Executivo atribui cortes na Fumep a déficit acumulado; docentes pedem diálogo
Vereadora Rai de Almeida promoveu na Câmara, na tarde de ontem (8), audiência pública sobre a Fundação Municipal de Ensino de Piracicaba
Thaís Fornícola, classifica como “sangramento” nas finanças da Fundação Municipal de Ensino de Piracicaba (Fumep) - Foto: Guilherme Leite
Professores da Escola de Engenharia de Piracicaba (EEP) pedem maior abertura ao diálogo e à participação dos docentes no atual plano de ação posto em prática para conter o que a secretária municipal de Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio, Thaís Fornícola, classifica como “sangramento” nas finanças da Fundação Municipal de Ensino de Piracicaba (Fumep).
Junto com o Colégio Técnico Industrial de Piracicaba (Cotip), o Centro de Pós-Graduação e o Centro de Educação Profissional de Piracicaba, a EEP é uma das quatro unidades de ensino que compõem a Fumep, ente que integra a administração indireta do município e possui orçamento próprio, com previsão de receitas de R$ 24,074 milhões em 2026, segundo a Lei Orçamentária Anual em vigor.
Thaís está interinamente, desde abril, como diretora-executiva da fundação, em substituição a Luis Chorilli Neto, que se afastou por três meses, sem remuneração, para a disputa de um cargo honorífico no Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea). A secretária foi a responsável pela maior parte das respostas do Executivo na audiência pública sobre o futuro da Fumep realizada na tarde desta sexta-feira (8) na Câmara.
A discussão foi convocada pela vereadora Rai de Almeida (PT) no requerimento 396/2026 e trouxe ao plenário da Casa parlamentares, secretários municipais e docentes do quadro da Fumep. O debate foi motivado pelas mudanças recentes implementadas na fundação, entre as quais a demissão de sete professores de longa trajetória na instituição e a não-abertura de novas turmas nos cursos de graduação em engenharia de produção e ciências contábeis.
“A Fumep tem um papel de extrema relevância para a sociedade e, em razão de alguns problemas que chegaram ao nosso conhecimento, por dever de ofício chamamos essa audiência pública. Não temos aqui o papel de ‘caça às bruxas’, mas temos de levantar os problemas que existem, apurá-los e buscar saná-los para ter nossas instituições funcionando nos termos para os quais foram criadas”, afirmou Rai de Almeida, no início dos trabalhos.
Thaís disse que os cortes foram feitos “para levar a fundação ao nível e à estabilidade que ela merece”. “É uma instituição de quase 60 anos que vem sofrendo com muitas dificuldades financeiras. Estou feliz em ter essa oportunidade de mostrar isso e ouvir sugestões que possam fazer a fundação ser cada vez mais forte e longeva. Acredito, sim, que essa é uma solução que precisa ser construída a muitas mãos”, afirmou.
A Fumep conta hoje com mais de 210 funcionários, incluindo terceirizados, e um total de 2.270 alunos, dos quais 1.207 estão matriculados na EEP, 233 no Cotip, 761 no Centro de Educação Profissional de Piracicaba e 69 no Centro de Pós-Graduação.
Com 79 professores, dos quais 97,5% possuem mestrado e doutorado, a EEP mantém estável, nos últimos quatro ciclos, a nota 3 no Índice Geral de Cursos, que vai de 1 a 5 e é o principal indicador de qualidade das instituições de ensino superior no Brasil, calculado anualmente pelo Inep/Ministério da Educação. “A fundação continua sendo reconhecida por sua qualidade e referência no ensino e, como evidência disso, o regulador externo continua aprovando e nos reconhecendo pela qualidade”, pontuou a diretora-executiva interina.
No entanto, reportou Thaís, a EEP perdeu 925 de seus alunos entre 2016 e 2024, uma redução de 43%. “A queda está alinhada com a transformação estrutural que toda instituição de ensino superior presencial brasileira sofre”, disse a secretária, num cenário em que o ensino a distância (EaD) cresce, enquanto o presencial encolhe. “Não se trata de uma crise de gestão [da EEP], mas de uma transformação estrutural do mercado de educação superior”, observou, acrescentando que cada aluno que sai significa mensalidades a menos, sem que a folha de pagamentos tenha acompanhado a queda das receitas ao longo dos anos.
