Esalq conecta a ciência ao mundo para enfrentar os desafios do século
Centros internacionais, institutos nacionais, redes de pesquisa, inovação e empreendedorismo mostram como a Esalq ampliou sua atuação para além dos limites físicos do campus
Durante décadas, bastava dizer Esalq para que a imagem surgisse quase automaticamente: os prédios históricos, os gramados, o relógio do edifício central e as árvores centenárias que acompanham gerações de estudantes desde 1901.
Mas existe outra Esalq, menos visível para quem atravessa seus portões pela primeira vez. Ela está nos laboratórios compartilhados por pesquisadores de diferentes áreas, nos centros internacionais de pesquisa, nas redes nacionais de ciência e tecnologia, nos projetos desenvolvidos em parceria com empresas e nas estruturas criadas para aproximar conhecimento científico, inovação e sociedade.
Aos 125 anos, a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP reúne uma estrutura que vai muito além do ensino e da pesquisa realizados dentro de seus departamentos. Se a terceira reportagem desta série apresentou alguns dos principais desafios que deverão moldar a agricultura nas próximas décadas, das mudanças climáticas à inteligência artificial, passando pela segurança alimentar e pela agricultura de baixo carbono, este quarto capítulo olha para alguns dos lugares onde as respostas começam a ser construídas.
Atualmente, a escola reúne 425 projetos de pesquisa ativos, mais de 140 laboratórios de ensino, pesquisa e prestação de serviços, sete centrais multiusuários, 393 convênios de pesquisa vigentes, cerca de 85 instituições internacionais parceiras e 17 programas de pós-graduação. A amplitude dessa estrutura acompanha uma transformação na própria maneira de fazer ciência. Questões relacionadas à produção de alimentos, clima, biodiversidade, saúde, energia e tecnologia passaram a exigir a atuação conjunta de diferentes especialidades.
A diretora da Esalq, professora Thais Maria Ferreira de Souza Vieira, afirma que a escola tem procurado estimular projetos transversais e transdisciplinares, integrando seus 12 departamentos. “A gente não consegue mais trabalhar com as coisas em caixinhas separadas. Você tem que ter equipes transdisciplinares”, afirma.
A gente não consegue mais trabalhar com as coisas em caixinhas separadas. Você tem que ter equipes transdisciplinares”
Thais Maria Ferreira de Souza Vieira,
diretora da Esalq - Foto: Denise Guimarães/Esalq
Essa lógica aparece também nas redes construídas fora do campus. Para a professora Aline Cesar, presidente da Comissão de Pesquisa e Inovação da Esalq, a colaboração tornou-se parte fundamental da produção científica. “A Esalq mantém parcerias com universidades, centros de pesquisa, empresas e institutos nacionais e internacionais em diversos países. Essas redes nos permitem compartilhar conhecimento, desenvolver tecnologias em conjunto e fazer com que as soluções geradas aqui tenham impacto global. A ciência deixou de ter fronteiras, e os desafios que enfrentamos também são globais.”
Foto: Divisão de Comunicação / Esalq
Da França para Piracicaba
Uma dessas conexões ganhou nova dimensão nos últimos anos com a aproximação entre a USP e o Instituto Nacional de Pesquisa para Agricultura, Alimentação e Meio Ambiente da França (INRAe). Para Thais, a relação tem uma ligação histórica com a própria formação da Esalq. Luiz de Queiroz realizou parte de seus estudos na França e, segundo a diretora, muito do modelo adotado pela escola em seus primeiros anos teve influência do sistema francês de ensino agrícola, fortemente associado à formação prática.
A colaboração institucional com o INRAe começou a se estruturar em 2023. Em 2024, USP e instituto francês assinaram um convênio de cooperação e um termo de intenção para a criação de um laboratório internacional associado. A parceria avançou até a formação de um centro internacional de pesquisa sediado administrativamente na Esalq e dedicado à saúde planetária. O conceito procura integrar dimensões que durante muito tempo foram estudadas separadamente. Thais explica que o centro envolve ambiente, produção de alimentos, economia, inteligência artificial, ciência de dados e saúde pública, reconhecendo inclusive os efeitos da alimentação sobre a saúde. A iniciativa exemplifica o tipo de abordagem que a direção considera necessária diante de problemas globais. “A palavra de ordem agora é sempre sistemas”, resume Thais.
