
Uma pesquisa da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP) está usando condições que simulam a microgravidade para entender como as plantas se adaptam ao estresse e buscar alternativas para tornar a agricultura mais resistente às mudanças climáticas.
O estudo acontece em parceria com pesquisadores da Itália, Angola e Brasil. Algumas das culturas analisadas são: batata-doce, cará e grão-de-bico. O professor Paulo Hercílio Viegas Rodrigues, do Departamento de Produção Vegetal da Esalq, explica que a ideia surgiu a partir de uma iniciativa do Instituto Interlatino-Americano, mediado na Itália, que busca estimular pesquisas entre a Itália e países da América Latina. Os pesquisadores brasileiros foram convidados a desenvolver um trabalho relacionado à microgravidade e decidiram incluir Angola na parceria, aproveitando a possibilidade de intercâmbio de conhecimento entre os três países.
Agricultura espacial
A agricultura espacial é o estudo de como produzir alimentos frescos em ambientes fora da Terra, como no espaço, em condições de microgravidade, ou em outros corpos celestes, como Marte e a Lua. No projeto, a ideia é observar como as plantas respondem ao estresse provocado pela ausência ou redução da gravidade. Esse conhecimento pode ser relacionado ao estresse que as plantas enfrentam na Terra, especialmente diante das mudanças climáticas. Rodrigues explica que foi desenvolvido um sistema para simular a gravidade espacial utilizando o clinostato, um equipamento robótico patenteado que gira as plantas continuamente em múltiplos eixos.
As plantas escolhidas não foram por acaso; enquanto o grão-de-bico garante o aporte essencial de proteínas, as raízes fornecem os carboidratos fundamentais para a subsistência humana tanto no espaço quanto em regiões severamente afetadas pelo clima na Terra. Além disso, a batata-doce e o cará compartilham um vasto centro de diversidade genética entre o Brasil e o continente africano, permitindo que a cooperação com Angola explore espécies de altíssima resiliência e excelente adaptação ao cultivo in vitro nos simuladores de microgravidade.
A primeira fase da pesquisa irá ser concluída em outubro, juntamente com seus primeiros testes práticos com o grão-de-bico, o cará e a batata-doce cultivados in vitro no simulador de microgravidade da Esalq/USP. Será conduzida em parceria com o pesquisador angolano Adérito Moniz, atualmente em pós-doutorado aqui no Brasil. Essa etapa inicial foca em mapear o comportamento genético e as primeiras respostas fisiológicas das plantas ao estresse espacial, preparando o terreno para a fase de capacitação tecnológica que a equipe realizará na Itália entre outubro e novembro.
Tratamento conjunto com microrganismos
A pesquisa aposta no uso combinado de fungos e microrganismos benéficos da biodiversidade brasileira para criar “superprotocolos” de sobrevivência vegetal. Nos testes em laboratório, essa parceria biológica tem se mostrado fundamental para ajudar as raízes a superarem a alta toxicidade e o pH adverso do regolito, como são os solos de Marte e da Lua.
Fonte: Jornal da USP.




