Estresse infanto-eleitoral
Para Barbosa, de nada adianta ignorar a mudança ou interpretá-la apenas considerando seu peso de face
As questões relativas ao novo tarifaço dos EUA sobre exportações brasileiras precisam ser tratadas com critérios técnicos, independentemente dos aspectos ideológicos subjacentes a ele. Esta é a visão do ex-embaixador do Brasil em Washington entre 1999 e 2004, Rubens Barbosa, manifestada em entrevista ao Estadão de hoje (17).
Barbosa chama a postura de Trump de tentar estabelecer uma “lei do mais forte”, o que foge de parâmetros historicamente conhecidos, já tratados pelo Itamaraty. E também de nada adianta ignorar a mudança ou interpretá-la apenas considerando seu peso de face, como um conflito político ou algo passageiro. Porque, segundo ele, esta tende a ser a nova política americana enquanto Trump estiver lá no poder.
Na entrevista, ele considera o fato de não ser uma decisão que afeta apenas o Brasil, mas todo o mundo (‘uma nova ordem global’), independente de o Brasil estar sendo o mais prejudicado no momento. Por isso a exigência de negociações, de diálogos para se ajustar os pontos necessário.
Por que o Brasil está sendo o mais penalizado da região? Segundo Barbosa, porque há resistências internas para que se estabeleçam as negociações necessárias. “O Brasil foi acusado em seis ou sete áreas, os argumentos brasileiros foram apresentados, e não foram levados em consideração. Só não tem tarifa alta quem negociou acordo com os EUA”, afirma.
O experiente ex-embaixador defende, portanto, o fortalecimento de canais de negociações com o governo americano e que o Brasil ceda em alguns pontos, para poder se proteger em outros mais estratégicos. Ele destaca a necessidade de o país abrir mais sua economia, que é uma exigência americana.
Paralelamente a isso, Barbosa observa a demanda urgente de o governo brasileiro fazer sua lição de casa, que é controlar a inflação interna para que os juros também retrocedam, criando um ambiente favorável ao desenvolvimento econômico.
Na essência, Barbosa ensina o BE-A-BÁ, que o governo insiste em transformar em jogo político. Isso pode até ser favorável a Lula eleitoralmente, mas é um desserviço ao país, que precisa de estabilidade nas relações diplomáticas para se desenvolver de forma sustentável, e não insistir nesse estresse infanto-eleitoral para se reeleger.




