Peço perdão por estar fora do hype. Nada de Copa do Mundo nem jogo do Brasil. Nada de política, nem as últimas do sr. Musk, SpaceX, NVIDIA, ChatGPT nem Gemini da vida. Nada de nada. Volto ao meu umbigo, ao umbigo de que tem barriga grande o suficiente para apoiar um copo e um livro. Ou seja, volto aos livros.
Estranha gente, a que lê livros.
Vivemos assombrados por histórias; sentimos falta de personagens, saudade de uma mulher que não existe (na verdade mais de uma), nostalgia de avenidas e alamedas de cidades de um passado inobservável, praias de planetas situados num futuro que nem sei se haverá.
Privamos da amizade com escritores que falavam línguas exóticas (e as quais não estudamos; às vezes sim, e nelas, nos afundamos ainda mais no buraco negro, também chamado de umbigo). Penetramos nos pensamentos íntimos de uma mulher solteira, que desejava casamento escrevendo em um quarto escuro à luz de uma vela, depois de uma refeição com pratos os quais jamais saberemos o sabor. Choramos pelos sofrimentos de estranhos, que acabam se tornando nossos íntimos. Talvez mais íntimos do que as pessoas de carne e osso que nos ladeiam.
Uma fileira de livros são os últimos, ou únicos, vestígios dos que passaram pela Terra e não tiveram outra forma de fixar-se à terra a não ser com as raízes de palavras colhidas ao vento. São túmulos que se deixam profanar, restos de pessoas que permaneceram mais que ossos, ou pó. Uma fila de espectros, prontos para nos deixar pálidos de espanto, ou maravilhados com a estranheza que consideramos natural, a de evocar os mortos por meio de palavras.
Toda literatura tem um quê de necromancia, de se convocar os mortos, seus pensamentos e palavras, atos e omissões, pela mágica da palavra escrita.
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Estranha gente também a que escreve livros. Bem-aventurados ou não, serão convocados do esquecimento e assombrarão os vivos.
Há quem volte dos mortos. Há os que voltam dos livros.
Só se morre de verdade, de uma vez por todas, quando o último exemplar de um livro que escreveste virar pó. O último livro da última biblioteca.
Quando as páginas brancas virarem pó branco de ossos, mistura-te, tu mesmo, tão sábio escritor e mestre das letras, aos anônimos e analfabetos.
Que este pó adube a derradeira árvore do Paraíso, nascida depois do Juízo, aquela que contém em si toda a Beleza, a Vida, a Ciência do Bem e do Mal, mas que não será mais motivo de Queda.
Será a que contém, em si, todos os livros do mundo, a Palavra Encarnada na fibra da celulose, luminosa fotossíntese que contém em si o sol e o fibroplasto.



