
Uma pesquisa publicada na revista internacional BMC Public Health, intitulada Urban violence as a predictor factor of obesity: longitudinal evidence from Sao Paulo, Brazil (Violência urbana como fator preditivo da obesidade: evidências longitudinais de São Paulo, Brasil), investigou a relação do índice de violência nos bairros com o aumento da obesidade entre adultos na capital paulista.
O estudo é resultado de uma parceria entre a Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, o Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da USP e o Grupo de Estudos e Pesquisas Epidemiológicas em Atividade Física e Saúde da Universidade (Gepaf), da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP. Além de outras instituições como a Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), The University of Queensland, na Austrália, e a University of Illinois Urbana-Champaign, nos EUA.
A pesquisa
Apesar de serem desafios globais de saúde pública, para os autores, a relação entre a violência e a obesidade ainda não é suficientemente compreendida. Especialmente em países de baixa e média renda, nos quais raramente são produzidos estudos sobre o tema. “Conversando com o Gepaf, por incrível que pareça, a violência nunca era levada em consideração sobre um dos possíveis elementos que interferiram na qualidade de vida e na saúde das pessoas”, como explica ao Jornal da USP Marcelo Nery, mestre em Sensoriamento Remoto pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, doutor em Sociologia pela USP e um dos autores do artigo.
O Gepaf já havia realizado uma coleta de dados longitudinal denominada ISA – Physical Activity and Environment, posteriormente utilizada para o estudo sobre essa relação. A coleta foi realizada por meio de entrevistas domiciliares realizadas em dois momentos, entre 2014 e 2015 e entre 2020 e 2021, com entrevistas telefônicas durante a pandemia de covid-19.
A amostra foi composta por 815 adultos, na cidade de São Paulo, sem obesidade no início do estudo, avaliados nos dois períodos. Também foram coletadas as taxas de crimes violentos em um raio linear de mil metros a partir da residência dos indivíduos e suas percepções sobre a segurança urbana. Com base nessas informações, a exposição à violência foi classificada em cinco padrões: baixa violência persistente, redução, violência intermediária persistente, aumento, alta violência persistente.
Ao longo do período analisado, aproximadamente 15% dos participantes desenvolveram obesidade. Nas situações onde a violência era persistentemente alta, a incidência de obesidade foi 2,77 vezes maior do que aquelas que permaneciam nos ambientes de menor violência. Para Nery, esse foi o grande achado da pesquisa e que se mostrou estatisticamente muito maior do que o esperado.
Como a violência pode afetar a saúde
Após a análise dos resultados, a equipe buscou por estudos internacionais sobre a temática. “O que a gente começou a perceber analisando esses estudos é que a insegurança, por exemplo, pode fazer com que as pessoas caminhem menos. Elas evitam parques, praças e atividades ao ar livre pela sensação de insegurança”, diz Nery sobre uma das justificativas para essa relação.
Além do impacto direto sobre a expectativa de vida, com a mortalidade prematura, a violência pode estar associada a maiores riscos de lesões, problemas de saúde mental, adoção de comportamentos prejudiciais e desenvolvimento de doenças cardiovasculares, câncer e diabetes. Essa exposição constante a ambientes violentos também pode influenciar negativamente em comportamentos relacionados à saúde, como atividade física e padrões alimentares, favorecendo a dificuldade de adotar comportamentos saudáveis.
Outro aspecto levantado pelos pesquisadores é a infraestrutura dos bairros. A criminalidade pode levar à falta de investimentos ou à deterioração da infraestrutura pública, dos estabelecimentos comerciais e da estética ambiental, desencorajando os moradores a acessar os espaços. Além disso, a pesquisa também aborda sobre como a exposição contínua à violência pode causar um desgaste físico no organismo, estimulando mecanismos fisiológicos que liberam hormônios responsivos ao estresse que podem influenciar no consumo de alimentos.
Desigualdades e políticas públicas
No artigo, esses aspectos e a criminalidade no geral são levados como fatores relacionados à segregação socioeconômica e racial. Populações socialmente vulneráveis têm maior probabilidade de estarem expostas à violência urbana. Mas diante disso, o estudo propõe que são necessárias mais pesquisas para explorar essas relações.
No Brasil, a obesidade aumentou drasticamente nas últimas décadas. Os dados são do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) divulgados pelo Ministério da Saúde, no início deste ano. A taxa de obesidade em adultos saltou de 11,8%, em 2006, para 25,7%, em 2024. Além disso, a prevalência de excesso de peso em adultos aumentou de 42,6% em 2006, para 62,6% em 2024.
Para os pesquisadores, a taxa encontrada na pesquisa confirma que as políticas públicas atuais ainda não conseguiram estabilizar as taxas de obesidade. Segundo Nery, o estudo sugere que promover apenas hábitos saudáveis pode não ser suficiente para reduzir o risco de obesidade em contextos violentos. “Não basta a gente recomendar hábitos saudáveis às pessoas se não criarmos um ambiente que permita que elas tenham esse hábito saudável. Políticas de saúde, de planejamento urbano, de redução da desigualdade e segurança pública precisam estar articuladas”. O estudo pode ser acessado por este link. Além de Marcelo Nery, participaram da pesquisa: Bianca Mitie Onita, da FSP USP; Gregore Iven Mielke, da Universidade de Queensland, Brisbane, Austrália; Inaian Teixeira Pignatti, do Departamento de Corpo e Movimento Humano, Universidade Estadual de Minas Gerais, Passos; Pedro Curi Hallal, do Departamento de Saúde e Cinesiologia, Universidade de Illinois Urbana-Champaign, Champaign, IL, EUA; e Alex Antonio Florindo, da FSP-USP e da EACH-USP.
Matéria: Evelyn Rodrigues | Jornal de USP







