
Frutas, verduras, legumes e raízes que chegam à mesa dos brasileiros podem carregar mais de um resíduo de agrotóxico ao mesmo tempo, combinação que preocupa para além dos riscos da presença isolada de cada substância. É o que revela um estudo recém-publicado na revista científica Foods, com análises conduzidas por equipe da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP.
Segundo o pesquisador Gabriel Henrique Savietto, que trabalhou sob orientação da professora da FCFRP Marília Cristina Oliveira Souza, análises de 60 amostras de 20 categorias de alimentos identificaram diferentes tipos de irregularidades. Entre elas, o destaque ficou com o risco cumulativo dessas substâncias tóxicas na mandioca, no morango e no espinafre. As amostras, afirma Savietto, continham misturas de resíduos que, quando relacionadas ao consumo e à toxicidade, se enquadram em índices acima de 1, valor de referência utilizado no estudo.
“São praguicidas utilizados principalmente no controle de pragas agrícolas, como clorpirifós, pirimifós, malation, imidacloprido e fipronil”, informa, acrescentando que, embora tenham a mesma finalidade geral, são substâncias que possuem diferentes mecanismos de ação e formas de aplicação.
A simples identificação desses resíduos em um alimento não significa necessariamente um risco à saúde. Savietto conta que essas substâncias podem estar presentes até mesmo em frutas e verduras produzidas de maneira orgânica, devido à contaminação ambiental da água e do solo. Assim, é importante avaliar qual substância foi encontrada, sua concentração e se ela é autorizada para determinada cultura.
A exposição também não acontece a partir de um único praguicida ou de uma única fonte. “Diariamente consumimos diferentes alimentos e podemos entrar em contato com várias substâncias ao mesmo tempo. E, sobre essa exposição combinada, ainda não conhecemos completamente os efeitos da exposição prolongada a essas misturas e a forma como diferentes substâncias podem interagir no organismo”, afirma.
No estudo, os pesquisadores encontraram concentrações que variaram entre os diferentes praguicidas e alimentos analisados. Em alguns casos, os compostos identificados eram autorizados para determinada cultura, mas em concentrações acima do limite máximo de resíduo permitido. Em outras situações, encontraram substâncias não autorizadas. Como exemplo, o carbofurano, detectado em amostras de tomate e pimentão, que está proibido no Brasil desde 2017.
Enquanto isso, encontraram na abobrinha concentração de imidacloprido superior ao limite máximo permitido. Uma possível explicação para o caso, adianta o pesquisador, seria o não cumprimento do período de carência – intervalo entre a aplicação do produto e a colheita – necessário para reduzir a concentração dos resíduos. Entre outras causas, Savietto cita a aplicação inadequada ou a contaminação cruzada. Mesmo assim, ressalta que o resultado encontrado não pode ser generalizado para toda a produção de abobrinha do País, reforçando a importância do monitoramento.
Estudo analisou 60 amostras em 20 categorias de alimentos – Foto: Retirada do artigo
Exposição combinada é pouco conhecida
A avaliação da exposição simultânea a diferentes praguicidas encontrou os maiores índices de preocupação no cálculo do risco cumulativo, com a mandioca, morango e espinafre entre os destaques. Na mandioca, por exemplo, o fipronil apareceu com contribuição importante.
Para chegar a esse índice de risco cumulativo, os cálculos consideraram as concentrações das substâncias relativas ao consumo médio dos alimentos segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o peso corporal de um adulto com 70 quilos. “Os compostos foram agrupados de acordo com efeitos semelhantes sobre o organismo, permitindo estimar a exposição conjunta”, informa Savietto.
Os resultados que ficam acima de 1, continua o pesquisador, indicam que a exposição estimada ultrapassou o nível de referência considerado seguro e representa um potencial risco à saúde em uma situação de exposição crônica. Ressalta que esse resultado não significa que a pessoa necessariamente desenvolverá um problema de saúde, mas indica uma situação que requer atenção.
Essa advertência quanto a possíveis riscos cumulativos, segundo Savietto, se deve ao fato de que, no Brasil, a legislação avalia os praguicidas de maneira individual, considerando os limites máximos de resíduos estabelecidos para cada substância e cultura. A exposição simultânea a diferentes praguicidas ainda não é considerada de forma sistemática na avaliação regulatória.
