Esalq/USP, a ciência que ajuda a transformar a agricultura brasileira - parte 02
A instituição comemora 125 anos em 2026, como um dos mais relevantes centro de pesquisas na agricultura, pecuária e afins
Uma história que
começou em 1901
Poucas áreas simbolizam tão bem a continuidade da Esalq quanto a Zootecnia. Quando a escola iniciou suas atividades, em 1901, a produção animal já figurava entre suas cinco primeiras cadeiras de ensino, demonstrando a importância atribuída ao tema desde a criação da instituição. “A Zootecnia faz parte da história da Esalq desde sua origem”, afirma o professor Evandro Maia Ferreira, chefe do Departamento de Zootecnia.
Ao longo desse percurso, a área deixou de se concentrar principalmente nos aspectos produtivos e tornou-se uma ciência multidisciplinar, que integra pastagens, conservação de forragens, nutrição, genética, reprodução, fisiologia, biotecnologia, ciência de dados e sustentabilidade.
A transformação das antigas cátedras em departamentos, na década de 1970, permitiu ampliar o ensino, a pesquisa e a extensão. O conhecimento produzido passou a alcançar fazendas, empresas, universidades e centros de pesquisa em diferentes regiões do Brasil e do exterior. “O departamento contribuiu decisivamente para a modernização da pecuária brasileira por meio da formação de profissionais qualificados, da geração de conhecimento científico e da transferência de tecnologias ao setor produtivo”, afirma Evandro Ferreira.
Pesquisas em pastagens, nutrição, reprodução, melhoramento genético e sistemas produtivos ajudaram a aumentar a eficiência dos rebanhos. Mais recentemente, a agenda incorporou temas como genômica, nutrigenômica, microbioma, bem-estar animal, mitigação das emissões de gases de efeito estufa e tecnologias digitais de monitoramento.
O Programa de Pós-Graduação em Ciência Animal e Pastagens também formou pesquisadores e professores que hoje atuam em universidades, empresas e instituições científicas no Brasil e no exterior. Para Evandro, o profissional da produção animal precisa manter sólida base científica, mas reunir competências que não eram exigidas das gerações anteriores. Além do domínio de pastagens, nutrição, genética, reprodução e manejo, deverá compreender sustentabilidade, mudanças climáticas, bioinformática, inteligência artificial, análise de dados e gestão de sistemas produtivos.
Precisamos ter profissionais preparados para atuar em ambientes multidisciplinares, buscando soluções que conciliem produtividade, responsabilidade ambiental, viabilidade econômica e compromisso social”
Evandro Maia Ferreira, professor e chefe do Departamento de Zootecnia - Foto: Instagram / Esalq
Conhecimento que se multiplica
A influência da ciência produzida na Esalq não pode ser medida apenas pelos resultados obtidos dentro do campus. Ela também se multiplica por meio das pessoas formadas na instituição. Pesquisadores egressos da escola ajudaram a criar departamentos, programas de pós-graduação, empresas, laboratórios e centros de pesquisa em diferentes partes do País.
Quando conseguimos transformar conhecimento científico em inovação, em políticas públicas, em novos alimentos e em tecnologias para o produtor rural, percebemos que a universidade cumpre sua missão”
Aline Cesar, presidente da Comissão de Pesquisa e Inovação da Esalq
Essa circulação de profissionais contribuiu para consolidar instituições estratégicas da agricultura brasileira e adaptar conhecimentos científicos às condições de diferentes regiões, culturas e sistemas de produção.
A pesquisa também chega à sociedade por meio da extensão, da formação técnica, das consultorias, dos convênios, dos materiais educativos e das parcerias mantidas com produtores, associações e instituições públicas e privadas.
Para Aline Cesar, o desafio é fazer com que essa produção seja conhecida não apenas pela comunidade científica, mas também pela população que financia e se beneficia da universidade pública. “Quando conseguimos transformar conhecimento científico em inovação, em políticas públicas, em novos alimentos e em tecnologias para o produtor rural, percebemos que a universidade cumpre sua missão”, afirma.
