
Apontei em outra ocasião que o tema do Salão Internacional de Humor de Piracicaba deste ano seria um debate equivocado sobre inteligência artificial. Enquanto os organizadores do evento se animavam em afirmar que a IA estabeleceria um conflito essencial entre o homem e a máquina, em minhas observações considerei que não haveria tal conflito, mas sim que a tecnologia exigiria habilidade para ser adaptada a fim de contribuir com o desenvolvimento humano e o bem-estar social.
O entendimento da tecnologia (IA) exigiria, sim, um certo tempo, até porque não se sabe ainda a sua exata dimensão nem do que ela será capaz de nos proporcionar. Mas tudo aconteceria na seara humana, como se deu com a internet. O processo de adaptação à nova tecnologia seria similar assim como o uso racional da máquina para se resolver problemas reais. Novos campos de pesquisa se abririam com o surgimento de plataformas inovadoras de integração, enfim.
O tema do Salão de Humor se fixou e serviu de base para muitos trabalhos apresentados. O ganhador, por sinal, foi o artista brasileiro Thiago Lucas, que ficou com o prêmio máximo do evento. E o que traz sua obra? A imagem é clara. Há alguns robôs (seis deles) sentados à espera de uma entrevista de emprego. O sétimo é um ser humano que procura se parecer com uma máquina,com uma roupa imitando um robô, mas feita de papelão, artesanal.
A mensagem primeira é a de que o homem terá que, no mínimo, se parecer com uma máquina se quiser emprego no campo dominado pela IA. Mesmo que tente fazer isso, não conseguirá, porque sua natureza é outra. Nesse sentido, o trabalho responde ao enunciado da proposta temática do salão, que trata da perda da alma em decorrência do predomínio das novas tecnologias, que substituiriam o ser humano.
Mas uma leitura aberta da obra vê outra coisa, se considerar o que não está desenhado. A pergunta seria: “Quem vai fazer a entrevista? Um ser humano ou uma máquina? Se for um ser humano, ele não vai distinguir a melhor máquina em uma entrevista, uma vez que todas são aparentemente iguais. Só saberá falar com o último candidato, que é um ser humano. Falso conflito.
Mas se for uma máquina a responsável pela seleção, a entrevista seria completamente desnecessária, uma vez que as máquinas em busca de emprego poderiam ser apresentadas apenas descritivamente, em um catálogo, talvez, onde estariam dados sobre sua capacidade de processar informações, memória e funções, além de outras bases que lhe dão robustez e desempenho. Falso conflito.
Mas poderíamos dizer: mesmo assim, há um conflito presente, em que o homem disputa espaço com as máquinas em um território vital para ele sobreviver, que é o território do trabalho. Mas para dirimir essa disputa não seria necessária uma entrevista de emprego. A entrevista, por sinal, cria uma falsa controvérsia, boa apenas para a fantasia dos organizadores e selecionadores do Salão Internacional de Humor de Piracicaba.
A internet abriu novas frentes de trabalho, muito mais bem qualificados e com maior remuneração do que antes, no mundo inteiro. A IA tende a seguir por este mesmo caminho. O olhar assustado para a nova tecnologia impede que se veja seu potencial disruptivo e renovador. A alma morre não quando supomos que a máquina vencerá, mas sim, quando o homem não consegue mais rir das suas próprias limitações e se entrega a pensamentos que tiram o humor da sua vida.
Com o homem-máquina-de-papelão o humor prevalece e o falso debate se evidencia. O prêmio é mais válido ainda pelo fato de a obra de Thiago Lucas rir do debate equivocado que foi estabelecido. Porque se quisesse de fato disputar espaço com as máquinas, ele saberia muito bem como se disfarçar. Ou melhor, nenhum disfarce seria possível. Thiago não perderá o emprego por causa da IA, isso fica evidente. A não ser que apareça um novo candidato mais criativo que o homem-máquina-de-papelão, que não esteja na imagem, com capacidade para desestruturar seu entendimento da situação.




