Esalq/USP, a ciência que ajuda a transformar a agricultura brasileira
De laboratórios e estufas aos campos experimentais, Esalq ajudam a transformar a agricultura tropical, impulsionar a segurança alimentar e consolidar o Brasil como uma potência na produção alimentar
O Brasil produz alimentos para mais de 1 bilhão de pessoas. Lidera a produção mundial de açúcar, café, suco de laranja e soja, figura entre os maiores exportadores de carnes do planeta e transformou a agricultura tropical em referência internacional.
Poucas instituições acompanharam essa trajetória tão de perto quanto a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP.
Ao longo de 125 anos, a ciência produzida na escola ajudou a responder algumas das perguntas mais importantes da agricultura: como aumentar a oferta de alimentos, proteger cultivos contra doenças, elevar a produtividade, adaptar plantas e animais às condições tropicais e reduzir os impactos ambientais dos sistemas de produção. “A pesquisa está no DNA da Esalq. É ela que conecta o passado, o presente e o futuro da instituição”, afirma sua diretora, professora Thais Maria Ferreira de Souza Vieira.
A pesquisa está no DNA da Esalq. É ela que conecta o passado, o presente e o futuro da instituição”
Thais Maria Ferreira de Souza Vieira, diretora da Esalq - Foto: Gerhard Waller / Esalq
Se a primeira reportagem desta série apresentou a instituição que ajudou a moldar o campo brasileiro, este segundo capítulo entra em seus laboratórios, estufas, fazendas e campos experimentais para mostrar como o conhecimento produzido em Piracicaba chegou às lavouras, aos rebanhos e à mesa de milhões de pessoas.
Essa trajetória pode ser contada pelas descobertas de seus pesquisadores, mas também por números. Hoje, a Esalq reúne 425 projetos de pesquisa ativos, mais de 140 laboratórios de ensino, pesquisa e prestação de serviços, sete centrais multiusuários e 393 convênios de pesquisa vigentes. Mantém parcerias com pelo menos 85 instituições internacionais e acumula 78 patentes depositadas.
Entre 2001 e 2024, seus pesquisadores publicaram quase 30 mil artigos científicos, além de mais de 5 mil livros e capítulos. A produção recebeu aproximadamente 1,3 milhão de citações. “A pesquisa na Esalq nunca foi um fim em si mesma. Ela nasce para responder a problemas reais e contribuir para a transformação da sociedade”, afirma a professora Aline Cesar, presidente da Comissão de Pesquisa e Inovação.
Segundo Aline, as linhas de investigação desenvolvidas na Esalq dialogam com os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas e abrangem áreas como agricultura tropical sustentável, bioeconomia, bioenergia, saúde do solo, bioinsumos, agricultura digital, inteligência artificial, ciência de dados, sensoriamento remoto e segurança alimentar. “Hoje não basta produzir mais alimentos. Precisamos produzir alimentos mais saudáveis, com menor impacto ambiental, utilizando os recursos naturais de forma responsável e garantindo qualidade de vida para as próximas gerações”, destaca.
Nos últimos anos, a chegada de mais 50 docentes passaram a integrar o quadro da Esalq, ampliando competências em áreas como inteligência artificial, agricultura digital, ciência de dados e saúde planetária. Parte dos recursos institucionais destinados à pesquisa também passou a ser distribuída por editais que incentivam projetos integrados entre diferentes departamentos e reservam apoio aos jovens professores.
A mudança revela uma instituição que preserva áreas consolidadas, mas abre espaço para novas perguntas, equipamentos e métodos de investigação. A contribuição da Esalq, no entanto, vai muito além dos indicadores acadêmicos.
A pesquisa na Esalq nunca foi um fim em si mesma. Ela nasce para responder a problemas reais e contribuir para a transformação da sociedade”
Aline Cesar, presidente da Comissão de Pesquisa e Inovação da Esalq - Foto: Gerhard Waller / Esalq
O consumidor talvez nunca tenha ouvido falar em fitopatologia, semioquímicos, nutrigenômica ou microbioma. Ainda assim, convive diariamente com os resultados dessas áreas. Eles estão na laranja protegida de uma praga, no bioinsumo que substitui parte dos produtos químicos, na pastagem mais produtiva, na dieta que melhora a eficiência de um rebanho e no alimento que chega à mesa com maior qualidade e segurança.