O carbono como ponto de encontro
Também está sediado na Esalq o Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical (CCarbon), criado em 2023 como Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Coordenado pelo professor Carlos Eduardo Pellegrino Cerri, o centro reúne pesquisadores em programas voltados ao solo, às plantas, aos animais, à atmosfera e às ferramentas digitais.
O carbono funciona justamente como elemento capaz de conectar essas diferentes dimensões. “O carbono está presente em nós, nos outros animais, está presente na água, está presente na atmosfera, nas plantas, no solo. Então, a gente usa esse elemento carbono como indicador dessas relações entre solo, planta, animal, atmosfera, água”, explica Cerri.
O centro estuda tecnologias e soluções relacionadas ao carbono diante de um dos principais desafios apresentados pelo pesquisador: ampliar a produção de alimentos, fibras e energia com menor emissão de gases de efeito estufa. Cerri ressalta que diminuir as emissões é apenas parte da resposta. “Não adianta só reduzir as emissões de gases, tem que remover parte dos gases que estão lá na atmosfera. É o chamado sequestro de carbono.”
Nesse processo, plantas e solo têm funções complementares. As plantas retiram dióxido de carbono da atmosfera pela fotossíntese; parte do material vegetal retorna ao solo e é decomposta por microrganismos, permitindo que uma parcela do carbono permaneça armazenada. Além do efeito climático, esse carbono melhora atributos físicos, químicos e biológicos do solo, criando melhores condições para o desenvolvimento das plantas. Para Cerri, forma-se assim um ciclo virtuoso entre produção, qualidade do solo e redução dos impactos ambientais.
Não adianta só reduzir as emissões de gases, tem que remover parte dos gases que estão lá na atmosfera. É o chamado sequestro de carbono”
Carlos Eduardo Pellegrino Cerri, professor e pesquisador da área de carbono do solo e mudanças climáticas da Esalq - Foto: Divisão de Comunicação / Esalq
Sede do CCarbon no campus da Esalq, em Piracicaba - Foto: Divisão de Comunicação / Esalq
Agricultura sustentável em escala global
Outro exemplo dessa organização em torno de grandes problemas científicos é o Centro de Agricultura Tropical Sustentável (Sustainable Tropical Agriculture Center – STAC), instalado na Esalq e voltado à pesquisa em agricultura tropical sustentável. A proposta dialoga diretamente com uma característica destacada por Aline Cesar: temas como clima, produção de alimentos, biodiversidade, saúde e tecnologia estão cada vez mais interligados e exigem pesquisas desenvolvidas por diferentes áreas. Entre as linhas de pesquisa desenvolvidas na escola, ela cita agricultura tropical sustentável, saúde do solo, agricultura de baixo carbono, bioenergia, bioinsumos, agricultura digital, inteligência artificial, ciência de dados, robótica, biodiversidade e segurança alimentar e nutricional.
São áreas diferentes, mas frequentemente atravessadas pelos mesmos problemas. Para Aline, a interdisciplinaridade é uma característica forte da pesquisa desenvolvida na Esalq. Especialistas em agricultura, ciência dos alimentos, biotecnologia, engenharia, inteligência artificial, genética, bioinformática e sustentabilidade atuam em questões que exigem a combinação de diferentes conhecimentos.
A própria Thais relaciona essa estratégia à formação de projetos em rede. Segundo ela, a escola passou a induzir iniciativas transversais capazes de reunir pesquisadores de diferentes departamentos, ampliar a captação de recursos e aumentar o impacto das pesquisas.
Ciência em rede
Os centros apresentados nesta reportagem representam apenas uma parte da estrutura científica ligada à Esalq e ao campus de Piracicaba. Pesquisadores da escola também lideram ou participam de Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs), programa voltado à formação de redes nacionais de pesquisa.
