Esclerose múltipla: quando o próprio sistema imunológico ataca o sistema nervoso
Doença autoimune sem cura afeta cerca de 40 mil brasileiros e tem tratamento em constante atualização; no Dia Mundial neurologista da Santa Casa alerta para os sinais que não devem ser ignorados
A esclerose múltipla (EM) não avisa com clareza. Pode começar com uma visão turva, uma fadiga fora do comum ou uma fraqueza nos membros que parece passageira. Para muitos pacientes, o diagnóstico demora — e cada mês sem tratamento pode significar novas lesões no sistema nervoso central. No Dia Mundial da Esclerose Múltipla, 30 de maio, o neurologista Ricardo Gregolin, da Santa Casa de Piracicaba, reforça a importância de reconhecer os sintomas cedo e buscar avaliação especializada.
A doença é de origem autoimune: o próprio sistema imunológico identifica equivocadamente a mielina — substância que envolve e protege os nervos do cérebro e da medula espinhal — como um agente estranho e passa a atacá-la. O resultado é inflamação, cicatrização e perda progressiva da capacidade de transmissão dos sinais nervosos. “A esclerose múltipla compromete funções que as pessoas consideram automáticas: andar, enxergar, se concentrar. O impacto na vida cotidiana é real e, em muitos casos, subestimado”, afirma Gregolin.
O perfil de quem adoece surpreende. A EM acomete, com maior frequência, adultos jovens entre 25 e 31 anos, e é cerca de duas vezes mais comum em mulheres. No Brasil, estima-se que a doença afete aproximadamente 40 mil pessoas. No mundo, o número passa de 2,9 milhões. A causa ainda não é totalmente conhecida, mas envolve uma combinação de fatores genéticos, ambientais e imunológicos.
Os sintomas variam conforme a localização das lesões no sistema nervoso. Fadiga intensa é uma das queixas mais comuns. Problemas de visão — como visão turva, dupla ou perda parcial —, fraqueza muscular, dificuldade de equilíbrio e coordenação, alterações cognitivas e de humor, e distúrbios do sono também fazem parte do quadro clínico. “É uma doença que muda de forma de pessoa para pessoa. Alguns pacientes mantêm pouca incapacidade ao longo da vida; outros evoluem com limitações mais importantes. Por isso o acompanhamento neurológico é fundamental”, diz Gregolin.
Não existe cura para a EM, mas o arsenal terapêutico disponível cresceu de forma consistente nos últimos anos. O tratamento envolve medicamentos modificadores da doença, que atuam para reduzir as recidivas e retardar a progressão.
No campo regulatório, as novidades são recentes. Em abril de 2026, a Anvisa aprovou o registro do medicamento Briumvi® (ublituximabe), indicado para adultos com formas recorrentes da doença. O ublituximabe é um anticorpo monoclonal que age ao se ligar ao CD20, proteína presente na superfície dos linfócitos B — células do sistema imunológico que têm papel central na progressão da EM ao atacar a bainha protetora dos nervos, causando inflamação e danos neurológicos. A aprovação amplia as opções disponíveis para os pacientes no país.
“Conscientizar a população sobre a esclerose múltipla significa, na prática, encurtar o caminho entre o primeiro sintoma e o consultório. Quanto mais cedo o diagnóstico, mais recursos o paciente tem para preservar sua qualidade de vida,” ressalta Gregolin.
Legenda-foto: “A esclerose múltipla compromete funções que as pessoas consideram automáticas: andar, enxergar, se concentrar”, explica o neurologista Ricardo Gregolin




