Atualmente é comum encontrar crianças que têm dificuldade em aceitar um “não” ou esperar pelo momento certo para receber atenção ou conseguir aquilo que desejam. Quando seus pedidos não são atendidos, algumas choram, fazem birra, se jogam no chão e, em situações mais graves, podem até agredir os próprios pais, outras crianças ou adultos.
Segundo Leila Tardivo, professora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), muitos pais têm encontrado dificuldades para estabelecer limites aos filhos. Para ela, é importante compreender que colocar limites não significa ser violento. A educação não deve envolver agressividade ou violência, pois, quando os adultos agem dessa maneira, acabam ensinando a criança a reproduzir comportamentos agressivos.
A especialista destaca que os limites devem ser estabelecidos desde cedo. Não é adequado esperar a criança chegar à adolescência para começar a impor regras e ensinar comportamentos adequados. Desde os primeiros anos de vida é necessário explicar o que pode e o que não pode ser feito, sempre com respeito, paciência e diálogo.
Bater ou gritar com a criança não é uma forma adequada de educá-la. Os pais precisam encontrar maneiras de ensinar obediência e respeito sem recorrer à violência. Nesse processo, é importante valorizar e recompensar os comportamentos positivos, em vez de concentrar a educação apenas em punições e broncas.
Quando a criança faz algo adequado, os adultos devem reconhecer seu esforço e demonstrar satisfação. Pequenas atitudes, como fazer um desenho, participar das refeições em família ou aprender a compartilhar, podem ser valorizadas com elogios e demonstrações de carinho. Dessa forma, a criança percebe que seus comportamentos positivos também recebem atenção.
Paciência e dedicação
Outro aspecto importante é a disponibilidade dos pais. Educar uma criança exige tempo, paciência e dedicação. Muitos adultos estão envolvidos com o trabalho e com as redes sociais e, por isso, podem acabar utilizando o celular ou outros dispositivos eletrônicos para manter a criança entretida e conseguir alguns momentos de tranquilidade.
Entretanto, a especialista ressalta que o uso de telas deve ser evitado, principalmente nos primeiros anos de vida. Para crianças de até dois anos, recomenda-se evitar celulares e redes sociais. Quando houver contato com desenhos ou outros conteúdos é preferível utilizar uma tela maior e, sempre que possível, contar com a participação de um adulto que possa acompanhar e conversar sobre aquilo que a criança está assistindo.
A escola também pode contribuir para o desenvolvimento da criança, ensinando-a a respeitar horários, regras, desejos e limites das outras pessoas. Porém, a responsabilidade pela educação não deve ser transferida para a escola. A formação da criança é resultado da participação de todos os adultos com quem ela convive.
Portanto, estabelecer limites não significa deixar de demonstrar amor. Pelo contrário, impor regras de maneira respeitosa é também uma forma de cuidar e amar. A criança precisa aprender que existem regras, responsabilidades e consequências, mas esse aprendizado deve acontecer em um ambiente de carinho, diálogo e respeito.
Assim, uma educação baseada na valorização dos comportamentos positivos, na presença dos pais, no diálogo e em limites claros pode contribuir para o desenvolvimento de crianças mais responsáveis, respeitosas e capazes de conviver com outras pessoas. Como destaca a especialista, a violência gera mais violência, enquanto o amor e os limites caminham juntos na construção de uma educação saudável.
Matéria: Simone Lemos | Jornal da USP.