Entre eles está o INCT de Bioinsumos Inovadores, coordenado pelo professor Ítalo Delalibera Júnior e voltado ao estudo de microrganismos e outras soluções biológicas aplicadas à agricultura. A trajetória dessa área na Esalq começou muito antes de a palavra bioinsumo ocupar espaço no vocabulário corrente da agricultura. Delalibera lembra que a escola foi pioneira na formação em Entomologia e que o laboratório que atualmente coordena foi o primeiro do País dedicado à patologia e ao controle microbiano de pragas.
Criado pelo professor Sérgio Batista Alves, o laboratório participou de programas que ajudaram a consolidar o controle biológico no Brasil. Entre os exemplos está o uso do fungo Metarhizium no controle da cigarrinha da cana-de-açúcar, tecnologia ainda utilizada em milhões de hectares.
Outro programa pioneiro envolveu o controle da broca da cana-de-açúcar com o parasitoide Cotesia flavipes. Delalibera destaca ainda que os primeiros produtos comerciais brasileiros à base de alguns fungos entomopatogênicos tiveram origem em materiais estudados no laboratório da Esalq.
Essas experiências ajudam a compreender uma mudança que, segundo o pesquisador, está ocorrendo na própria lógica de manejo agrícola. Durante muito tempo, produtos biológicos foram apresentados apenas como alternativas aos químicos. Delalibera considera essa oposição inadequada, inclusive porque o controle biológico antecede historicamente o uso de moléculas sintéticas na agricultura e os microrganismos podem desempenhar diferentes funções no ambiente. “Estamos passando por uma transformação de um paradigma químico para um paradigma mais biológico na agricultura”, afirma.
Estamos passando por uma transformação de um paradigma químico para um paradigma mais biológico na agricultura”
Ítalo Delalibera Júnior, professor do Departamento de Entomologia e Acarologia da Esalq - Foto: Gerhard Waller / Esalq
Nesse cenário, os bioinsumos não aparecem simplesmente como substitutos universais dos produtos químicos. Dependendo da cultura, da praga e do sistema produtivo, as estratégias podem ser combinadas. O avanço está na possibilidade de monitorar melhor o ambiente, reduzir aplicações desnecessárias e utilizar organismos capazes de desempenhar diferentes funções no sistema agrícola.
Da pesquisa à inovação
A aproximação entre pesquisa científica e desenvolvimento tecnológico ganhou também uma estrutura específica com o credenciamento da Esalq como unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), em 2017. Dirigida por Ítalo Delalibera Júnior, a unidade atua na área de Bioinsumos e Processos Biotecnológicos Aplicados à Agricultura e cria mecanismos para a realização de projetos em parceria com empresas.
Essa relação entre universidade e setor produtivo não significa abandonar a pesquisa fundamental. Pelo contrário: permite abrir outro caminho para que conhecimentos produzidos nos laboratórios sejam testados e aplicados diante de demandas concretas.
É justamente essa ligação entre compreensão científica e aplicação que aparece em diferentes estruturas apresentadas nesta reportagem. A pesquisa pode começar com o estudo de um microrganismo, do comportamento de um inseto ou das relações entre carbono, solo e atmosfera e, em outro momento, resultar em uma tecnologia, um processo de produção ou uma nova forma de manejo.
Onde a ciência encontra a sociedade
A mesma questão está na origem do Esalq Science Park, em implantação na antiga Fazenda Areão. O projeto pretende criar um ambiente de convivência entre pesquisadores, estudantes, startups e empresas, aproximando a infraestrutura científica da Universidade de organizações interessadas em desenvolver pesquisa e inovação.
Representante da escola no projeto, o professor José Belasque Júnior acredita que o parque permitirá ampliar a interação entre diferentes competências da USP. Uma empresa instalada no local poderá se aproximar de pesquisadores da agricultura, mas também acessar áreas como engenharia, computação, mecânica e infraestrutura em outras unidades da Universidade. “Nós estamos falando de um outro cenário”, afirma.