Ciência para além das grandes propriedades
Se a ciência produzida pela Esalq ajudou a consolidar o Brasil como uma potência agrícola, ela também alcança milhares de pequenas propriedades espalhadas pelo País. Responsável por uma parcela significativa dos alimentos consumidos pelos brasileiros, a agricultura familiar continua desempenhando papel estratégico para a segurança alimentar, a geração de renda e a permanência das famílias no campo.
Para o professor Paulo Moruzzi Marques, do Departamento de Economia, Administração e Sociologia, a diversidade é uma das principais características desse segmento. “Quando falamos em agricultura familiar, estamos falando de realidades muito distintas, que variam conforme a região, a cultura produzida, o acesso à tecnologia e as condições socioeconômicas das famílias”, afirma.
Segundo ele, os desafios vão muito além da produção. Questões relacionadas à sucessão familiar, assistência técnica, acesso ao crédito, mudanças climáticas e inserção em novos mercados passaram a ocupar espaço cada vez maior no cotidiano dos produtores. “A agricultura familiar possui uma enorme capacidade de adaptação, mas precisa ser apoiada por políticas públicas, pesquisa e extensão que dialoguem com sua realidade”, destaca.
Ao longo de sua história, a Esalq contribuiu para a formação de profissionais e para o desenvolvimento de projetos voltados ao fortalecimento desse segmento, aproximando conhecimento científico e demandas concretas do campo.
Para o pesquisador, a produção de alimentos em larga escala e a agricultura familiar não representam modelos opostos, mas complementares. “Precisamos compreender que a segurança alimentar brasileira depende da convivência entre diferentes sistemas produtivos. O desafio é construir soluções que respeitem essa diversidade.”
Em um país de dimensões continentais, a ciência produzida na Universidade percorre diferentes caminhos. Em alguns lugares, ela ajuda a aumentar a produtividade de grandes culturas. Em outros, contribui para garantir a permanência de famílias no campo e a produção de alimentos que chegam diariamente à mesa dos brasileiros.
Precisamos compreender que a segurança alimentar brasileira depende da convivência entre diferentes sistemas produtivos. O desafio é construir soluções que respeitem essa diversidade”
Paulo Moruzzi Marques, professor do Departamento de Economia, Administração e Sociologia da Esalq - Foto: Gerhard Waller / Esalq
O próximo desafio já começou
Ao longo de 125 anos, a Esalq ajudou a transformar a agricultura tropical e a formar pesquisadores que levaram esse conhecimento para diferentes regiões do Brasil e do mundo.
Essa história pode ser encontrada em artigos, patentes e indicadores acadêmicos, mas também em resultados menos visíveis: uma lavoura protegida contra uma doença, um inseto controlado sem aplicação excessiva de produtos químicos, uma pastagem mais produtiva ou uma dieta capaz de reduzir o tempo necessário para a criação de um animal.
Os desafios atuais têm novos nomes e maior complexidade. Envolvem mudanças climáticas, pressão sobre os recursos naturais, segurança alimentar, rastreabilidade, bem-estar animal e a necessidade de produzir para uma população crescente.
As respostas também exigirão novos instrumentos. Inteligência artificial, genômica, microbioma, sensores e ferramentas digitais passarão a trabalhar ao lado de conhecimentos acumulados durante gerações sobre solos, plantas, animais e ecossistemas tropicais.
Mas a lógica que sustenta a pesquisa permanece. Há um problema concreto. Alguém formula uma pergunta, testa hipóteses, reúne evidências e transforma o resultado em conhecimento.
Em algum laboratório, estufa, curral ou campo experimental da Esalq, a próxima resposta já começou a ser procurada.
Matéria: Rose Talamone | Jornal da USP.












