Estudo identifica possível assinatura biológica da DTM
Pesquisa com gêmeas idênticas encontra perfil de maior atividade inflamatória, estresse oxidativo e alterações ligadas à manutenção da dor, ampliando a compreensão da DTM para além da hereditariedade
Quem sofre de disfunção na articulação temporomandibular, a DTM, conhece bem as dores na mandíbula e nos músculos da mastigação; o que ainda não sabe e a ciência começa a esclarecer são os fatores biológicos por trás dessas dores, o que acontece no organismo que sente dor.
Em estudo recém-publicado, pesquisadores da USP de Ribeirão Preto encontraram alterações associadas a “um perfil biológico” de maior atividade inflamatória e de estresse oxidativo entre portadores de DTM, o que vale dizer que essas alterações podem “contribuir para a manutenção da dor, a sensibilização dos tecidos e a maior vulnerabilidade ao desenvolvimento de dor crônica”, conta a professora Christie Leite-Panissi, do Departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP.
Os achados vieram de análises laboratoriais realizadas em amostras do plasma venoso (parte líquida e amarelada do sangue) de 20 mulheres – dez pares de gêmeas idênticas e discordantes para a dor (uma gêmea com dor e outra, sem DTM). Como estado mais pró-inflamatório, os exames das gêmeas com dor mostraram maiores níveis de interleucina 6 (IL-6, citocina produzida para ativar inflamação como resposta imunológica) e aumento da razão entre IL-6 e IL-10 (interleucina 10, potente citocina anti-inflamatória).
O estresse oxidativo, informam as pesquisadoras, foi confirmado, nas gêmeas com DTM, pelo aumento da razão entre malondialdeído e superóxido dismutase (marcadores que indicam danos causados pelos radicais livres nas membranas celulares), resultado que mostra o excesso de moléculas que danificam células e proteínas e a menor capacidade de neutralização antioxidante.
Além desses parâmetros, as análises das gêmeas com DTM continham alterações nos níveis da enzima metaloproteinase de matriz 9 (MMP-9) e do inibidor tecidual de metaloproteinase 1 (TIMP-1). “Essas moléculas participam de processos de remodelamento tecidual e podem estar associadas à sensibilização periférica e à manutenção da dor”, acrescenta a professora Laís Valencise Magri, da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto (Forp), também da USP e líder da pesquisa ao lado de Christie.
Por fim, analisaram também o fator neurotrófico derivado do cérebro e o fator de crescimento neural beta, “moléculas que participam da plasticidade neural, da adaptação do sistema nervoso e de processos relacionados à sensibilização e à modulação da dor”, comenta a professora Laís, informando que estudaram ainda uma outra proteína, a alfa-2-macroglobulina, que participa da regulação de processos inflamatórios e de remodelação de tecidos.
Experiência de vida e comportamentos podem estão por trás de perfil doloroso
Os resultados do estudo demonstram que, para além da predisposição genética, “fatores ambientais e experienciais podem contribuir biologicamente para a vulnerabilidade à DTM”. Em termos mais simples, significa que o organismo da gêmea com dor apresentou sinais de um estado mais pró-inflamatório, com maior desequilíbrio oxidativo e maior participação de mecanismos relacionados ao remodelamento tecidual. Porém, “esses fatores não devem ser interpretados como uma inflamação sistêmica generalizada, mas sim como um padrão periférico coordenado, associado ao fenótipo doloroso”, observa Laís.
São respostas que oferecem uma “oportunidade para compreender melhor os fatores envolvidos na dor crônica”, avalia Christie, elencando experiências de vida, exposição ao estresse, hábitos comportamentais e aspectos emocionais e ambientais como possíveis mecanismos que modulam a expressão gênica sem alterar a sequência do DNA.
A literatura científica, lembram as professoras, já indica a disfunção temporomandibular como resultado de um componente hereditário; “no entanto, a hereditariedade não explica tudo; a própria discordância entre gêmeas idênticas mostra que fatores ambientais e experiências individuais também desempenham um papel relevante na manifestação da dor”, enfatizam.
Assim, inflamação, desequilíbrio oxidativo, remodelação da matriz e redução do suporte neurotrófico (fatores que administram sobrevivência, crescimento e conexão dos neurônios) caracterizam o que as pesquisadoras chamam de ‘fenótipo doloroso’, um perfil biológico que pode “permitir aos clínicos desenvolverem estratégias terapêuticas direcionadas e biologicamente informadas, com potencial para prever a vulnerabilidade à dor em indivíduos geneticamente suscetíveis”, asseguram.
Contudo, as pesquisadoras adiantam que ainda não dá para prever individualmente quem desenvolverá disfunção temporomandibular dolorosa. O estudo apresenta limitações, como uma amostra pequena, “como é esperado em pesquisas com gêmeos monozigóticos discordantes”, informam. Mesmo assim, acreditam que deram um passo importante para a compreensão dos mecanismos de vulnerabilidade para a DTM que “precisam ser confirmados em estudos maiores, longitudinais e com acompanhamento ao longo do tempo”.
Matéria: Rita Stella | Jornal da USP.