SEM MEDIDAS ADOTADAS, FUMEP CRUZARIA LIMITE OPERACIONAL AINDA EM 2026, DIZ SECRETÁRIA
A Fumep teve seu último saldo financeiro positivo em 2016, quando alcançou superávit de R$ 416 mil —os nove anos desde então geraram um déficit acumulado de R$ 17 milhões. A folha de pagamentos chegou a representar 100,2% da receita em 2020, alcançou em 87% em 2025 e fechou o primeiro trimestre deste ano em 68,1%, menor porcentagem desde os 70% de 2016, segundo os dados apresentados pela diretora-executiva interina na audiência pública da Câmara.
“A Fumep [antes] estava pagando os salários com suas reservas, tirando dinheiro do banco, do investimento financeiro, não do que arrecadava, tornando uma situação insustentável financeiramente. Neste último trimestre, de janeiro a março de 2026, pela primeira vez nós baixamos de 70% esse índice”, comparou.
“Olhando o caixa acumulado, que são as aplicações financeiras, como consequência perdemos 72% do caixa, ao consumi-lo, saindo de R$ 23,9 milhões em 2016 para R$ 6,4 milhões em 2025, sendo que a reserva mínima recomendada para uma instituição de ensino é de, no mínimo, seis meses de despesas operacionais, [no caso da Fumep] cerca de R$ 11 milhões. Seguimos longe da saúde financeira recomendada, com de três a quatro meses de segurança”, disse Thaís.
Segundo a secretária, sem as medidas adotadas em 2025, cálculos indicaram que a fundação teria o esgotamento total de suas reservas daqui três anos. “A Fumep teria cruzado o limite operacional ainda em 2026 e chegado ao seu último dia de operação em 13 de março de 2029. Isso deixaria 2.270 alunos sem recursos e 210 funcionários sem emprego e, provavelmente, sem as verbas rescisórias previstas”, afirmou, ao explicar que tal projeção é baseada na taxa média de queda das reservas observada nos últimos dez anos, de R$ 2 milhões anuais.
Thaís apontou que a adoção de um conjunto de medidas em 2025 —por ela denominadas como reorganização do quadro docente, reorganização acadêmica, revisão de contratos e adequação da infraestrutura— terão impacto recorrente a partir de 2026 de R$ 2,39 milhões economizados ao ano. “As decisões foram tomadas para garantir que a Fumep se perpetue por mais décadas, com base em dados e com respaldo jurídico, cuidado e responsabilidade com cada uma das pessoas envolvidas.”
Sete professores foram demitidos em junho do ano passado, sob regime CLT, com todas as verbas e os direitos legais pagos integralmente, num total de R$ 1,1 milhão, valor que a secretária projeta que serão recuperados em 33 meses, até março de 2028. “As aulas desses professores foram substituídas majoritariamente pelo quadro de professores existentes. O efeito na folha total da Fumep foi de R$ 1,52 milhão por mês, de janeiro a abril de 2025, para R$ 1,33 milhão por mês, de janeiro de abril a 2026, uma redução de 12,6%.”
Quanto ao valor médio da hora-aula, a secretária apresentou um cálculo que não considera encargos, mas somente o salário mensal fixo e o quinquênio. Segundo essa referência, o valor médio da hora-aula dos sete docentes demitidos era de R$ 177, enquanto a dos professores ingressantes é de R$ 100, ainda acima dos R$ 54 pagos pelo “mercado regional”, como exposto na arte exibida no telão do plenário, considerando a Fatec Piracicaba, a FSA Santo André e o Claretiano Rio Claro.
Thaís classificou a demissão dos sete professores como “movimento estrutural estritamente necessário para a continuidade da prestação de serviços para a comunidade piracicabana” e enfatizou que “as avaliações recentes do Conselho Estadual de Educação e do MEC permanecem com os mesmos índices de qualidade” após os desligamentos. “Foi feita uma realocação, usando os professores que estão remanescentes da organização, plenamente capacitados, que já são experientes e que já pertenciam ao quadro de professores, para substituir as aulas dos professores desligados”, reiterou.
As mudanças também refletiram na formação acadêmica, com 44 disciplinas tendo sido fundidas entre cursos com conteúdo comum, “sem nenhum prejuízo pedagógico”, segundo a diretora-executiva interina, e na revisão de contratos e na formalização de outros que não existiam. “Hoje, todas as compras da fundação estão debaixo de contratos; ganhamos maior previsibilidade orçamentária e foi implementada a gestão de estoque.”