Para Belasque, a aproximação com empresas, cooperativas, associações e outras instituições pode atender a demandas imediatas dos setores produtivos e oferecer aos estudantes contato direto com profissionais e problemas encontrados fora da Universidade.
Ele rejeita, contudo, a ideia de que essa aproximação deva ser uma obrigação para todos os pesquisadores. “Eu não gosto de separar a pesquisa básica e aplicada. Pesquisa é pesquisa. Pesquisa é você gerar resultados”, afirma.
Na avaliação do professor, pesquisas desenvolvidas exclusivamente dentro da universidade, sem uma aplicação imediata, mantêm seu valor científico. Mas os pesquisadores que desejam atuar com outras instituições precisam encontrar condições para fazê-lo. “Ninguém é obrigado. […] Mas aqueles que querem, eles têm que ter condições.”
Pesquisa é você gerar resultados”
José Belasque Júnior, professor do Departamento de Fitopatologia e Nematologia da Esalq - Foto: Gerhard Waller / Esalq
Fazenda Areão vai receber o Esalq Science Park - Foto: Divisão de Comunicação / Esalq
Belasque destaca dois ganhos dessa aproximação, o de responder mais diretamente a demandas dos setores produtivos e, ainda, inserir estudantes nos projetos, permitindo que eles convivam com profissionais do mercado de trabalho ainda durante a formação. O Science Park pretende ampliar essa possibilidade ao reunir, em um mesmo ambiente, empresas e diferentes competências científicas da USP.
Uma escola em movimento
Esse ecossistema inclui ainda instituições historicamente instaladas no campus, como o Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena), além de laboratórios multiusuários e diferentes estruturas de apoio à pesquisa que ampliam a capacidade científica da Universidade.
Os exemplos apresentados nesta reportagem não esgotam a diversidade de centros, institutos, laboratórios e redes vinculados à Esalq e ao campus de Piracicaba. Mostram, porém, uma mudança importante na escala em que a ciência passou a ser produzida.
Uma pesquisa pode começar em um laboratório da Esalq e envolver pesquisadores de diferentes departamentos. Pode integrar uma rede nacional, incorporar uma universidade estrangeira, chegar a uma empresa ou cooperativa e retornar à sociedade na forma de tecnologia, política pública, produto, processo ou conhecimento.
É nesse movimento que os desafios apresentados no capítulo anterior começam a encontrar caminhos possíveis. A colaboração, lembra Aline Cesar, não é apenas uma consequência da internacionalização ou do crescimento da estrutura científica. Tornou-se parte do próprio método. Redes permitem compartilhar conhecimento e desenvolver tecnologias conjuntamente justamente porque, como observa a pesquisadora, “a ciência deixou de ter fronteiras, e os desafios que enfrentamos também são globais”.
A Esalq nasceu em 1901 em uma fazenda nos arredores de Piracicaba. Cento e vinte e cinco anos depois, continua cercada pelos mesmos campos que fizeram parte de sua história, mas a ciência produzida ali já não conhece os mesmos limites.
A ciência deixou de ter fronteiras, e os desafios que enfrentamos também são globais”
Aline Cesar, professora e presidente da Comissão de Pesquisa e Inovação - Foto: Gerhard Waller / Esalq
Vista aérea do Cena no campus de Piracicaba - Foto: Divisão de Comunicação / Esalq
Dos microrganismos usados no controle de pragas aos modelos capazes de acompanhar o carbono nos sistemas produtivos; das redes internacionais de saúde planetária ao parque científico que pretende aproximar laboratórios e empresas, as respostas passam cada vez menos por estruturas isoladas e cada vez mais pela capacidade de reunir conhecimentos, pessoas e instituições.
É assim que uma escola criada para transformar a agricultura brasileira amplia seu campo de atuação: conectando a ciência produzida em Piracicaba a problemas que hoje pertencem ao mundo inteiro.
No próximo texto da série, que será publicado no dia 21 de agosto: As pessoas e os próximos 125 anos
Fonte: Jornal da USP - Texto: Rose Talamone













