Estamos prontos para um terremoto? O que a Venezuela nos ensina sobre construção segura
Saiba mais sobre a atuação das equipes de ajuda brasileiras

No último dia 24 de julho, dois terremotos de magnitude 7,2 e 7,5 ocorridos em um intervalo inferior a um minuto atingiram a Venezuela, causando até agora, dia 6 de julho, 3.500 óbitos e mais de 16 mil feridos. Dezenas de milhares de pessoas ainda estão desaparecidas. Além das perdas humanas, os abalos sísmicos causaram danos graves a hospitais, escolas, prédios residenciais, estabelecimentos comerciais, entre outras edificações urbanas.
Diferentemente dos terremotos comuns, em que são esperados réplicas posteriores, mas de intensidade mais fraca, no caso da Venezuela ambos os tremores foram eventos principais, de alta magnitude e com epicentros muito próximos (na cidade de La Guaíra, no litoral do país). Nesse contexto, estruturas que já estavam abaladas em virtude do primeiro tremor sofreram novos impactos, aumentando o risco de colapso. Estimativas do governo local apontam que mais de 800 prédios sofreram danos em todo o país, embora outras análises independentes apontem números ainda maiores de edifícios impactados.
Atualmente, equipes de mais de 20 países atuam na busca e no resgate de vítimas, atendimento médico, gestão de mantimentos, entre outras atividades humanitárias. O engenheiro Irineu de Brito Júnior comenta que, em tragédias decorrentes de terremotos, a qualidade da resposta nas primeiras 72 horas é extremamente importante para minimizar o número de perdas fatais. “O que a gente observa pela mídia são falhas nessa resposta. Apesar de a Venezuela ter boa parte do país situado em uma falha geológica já conhecida, não parecia haver equipes de resposta treinadas e equipadas para esse tipo de desastre. Eles estão dependendo muito da ajuda internacional”, afirma professor de Gerenciamento de Risco e Logística Humanitária na Unesp, no câmpus de São José dos Campos.
Impactos causados por terremotos, explica o professor, podem provocar um alto número de vítimas fatais pois este é uma ocorrência em que é praticamente impossível disparar alertas prévios. É uma situação diferente do que acontece, na maior parte do eventos causados por extremos climáticos, em que é possível, por exemplo, observar a formação de uma tempestades com altos volumes de água e alertar a população local a deixar áreas vulneráveis e procurar um abrigo seguro. “O terremoto é o que a gente chama de início súbito. Ele não manda aviso. Hoje os melhores modelos de previsão conseguem alertar para um terremoto com no máximo um minuto de antecedência”, afirma.
Brito Júnior destaca que um dos grandes desafios de operações humanitárias nesse tipo de tragédia é o gerenciamento dos diferentes atores que acabam atuando voluntariamente nos territórios atingidos. O docente lembra que no terremoto que atingiu o Haiti, em 2010, foram mapeadas mais de 8 mil organizações atuando na tragédia. “Ter uma forma de coordenar toda essa resposta é extremamente importante no processo de resposta aos desastres. Em geral, existe a estrutura da Defesa Civil e depois você tem níveis solidários em que não existe uma hierarquia formal estabelecida. Nesses casos, a capacidade de coordenação é extremamente importante”, explica. Entre os atores envolvidos em uma tragédia como a venezuelana estão as forças armadas, organizações não-governamentais, defesa civil, equipes médicas e corpos de bombeiros.
O docente elogia a capacidade de ajuda brasileira, que enviou mais de 150 profissionais ao país vizinho entre bombeiros, fuzileiros navais, profissionais de saúde, engenheiros estruturais da Defesa Civil e técnicos da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), que atuam na localização de sinais de celulares de possíveis vítimas sob os escombros. O apoio inclui ainda cães de busca e aviões de carga carregados com vacinas, medicamentos e insumos. “Muitas vezes em um processo de resposta você é mais uma boca pra ser alimentada e mais um que precisa de cama pra dormir. Um diferencial das equipes brasileiras é que elas são extremamente bem treinadas e independentes, levando sua própria comida e abrigo”, diz.
Por ser um evento em que é difícil disparar um alerta prévio, é ainda mais importante que os países afetados por terremotos estejam previamente preparado para esses eventos, não apenas com equipes bem treinadas, mas também planejando imóveis adequados para os tremores. “A construção que é feita nesses locais precisa estar preparada para terremotos”, explica o engenheiro. “O nível de colapso que nós vemos nas imagens dos telejornais não permite ver se os códigos construtivos foram suficientes para suportar esse tipo de terremoto ou se eles nem sequer seguiram esses códigos”, argumenta o professor. Nesse sentido, afirma, é comum que países que sofrem com recorrentes abalos sísmicos elaborem códigos construtivos que regulamentem o projeto dos edifícios de forma a reforçar a sua estrutura para limitar o impacto dos terremotos, exigindo o uso de materiais específicos, juntas de dilatação e fundações profundas ou flutuantes.
Matéria: Renato Coelho | Jornal da Unesp.