Contudo, como observado no estudo, diferentes substâncias podem atuar sobre mecanismos biológicos semelhantes. “A literatura científica ainda é bastante limitada quando pensamos na exposição simultânea a múltiplos resíduos de praguicidas, especialmente considerando o perfil de exposição e alimentação da população brasileira. Em alguns casos, os efeitos podem ser aditivos ou até potencializados quando ocorre a exposição conjunta”, afirma, ressaltando que o grande desafio é justamente entender como essas substâncias interagem entre si e quais são os efeitos de uma exposição crônica a essas misturas, que é muito mais próxima do que ocorre na vida real.
Os resultados da pesquisa também apresentam um paralelo com o Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (Para) da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). “No ciclo mais recente do Para, cerca de 26% das análises apresentaram resíduos de praguicidas não autorizados para as culturas avaliadas. Isso reforça que a questão não é apenas a quantidade de resíduo encontrada, mas também quais substâncias estão presentes e a possibilidade de exposição simultânea a diferentes compostos”, diz.
Nunca deixar de consumir frutas, verduras e legumes
Apesar dos resultados, os pesquisadores não recomendam que a população deixe de consumir frutas, verduras e legumes. Ao contrário, esses alimentos são fundamentais para uma alimentação saudável.
A orientação de Savietto é manter uma alimentação variada e higienizar adequadamente os alimentos antes do consumo. “Apesar de não remover por completo a exposição, é importante lavar os alimentos em água corrente e, quando recomendado, usar solução sanitizante própria, seguindo as orientações do fabricante”, informa.
Outras alternativas são optar por produtos da época e, quando houver informações confiáveis sobre as práticas de cultivo, valorizar os produtores locais e a agricultura familiar.
A higienização, entretanto, não elimina completamente a possibilidade de exposição. Segundo o pesquisador, reduzir esse risco depende também de medidas mais amplas, como monitoramento, fiscalização e adoção de práticas agrícolas mais seguras.
Reduzir exposição a praguicidas depende de fiscalização e práticas agrícolas
O fato das amostras terem sido coletadas em uma única região (Sudeste) limita a generalização dos achados para todo o Brasil. Além disso, Savietto lembra das incertezas relacionadas à disponibilidade de dados toxicológicos para alguns compostos e à exposição de misturas de praguicidas.
Outra limitação está na avaliação feita apenas para os adultos, deixando lacunas importantes para grupos como crianças e idosos que podem apresentar maior vulnerabilidade devido a diferenças fisiológicas, de peso corporal e de consumo de alimentos. Por isso, o grupo de pesquisa pretende ampliar, em estudos futuros, a avaliação de risco para diferentes grupos da população brasileira e aumentar o número de regiões, alimentos e praguicidas analisados.
Segundo o pesquisador, também é necessário avançar no monitoramento e na regulamentação dos resíduos de praguicidas no Brasil, verificando se as concentrações estão dentro dos limites permitidos e também ampliando a avaliação da exposição simultânea a diferentes substâncias, à cobertura de alimentos e regiões analisadas.
Savietto lembra que eliminar completamente a exposição a esses compostos é pouco realista, uma vez que eles estão presentes no ambiente e fazem parte de diferentes sistemas de produção de alimentos. Assim, acredita que a redução da exposição depende tanto de escolhas individuais, como manter uma alimentação variada e hábitos saudáveis, quanto de medidas de monitoramento, fiscalização e adoção de práticas agrícolas mais seguras.
Por fim, o pesquisador destaca a importância do investimento em ciência. “Grande parte dos dados sobre exposição e riscos relacionados aos praguicidas é produzida por universidades e instituições públicas, que dependem de financiamento e de políticas de incentivo à pesquisa.”
Por isso, enfrentar os possíveis riscos relacionados à exposição a essas substâncias não depende apenas das escolhas dos consumidores, mas também do fortalecimento da pesquisa científica, do monitoramento, da fiscalização e das políticas públicas baseadas em evidências.
Matéria: Vinicius Pereira | Jornal da USP.