O período desde 2025 também registra a realização de 17 obras, entre as quais a troca de três transformadores “que estavam sem manutenção há mais de 10 anos”, a manutenção do reservatório de água, a troca por iluminação de LED em todo o campus e a compra de 100 novos computadores e 500 capacetes. “Ainda falta muita coisa para fazer: temos mapeados R$ 5,3 milhões em obras planejadas, entre emergenciais, estruturais, por demanda e proativas.”
“Hoje já conseguimos ver os resultados positivos: o caixa voltou a crescer, para R$ 6,78 milhões em março de 2026, uma recuperação que é consequência direta das medidas. A linha de tendência que apontava para o esgotamento se inverteu e mostra, ainda que discretamente, uma sustentabilidade, com projeção de caixa para R$ 10 milhões em 2029. Em 2026, pela primeira vez, o caixa cresceu R$ 367 mil no primeiro quadrimestre: não houve saque de reservas, a operação se pagou sozinha e ainda sobrou”, destacou a diretora-executiva interina.
REPRESENTANTE DOS DOCENTES QUESTIONA MUDANÇAS E PEDE MAIOR DIÁLOGO
O presidente da Associação dos Docentes da EEP, Francisco José de Almeida, chamou o desligamento dos sete professores em junho de 2025 de “demissão sumária” e lamentou que seis pedidos de explicações elaborados pela entidade não tenham tido respostas. Ele discordou de dados apresentados por Thaís, contestando os valores mencionados pela secretária em relação aos salários dos professores demitidos, afirmando que a economia real, já com os custos trabalhistas, é de cerca de R$ 30 mil mensais.
Mestre e doutor em engenharia e professor há 38 anos na EEP, Francisco também pôs em dúvida o tempo que a fundação levará para recuperar o total de R$ 1,1 milhão gastos com as verbas rescisórias —ele calcula que demorará 98 meses. “Não é uma boa solução financeira; vamos demorar oito anos para ter a recuperação desse valor. Quero realçar que muitos desses professores estavam em vias de aposentadoria; em um, dois, três anos, a maioria deles já estaria fora da instituição”, argumentou.
Francisco chamou a atenção para o impacto que as demissões têm na imagem da Fumep no mercado. “A EEP é avaliada pelo Conselho Estadual de Educação, e o número de doutores e mestres é o que define a nota da escola. Quando eu tiro doutores e contrato mestres, a nota cai, e isso vai para o mercado, que fala: ‘Nossa, a nota era 4 e agora virou 3; o que aconteceu?’”, raciocinou.
Para Francisco, trata-se de danos de dimensão “intangível”, o mesmo acontecendo com a repercussão da não-abertura dos cursos de engenharia de produção e ciências contábeis. “Quando um curso não é oferecido em um semestre, eu nunca vi ele voltar a ser oferecido em semestres posteriores. O mercado não aceita isso. Eu duvido que vai ter aluno inscrito no ano que vem para esses cursos. Não tenho bola de cristal, mas esse é o histórico de vários casos”, comentou o professor, que também é membro do Conselho de Curadores da Fumep, órgão máximo da fundação.
Ainda sobre a imagem que a Fumep transmite atualmente, o docente usou como exemplos salas que deixaram de ser utilizadas como forma de reduzir gastos com manutenção, mas que hoje estão com ar de abandonadas, servindo de depósito de mobiliário. “Essa é a situação hoje de alguns locais da fundação: eu entendo que as decisões de fechamento desses espaços economiza luz e limpeza, mas a visão que o nosso aluno tem é péssima.”
“Mantendo essa filosofia de gestão, vai mudar alguma coisa na escola? Nossa sugestão é de maior diálogo. O corpo docente, intrinsecamente, tem uma capacitação muito grande. Temos professores altamente reconhecidos nas suas áreas, muitas relativas à gestão, e nós não somos ouvidos. Solicitamos formalmente em setembro uma reunião para discutir o futuro da escola, não fomos respondidos, solicitamos de novo em novembro e conseguimos a reunião em dezembro. Demoramos três meses para sermos ouvidos”, afirmou.
FUTURO DA FUMEP É OBJETO DE PERGUNTAS DE VEREADORES E DOCENTES
A sequência da audiência pública teve espaço aberto para questionamentos feitos por vereadores e professores da Fumep. Entre as dúvidas levantadas, estiveram perguntas sobre se os cursos de engenharia de produção e ciências contábeis terão a abertura de novas turmas e se há no horizonte a possibilidade da chamada “encampação” da Fumep pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Também foram indagados se está prevista a oferta de novos cursos, como a direção projeta a participação da fundação no desenvolvimento de Piracicaba nos próximos anos e se os professores serão consultados para a escolha dos futuros diretores da instituição, visto que argumentam terem sido alijados do processo nos últimos anos.