Foto: Divisão de Comunicação / Esalq
Proteger para produzir
Uma agricultura capaz de alimentar grandes populações depende de plantas saudáveis. Doenças causadas por fungos, bactérias, vírus e outros organismos podem comprometer lavouras inteiras, afetar cadeias produtivas, reduzir a oferta de alimentos e provocar prejuízos econômicos que ultrapassam as propriedades rurais.
A Esalq teve papel importante na consolidação da Fitopatologia como área de pesquisa e formação no Brasil. Em 1964, quando o modelo nacional de pós-graduação ainda começava a ser estruturado, a escola criou um dos primeiros programas do País no formato atual de mestrado e doutorado acadêmicos. O Programa de Pós-Graduação em Fitopatologia tornou-se referência na formação de pesquisadores dedicados à sanidade vegetal. “Muita gente não sabe, mas o modelo atual de pós-graduação do Brasil surgiu aqui. A Fitopatologia foi um dos primeiros programas aprovados”, afirma o professor José Belasque Júnior, do Departamento de Fitopatologia e Nematologia.
Quando falamos em agricultura tropical, o Brasil é referência mundial. E, quando falamos em pesquisa agropecuária tropical, a Esalq ocupa um papel de destaque”
José Belasque Júnior, professor do Departamento de Fitopatologia e Nematologia da Esalq - Foto: Foto: Gerhard Waller / Esalq
Ao longo das décadas, pesquisas desenvolvidas na área contribuíram para compreender e enfrentar doenças que ameaçam culturas estratégicas, como cana-de-açúcar, café, citros e feijão. “Quando falamos em agricultura tropical, o Brasil é referência mundial. E, quando falamos em pesquisa agropecuária tropical, a Esalq ocupa um papel de destaque”, diz Belasque.
A trajetória do professor também mostra como o conhecimento circula entre universidade, instituições de pesquisa e setor produtivo. Antes de retornar à Esalq, onde realizou o doutorado, Belasque trabalhou durante 14 anos no Fundo de Defesa da Citricultura, o Fundecitrus.
A experiência permitiu acompanhar de perto o impacto de doenças que ameaçam uma cadeia na qual o Brasil ocupa posição de liderança mundial e também observar como resultados científicos podem ser incorporados rapidamente ao manejo dos pomares. “Se fizermos a conta do retorno econômico gerado pela pesquisa, estamos falando de milhares, de milhões de reais em benefícios para a sociedade”, afirma.
Esse retorno nem sempre é percebido pelo consumidor. Uma doença controlada, uma praga monitorada ou uma variedade mais resistente tornam-se parte invisível do processo que mantém a produção e reduz perdas.
Foto: Divisão de Comunicação / Esalq
A revolução silenciosa do controle biológico
Outra transformação que nasceu em grupos de pesquisa e ganhou os campos brasileiros foi o avanço do controle biológico. Em vez de depender exclusivamente de defensivos químicos, essa estratégia utiliza organismos vivos, como fungos, bactérias, vírus e inimigos naturais, para controlar insetos e outros agentes capazes de provocar danos às culturas.
O Brasil é o país que mais utiliza controle biológico em sua agricultura em larga escala”
Ítalo Delalibera Júnior, professor do Departamento de Entomologia e Acarologia da Esalq - Foto: Gerhard Waller / Esalq
O professor Ítalo Delalibera Júnior, do Departamento de Entomologia e Acarologia, acompanha uma trajetória científica construída durante décadas na Esalq. Segundo ele, o trabalho iniciado por grupos da escola a partir dos anos 1970 ajudou a formar pesquisadores especializados em microrganismos e biotecnologia e contribuiu para a expansão do setor no Brasil. “O Brasil é o país que mais utiliza controle biológico em sua agricultura em larga escala”, afirma.
