Estudo combina neuromodulação e fisioterapia para reabilitar pacientes após AVC
Titan Trial investiga método para tratar negligência espacial unilateral, sequela do acidente vascular cerebral que afeta a percepção do lado oposto ao do hemisfério cerebral afetado
Os procedimentos são considerados totalmente seguros e também têm sido usados em tratamentos para depressão, ansiedade e dor crônica (imagem: DC Studio/Freepik)
Estudo clínico envolvendo vários centros vai testar método inovador para tratar uma sequela incapacitante do acidente vascular cerebral (AVC): a negligência espacial unilateral (NEU), condição que afeta a percepção de um dos lados do espaço e dificulta a reabilitação funcional. Denominado Titan Trial, o projeto investiga a combinação de duas técnicas de neuromodulação não invasiva – a estimulação elétrica transcraniana por corrente contínua (ETCC) e a estimulação magnética transcraniana do tipo theta burst (TB) – com sessões de fisioterapia baseadas em tarefas.
A NEU faz com que a pessoa esqueça ou não perceba um lado do corpo ou do ambiente. Por exemplo, ela pode só comer o que está do lado direito do prato; colidir com objetos ou pessoas do lado esquerdo; pentear, barbear ou maquiar só o lado direito da cabeça; não ouvir quando alguém chama pelo lado esquerdo etc. Não é um déficit motor ou visual, mas um déficit de percepção, que pode continuar mesmo que o indivíduo afetado recupere força e movimento.
“Essa nova iniciativa é uma derivação de nossa linha de pesquisa em neurorreabilitação pós-AVC, apoiada por meio de Auxílio Regular da FAPESP”, afirma o neurologista Rodrigo Bazan, professor da Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista (FMB-Unesp) e coordenador do estudo.
A iniciativa dá continuidade a uma trajetória de pesquisa que já havia gerado resultados promissores em um estudo anterior conduzido pelo mesmo grupo. Apoiados pela FAPESP, os pesquisadores testaram a eficácia da ETCC anódica (estimulatória) em pacientes com lesão no hemisfério cerebral direito, especialmente na região parietal, responsável pela percepção do espaço à esquerda.
“Naquele estudo, que chamamos de Eletron Trial, mostramos que a estimulação elétrica anódica aplicada na região parietal direita favorece a plasticidade cerebral e reduz a negligência espacial”, lembra Bazan. “Foram seis artigos publicados, incluindo um no Annals of Neurology, uma das revistas mais respeitadas em neurociências.”
Com base nesses resultados, o grupo decidiu avançar para uma abordagem mais abrangente e potencialmente mais eficaz. No Titan Trial, além da estimulação elétrica do hemisfério lesado (direito), os pacientes recebem uma estimulação magnética transcraniana do tipo theta burst contínua (inibitória) no hemisfério contralateral (esquerdo). “A lógica é esta: estimular o lado que sofreu a lesão e inibir o outro lado, que, por má compensação, pode estar dificultando a recuperação”, explica Bazan.
Isso porque, quando acontece um AVC, o hemisfério que sofreu a lesão pode ficar hipoativo e o lado contralateral à lesão ficar hiperativo, provocando um desequilíbrio inter-hemisférico. A associação das duas técnicas ajuda a reequilibrar a atividade cerebral e potencializar os efeitos da fisioterapia.
Os procedimentos são considerados totalmente seguros e têm sido usados em outros tratamentos, para depressão, ansiedade, dor crônica e alterações motoras decorrentes do AVC. As estimulações elétrica e magnética não doem, provocando, no máximo, um leve formigamento ou uma pequena pressão na cabeça, que passam rapidamente.
“Estamos usando o melhor das duas técnicas: a ETCC anódica [estimulatória], que já mostrou bons resultados no nosso estudo anterior, e a TB [inibitória], que permite sessões mais rápidas e concentradas, com grande potencial de impacto na reorganização cortical”, afirma a fisioterapeuta Luana Aparecida Miranda Bonome, doutoranda no programa de pós-graduação em Fisiopatologia em Clínica Médica da FMB-Unesp. O estudo faz parte de seu projeto de pesquisa.
Segundo ela, o diferencial do Titan Trial está justamente na junção das duas técnicas, estimulatória e inibitória, conjugadas com fisioterapia específica. “Todos os pacientes passam pela fisioterapia com foco em tarefas específicas, o que potencializa os efeitos da neuromodulação. Não adianta abrir a janela da plasticidade cerebral e não aproveitá-la com uma intervenção funcional”, comenta Bonome.
O estudo é multicêntrico, com participação, além da Unesp de Botucatu, de instituições de várias regiões do Brasil, como a Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), com Gustavo Luvizutto, fisioterapeuta e membro ativo da equipe e com importante atuação no estudo anterior (Eletron Trial); Universidade de São Paulo (USP); Universidade Estadual de Campinas (Unicamp); e centros especializados em Salvador (BA), Campo Grande (MS) e Joinville (SC), entre outros. Também há colaboração internacional, com a Universidade de Toronto, no Canadá, que participará da análise dos desfechos clínicos, e os fisioterapeutas Brenton Hordacre e Emily Ramage, pesquisadores da Austrália com experiência na condução de ensaios clínicos e neuromodulação. No mínimo, 51 pacientes deverão ser recrutados, divididos em três grupos: estimulação ativa combinada, estimulação elétrica isolada e grupo placebo, todos os grupos recebendo fisioterapia com terapia orientada a tarefa.
“A seleção dos participantes é criteriosa. Incluímos apenas pacientes com AVC isquêmico do hemisfério direito e diagnóstico confirmado de negligência espacial. Excluímos casos de lesões bilaterais, déficits cognitivos graves ou comorbidades que comprometam a adesão ao tratamento”, informa Bonome.
As intervenções serão realizadas durante 15 sessões, com avaliações intermediárias e de seguimento após três, seis e 12 meses. As intervenções e avaliações serão feitas na Unidade de Pesquisa Clínica (Upeclin), grande apoiadora do projeto. Entre os desfechos monitorados, o principal é a redução da NEU, além da análise da melhoria na funcionalidade, autonomia, qualidade de vida e autoeficácia. Os pesquisadores esperam que os resultados possam consolidar a aplicação clínica da neuromodulação combinada como estratégia eficaz e factível no contexto do Sistema Único de Saúde (SUS). “Esse será um passo importante para transformar tecnologia avançada em prática assistencial cotidiana”, conclui Bazan.
José Tadeu Arantes | Agência FAPESP