Thaís comentou a decisão da Fumep de não abrir novas turmas de graduação em engenharia de produção e ciências contábeis. “Após todas as análises das necessidades da fundação e dos flancos que estavam abertos e enfraquecendo nosso patrimônio, o entendimento é de que abrir turmas fora do ponto de equilíbrio traria novamente um sangramento de caixa, que anularia as medidas tomadas exatamente com o objetivo de estancar a fonte de prejuízo.”
Para o atual ano letivo, o curso de engenharia de produção chegou a ter 20 matriculados e o de ciências contábeis, 17, abaixo do “ponto de equilíbrio” de 48 e 54 ingressantes, respectivamente, calculado para a manutenção dos cursos. “Fizemos também a simulação financeira: o que aconteceria se insistíssemos em abrir essas turmas? Para engenharia de produção, o déficit projetado seria de R$ 1,07 milhão e para ciências contábeis, de R$ 781 mil”, informou Thaís, num cálculo que leva em conta o período total de dez e oito semestres de cada curso, respectivamente.
“A decisão da não-abertura foi comunicada em 5 de fevereiro, após o encerramento da primeira etapa de inscrições e antes do início das aulas, dentro das regras do edital. Essa ‘pausa’ foi feita para proteger os alunos que já estão aqui, para garantir que esses cursos sejam sustentáveis quando voltarem”, explicou a diretora-executiva interina, que disse que ambos os cursos terão turmas reabertas se tiverem no próximo ano letivo “inscrições suficientes”, que “cheguem próximo do ponto de equilíbrio”.
Sobre a relação com a Unicamp, Thaís destacou que “houve uma aproximação muito grande com o novo reitor”, com o qual se reunirá na próxima semana para “discutir já os próximos passos”. Ela disse que o que se avalia é, “num primeiro momento”, a implantação do curso de medicina em sinergia com a FOP (Faculdade de Odontologia de Piracicaba) e, depois, “uma parceria, sim, na engenharia”. “Mas não temos detalhes; se eles existissem, já estariam divulgados”, ponderou.
Quanto ao futuro, Thaís disse que as ações que vêm sendo adotadas miram “o posicionamento estratégico da Fumep para os próximos 20 anos”. “Novos cursos, como arquitetura, direito e pedagogia, podem ser alternativas, mas após a consolidação da sustentabilidade financeira. Não tem como abrir novas possibilidades de prejuízo enquanto não tivermos essa sustentabilidade financeira consolidada.”
“O futuro só pode ser definido a partir do momento em que temos a parte básica feita. Este é o primeiro horizonte: sanar todo o sangramento financeiro para pensar em novos cursos. As decisões de 2025 foram duras, mas o último trimestre mostrou que a direção está certa: a operação se pagou sozinha e a Fumep está voltando a ser sustentável sem nenhum prejuízo técnico e pedagógico”, ressaltou a diretora-executiva interina.
Presidente da audiência pública, Rai de Almeida propôs a continuidade das discussões, com maior participação dos docentes e da sociedade. “Não esgotamos o debate aqui, temos muita coisa a conversar. Aqui foi a abertura de um diálogo sobre a Fumep. Faço um encaminhamento para que a Câmara, o Conselho de Curadores, a Associação dos Docentes, a Thaís, que está na direção agora, e mais os coordenadores de curso possamos dar continuidade a esse debate e tiremos uma proposta de qual Fumep queremos. Que pensemos no futuro da Fumep, que é uma instituição de referência e que não podemos deixar que se acabe”, defendeu a vereadora.
Também participaram da audiência pública a secretária municipal de Educação, Juliana Vicentin, o secretário municipal de Trabalho, Emprego e Renda, José Luiz Ribeiro, o secretário-executivo de Meio Ambiente, Gustavo Martins, o procurador-geral do município, Marcelo Maroun, e os vereadores Felipe Gema (Solidariedade), Gustavo Pompeo (Avante), Josef Borges (PP), Fábio Silva (Republicanos), Pedro Kawai (PSDB), Thiago Ribeiro (PRD) e Silvia Morales (PV).