A dimensão territorial e o perfil da produção brasileira tornam essa experiência singular. Enquanto outros países concentram o uso do controle biológico em estufas e cultivos protegidos, no Brasil os organismos são aplicados em grandes áreas de cana-de-açúcar, soja, milho e outras culturas.
Para Delalibera, a multiplicação de empresas e de novos produtos biológicos é resultado de uma base científica que começou a ser estruturada décadas atrás. “Esse movimento que vemos hoje, com muitas empresas entrando no mercado de biológicos e um grande crescimento de novos produtos, é consequência das pesquisas que começaram na década de 1970 e foram se ampliando.”
Entre os exemplos históricos de aplicação da ciência está o desenvolvimento de estratégias com semioquímicos, substâncias que interferem na comunicação e no comportamento dos insetos.
Na citricultura, estudos relacionados ao feromônio do bicho-furão permitiram monitorar e controlar uma praga capaz de causar a queda prematura dos frutos. A tecnologia gerou economia estimada em mais de US$ 2 bilhões ao setor ao longo dos anos.
O impacto ajuda a mostrar que uma descoberta de laboratório pode alcançar milhares de propriedades, reduzir perdas econômicas e diminuir a aplicação indiscriminada de produtos químicos.
O desafio agora é ampliar a diversidade das soluções e comprovar seu desempenho em diferentes condições de produção. “Precisamos mostrar, com evidências e resultados de pesquisa nas nossas condições, que necessitamos de uma agricultura resiliente e diversificada”, afirma Delalibera.
Foto: Divisão de Comunicação / Esalq
A ciência por trás da proteína animal
Se o Brasil ocupa posição de destaque na produção mundial de proteína animal, parte dessa trajetória também passa pelas pesquisas conduzidas na Esalq em nutrição, pastagens, conservação de forragens, reprodução, genética, fisiologia e sistemas de produção.
Daqui a 25 anos, a produção e a produtividade da pecuária brasileira serão impressionantes. O potencial que temos, nenhum outro país possui para produzir em grande escala, com eficiência, sustentabilidade, qualidade e custo competitivo”
Flávio Augusto Portela Santos, professor do Departamento de Zootecnia da Esalq - Foto: Gerhard Waller / Esalq
O professor Flávio Augusto Portela Santos, titular do Departamento de Zootecnia, acompanhou parte expressiva das mudanças ocorridas na pecuária brasileira nas últimas décadas.
Segundo ele, o setor avançou ao combinar genética, nutrição, manejo de pastagens, sanidade e gestão. A aplicação desse conjunto de conhecimentos permitiu produzir mais em menor área, reduzir a idade de abate e aumentar a eficiência dos rebanhos.
O uso do solo brasileiro ainda revela, porém, uma diferença considerável entre o potencial disponível e os resultados efetivamente alcançados. A incorporação das tecnologias já existentes pode elevar significativamente a produção sem exigir expansão proporcional das áreas ocupadas. “Apesar de toda a evolução dos últimos 30 anos, se olharmos para os últimos cinco ou seis, veremos um processo de aceleração muito grande na aplicação de tecnologia”, afirma Flávio Santos.
Essa aceleração deverá modificar profundamente o setor nas próximas décadas. “Daqui a 25 anos, a produção e a produtividade da pecuária brasileira serão impressionantes. O potencial que temos, nenhum outro país possui para produzir em grande escala, com eficiência, sustentabilidade, qualidade e custo competitivo.”
O pesquisador destaca que o avanço produtivo precisa vir acompanhado de redução das emissões, melhor uso dos recursos naturais, bem-estar animal e qualidade dos alimentos.
A sustentabilidade, nesse contexto, não aparece como um tema externo à produtividade. Sistemas mais eficientes tendem a produzir maior quantidade de carne ou leite com menor uso de terra, água e insumos por unidade de produto.
Para o professor, a pesquisa também precisa responder a novas exigências dos consumidores e dos mercados internacionais, que demandam comprovação sobre a origem dos alimentos, as condições de criação e o impacto ambiental da produção.
Matéria: Rose Talamone | Jornal da USP.


















