Fui notar esses dias uma bomba-relógio armada dentro de uma música de Marisa Monte.
“Vilarejo”, faz referência à Palestina como uma terra mítica, uma espécie de paraíso do futuro, onde o leão irá caminhar ao lado do cordeiro:
Há um vilarejo ali / Onde areja um vento bom / Na varanda, quem descansa / Vê o horizonte deitar no chão / Pra acalmar o coração / Lá o mundo tem razão / Terra de heróis, lares de mãe / Paraíso se mudou para lá / Por cima das casas, cal / Frutos em qualquer quintal / Peitos fartos, filhos fortes / Sonho semeando o mundo real / Toda gente cabe lá / Palestina, Shangri-lá
Vem andar e voa / Vem andar e voa / Vem andar e voa
Lá o tempo espera / Lá é primavera / Portas e janelas ficam sempre abertas / Pra sorte entrar / Em todas as mesas, pão / Flores enfeitando / Os caminhos, os vestidos, os destinos / E essa canção / Tem um verdadeiro amor / Para quando você for
Não sei dizer se a poesia é boa ou não, há gente muito mais habilitada que eu para isso. Aos autores da canção, a própria Marisa, Carlinhos Brown, Arnaldo Antunes (“Os Tribalistas”, também conhecidos como “Os tropicalistas do Paraguai”) e Pedro Baby (filho de Pepeu Gomes), tenho a colocar uma “crítica construtiva” à letra do hit. Vocês podiam ter acrescentado Cuba, teria ficado mais “redonda”, sabe? Estaria mais conforme à doutrina mística que vocês abraçaram, e tantos outros idiotas úteis brasileiros.
(Leia os depoimentos do cubano Daniel [nome fictício] ao Viletim, aqui e aqui, que fugiu do paraíso, porque era tão bom, mas tão bom, que ele não aguentou de tanta felicidade e fugiu de lá. Cuidado, esta última frase contém ironia.)
Mas agora leio com mais vagareza a letra, e entendo o porquê de Cuba não estar presente. A doutrina mística que Marisa Monte e seus amiguitos abraçam gera a canção, embalada com um arranjo musical “gostosinho”, que empurra de levinho, goela abaixo, a ideia de que há lugares na terra que podiam ser paraísos, cumprindo aquilo que todos almejam: paisagens bonitas na sua janela, pessoas fortes e saudáveis, fartura de alimentos, moradia digna. Vamos traduzir: um paraíso igualitário, justo, onde não falta nada, e ainda, corre leite e mel. Só que, na canção, ele ainda não existe, é um “sonho semeando o mundo real”.
O paraíso, porém, vai se tornando realidade na canção: “Paraíso se mudou para lá”. Porém, apesar de afirmar que “todo gente cabe lá”, vem a restrição: “Palestina, Shangri-lá”. Shangri-lá é criação do escritor inglês James Hilton, no livro Horizonte Perdido, de 1933. O vilarejo inacessível em meio às montanhas do Himalaia tornou-se no Ocidente figura literária quando se fala de um paraíso terrestre oculto. Na criação de Hilton, o lugar possuía uma perfeição tão absoluta, que autores usam-no como figura de uma utopia onde só pessoas muito ingênuas gostariam de estar. Ou pessoas que almejam transformar lugares reais no paraíso terrestre, que qualquer um que tenha de pagar os boletos sabe que é impossível nesta vida.
Os autores da canção escolhem uma terra real como endereço da sua Shangri-lá, o Paraíso terrestre, e dizem: esse paraíso que ainda não existe pode existir no futuro. Qual a condição para existir? Eles dão a receita: “terra de heróis, lares de mãe”.
Ligar a afirmação de que “toda gente cabe lá” à Palestina e ainda a uma “terra de heróis” é, justinha, a miragem que vem à cabeça dos idiotas úteis brasileiros, e também os de outros países mundo afora, quando pensam nos terroristas da Faixa de Gaza. Graças a Deus não são todos os palestinos que são terroristas, mas infelizmente muitos cidadãos de lá colaboram e aprovam as ações dos terroristas, e com eles colaboram. Os fatos não sustentam a afirmação de que todos os palestinos sejam heróis.
Afirmar também que “toda gente cabe lá” e “Palestina” exclui, automaticamente, Israel, se pensarmos com a cabeça de pessoas como os autores desta canção. Que pensam que a paz do mundo está ameaçada, somente, por causa do litígio Israel x palestinos. Ou por causa de “genocidas como os israelenses”. Vale traduzir: para essas pessoas, o “Vilarejo” de Marisa Monte só não “semeia o mundo real” por causa da existência de Israel.
Destrinchando uma canção que aparenta ser levinha, cheirosinha e gostosa de ouvir, temos aí toda uma construção subliminar que vai enfiando ideias na nossa cabeça. Claro que toda canção tem uma visão de mundo, e esta aqui tem esse discurso político disfarçado, oculto, que não pede licença para entrar e vai invadindo sua alma com o sensualismo de uma voz feminina atraente, visões de uma vida sem sacrifícios, que “se resume a viver”, com paz, amor e alegria. Mas condicionada a “estar do lado das pessoas certas”, pensar “as ideias certas”, estar do “lado do Bem”.
Tudo para ganhar o prêmio mais alto que todos desejam, o amor verdadeiro. Mas para isso, você tem fazer tudo certinho, estar no “lugar certo”:
E essa canção / Tem um verdadeiro amor / Para quando você for
A canção encerra-se com uma promessa. Na gravação, vai se acabando aos pouquinhos, com os gemidos sensuais da cantora, diminuindo de volume, entrando baixinho no sono de um sonho bom. Um recurso de canção de ninar, de músicos que sabem muito bem quais ferramentas usar para convencer com palavras doces e música suave.
Desse modo, você penetra na Palestina sensorial, o paraíso terrestre que só existe no futuro socialista ou num lugar como as montanhas do Himalaia, numa ilha inacessível como a Utopia de Thomas More, no passado lendário marxista ou rousseauniano anterior ao capitalismo, ou no coração de milhares de ingênuos, que suspiram por uma global village, diversa, porém, da visão de Marshall Mcluhan. Nela, não há trabalho, nem esforço, nem sacrifícios, há leite e mel de sobra, leões, cordeiros e poddles saltitando nos campos de grama artificial, iphones brotando nas árvores e conexão de internet banda larga de graça para todos.


