Vamos conversar hoje com uma pessoa que tem uma vasta formação em miudezas intelectuais e um entendimento político do Brasil e do mundo de enraivecer petistas.
Ele acompanha política desde quando Tancredo Neves ainda era uma esperança nacional; Ulysses Guimarães atuava com brilhantismo em um Congresso Nacional carregado de pessoas despreparadas, como hoje, e também se absteve na eleição presidencial entre Collor e Lula, quando o caçador de Marajás foi eleito e deseleito.
Jornalista 60+, lê ainda livros de papel e sabe o preço que é ser um pensador independente. Por sinal, está sempre aberto a negociações, desde que os interessados em comprar suas ideias não esperem por milagres e não sejam petistas. Afinal, ensinar algo a um petista é um verdadeiro milagre.
Romualdo Cruz Filho, o que você espera das eleições deste domingo, 4 de outubro?
Eu esperava. Agora não espero mais nada. Dos dois candidatos que lideram a pesquisa, um eu conheço o DNA, o outro eu conheço a mãe. Por falar em mãe, a minha já dizia que pau que nasce torto nunca se endireita, e Lula é mais torto que imburana. Brincadeira, eu não conheço a mãe de Flávio Bolsonaro, só o pai. Mas já é o suficiente.
Por que você acha que o Brasil chegou a esse grau de tensão entre dois extremos?
Corrupção é a explicação que considero a mais plausível. Além da ideologia. A corrupção é do que todo mundo lá em Brasília mais entende. Uns a praticam mais, outros, menos. Eu compararia o cenário dos extremos a dois ímãs. Um lado é a corrupção e outro é a ideologia. Quando a corrupção se aproxima da ideologia, ambos se atraem. Quando a ideologia encontra a ideologia, eles se repelem.
Faltou o encontro da corrupção com a corrupção.
Aí cada um tem o seu esquema e se distanciam na tentativa de não serem descobertos pela Polícia Federal, apesar de a fonte ser sempre o Banco Master, de Daniel Vorcaro.
O que está acontecendo com o STF?
Os ministros se locupletaram. Era muito dinheiro fácil na jogada. Claro que não foram todos os que colocaram a mão na botija, mas somente aqueles que tinham mais uma tendência natural. Cito sempre Machado de Assis nestas circunstâncias. A ocasião faz o furto, mas o ladrão já nasce feito. Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, Flávio Dino, Kassio Nunes Marques, entre outros, estão sendo apenas vítimas da ocasião.
Qual o conselho que você dá aos eleitores?
Que votem, se quiserem votar. Que não votem, se não quiserem votar. É natural, diante de tanta nulidade, não saber escolher o menos pior. Todo eleitor normal gostaria de estar com o pé na areia no dia 4, tomando caipirinha e comendo camarão, e não tendo que enfrentar fila em urna eletrônica. Votar é chato e só gera inimizade.
Esta opinião não é avessa à teoria de que todo homem é um ser político?
A teoria na prática é outra, como diria Joemir Betting. Claro que eu defendo que as pessoas tenham consciência e votem. Mas desde a redemocratização, o único candidato digno de um voto de olhos fechados no país foi Fernando Henrique Cardoso. Mas, no seu segundo governo, já foi necessário abrir bem os olhos, porque é o início da política do toma lá dá cá, como a conhecemos, em que a corrupção compra qualquer ideologia.
Então, quer dizer que você é pessimista quanto ao futuro?
Espero pelo futuro desde um passado remoto. Sou o oposto de Stefan Zweig, aquele que dizia ser o Brasil o país do futuro. Como Paulo Francis e Millôr Fernandes, penso que o Brasil tem um grande futuro pelas costas. Quando olho para o passado, vejo grandeza. Quando olho para a frente, há sempre um idiota me fazendo perguntas aborrecedoras.



