinha amigos, e comecei a avançar. Consegui me formar em Pedagogia, porque quero motivar as crianças surdas para que não sofram como sofri no passado. Hoje, as crianças me veem como modelo. Afinal de contas, superei os desafios. Sou casada, trabalho, dirijo meu carro e posso mostrar aos surdos que eles conseguem fazer igual.

Gustavo da Silva Venâncio, 14 anos, estudante – Nasci surdo e tenho um irmão ouvinte que me ensinou a falar algumas palavras. Não gosto de estudar português, porque às vezes as palavras são difíceis, mas consigo ler livros. Acho que deveriam nos ensinar mais palavras para aprendermos melhor o português. Na escola, a disciplina de que mais gosto é geografia. Gosto das atividades com ouvintes e surdos juntos. Sou muito observador. Quando estou passeando, se eu tenho dúvida, eu pergunto. Quero trabalhar como caminhoneiro na vida adulta.
Dashca Pierre, 18 anos, estudante – Nasci no Haiti. Minha surdez é consequência da meningite. Há seis anos, nos mudamos para o Brasil. Tive dificuldades na comunicação, mas aqui na escola Júlio estou mais feliz porque consigo me comunicar. O português é adaptado para os surdos pela língua de sinais, com intérpretes, mas ainda assim o português é difícil para mim. As imagens me ajudam a entender a palavra e o contexto. Minhas disciplinas preferidas são ciência, geografia e artes.
Keven Alexandre da Silva Bernardes, 13 anos, estudante – Minha mãe e meu pai também são surdos. O resto da família é ouvinte. Nasci ouvinte e fui perdendo a audição. Quando estou na rua, no supermercado ou na loja, se eu não consigo ler, vou embora sem perguntar. Procuro observar mais, para perguntar menos. Uso várias estratégias. Na lanchonete, faço o pedido olhando a imagem. Preciso aprender mais o português. Na escola, gosto de interagir com os ouvintes e os surdos. Quero ser jogador de futebol.
Matéria: Adriana Vilar de Menezes | Jornal da Unicamp.



