Consumo excessivo de proteínas afeta o meio ambiente e a saúde da população, segundo pesquisadora
Nadine Marques detalha o “mito do déficit proteico” e seus efeitos na sociedade

O segmento de alimentos com proteína adicionada já movimenta R$ 2 bilhões por ano no Brasil, segundo dados do Euromonitor. Em busca de um estilo de vida mais saudável, a proteína é frequentemente atrelada ao ganho de massa muscular e à saciedade, lógica que cria uma noção falsa de que devemos consumir uma maior quantidade desse nutriente. Nadine Marques, nutricionista e pesquisadora da Cátedra Josué de Castro, explica o “mito proteico” disseminado entre os consumidores.
Segundo a nutricionista, esse mito consiste na ideia de que haveria um risco aumentado de deficiência na ingestão de proteínas, sendo bastante ligada à desnutrição infantil. “Ele foi construído especialmente com base em interesses econômicos ligados a um sistema agroalimentar, que produz cada vez mais alimentos de origem animal e precisa destiná-los”, acrescenta.

Exemplo disso são os Estados Unidos, que produziam leite em pó em excesso, juntamente a outras formulações industriais ricas em proteínas, e passaram a apontar esses alimentos como resposta para resolver essa suposta deficiência. Esse mito acerca do déficit contribuiu diretamente no mito da necessidade aumentada de proteínas, especialmente forte nos dias atuais.
Com base nas variadas funções fisiológicas deste nutriente, criou-se uma noção falaciosa de que as proteínas seriam um nutriente superior em relação aos carboidratos e às gorduras. Na realidade, estudos em nutrição humana demonstram que, ao ingerir uma quantidade de energia suficiente, o teor de proteínas também será suficiente. Nadine destaca que “apenas 3% dos brasileiros têm um consumo insuficiente de proteínas, consumimos, em média, mais do que a quantidade deste nutriente recomendada para que nosso corpo funcione bem”.
Impactos na saúde e no ambiente
O aumento inconsciente da ingestão de proteínas pode ser prejudicial à saúde, aponta a pesquisadora. “Pensando na saúde humana, o hábito de consumir esse nutriente em excesso pode resultar em problemas metabólicos no fígado, pâncreas e rins, e no próprio tecido muscular. E, especificamente, o consumo excessivo de carnes vermelhas e processadas está relacionado ao desenvolvimento de doenças crônicas, como cânceres do trato gastrointestinal e doenças cardiovasculares.”
A lógica de produção de animais que predomina há algumas décadas para suprir essa demanda afeta também o meio ambiente. Desmatamento e prejuízo à biodiversidade para a abertura de pastagens, esgotamento dos solos com a monocultura de produção de grãos, em sua maioria usados para a ração desses animais, são exemplos de como esse modelo em função do alto consumo de proteínas é danoso.
A pesquisadora explica que essa operação ainda desrespeita os critérios de bem-estar animal e promove o uso excessivo de antibióticos na criação de aves e suínos. A prática gera um problema de contaminação ambiental que se soma à contaminação por agrotóxicos, com um impacto direto na saúde pública.
“Por outro lado, as frutas, legumes e verduras, alimentos que comprovadamente protegem contra essas condições e podem estar relacionados à manutenção da biodiversidade e da resiliência do sistema agroalimentar, são consumidos em quantidade e frequência menores do que o recomendado por ¾ da população brasileira. Isso mostra que precisamos mudar o foco de nossa preocupação sobre o padrão de produção e de consumo de alimentos”, defende Nadine.



