Sempre gostei de fábulas. As de Esopo são as melhores. A “Raposa e as Uvas” é uma forma de nos protegermos dos nossos fracassos, como se a não realização de certo objetivo fosse a melhor coisa para o momento, uma vez que a conquista poderia nos prejudicar de alguma forma, pois não estaríamos preparados para ela.
O “Cão e sua Sombra” é o exercício da ambição malsucedida, uma vez que perdemos o que temos quando desejamos muito. Pelo lado bom, recordo “O Corvo e o Jarro”. Com muita sede, ele teve a paciência de colocar pedra sobre pedra até que a água, até então inalcançável no fundo do pote, pudesse refrescá-lo do calor sufocante.
Mas chega uma hora em que a gente quer construir a própria fábula, e me veio à memória uma história esquisita que ouvi em um boteco. Um senhor, depois de tanto tempo sem dentes, conseguiu sua primeira dentadura.
Ao lado do seu velho cão, andava pela rua em direção à casa. Ele ria para exercitar aquele gesto que havia esquecido, de tanto tempo perdido no passado.
Pretendia mostrar à vizinha o quanto havia mudado, e para melhor, já que até sua casmurrice havia sido superada só com a nova feição que assumira. Mas chegou o momento em que teve uma baita vontade de espirrar.
Espirrou tão forte que a dentadura saiu da sua boca e voou sem direção. Ele partiu afobado à procura dos dentes postiços, mas não os encontrou.
Muito triste com a situação, abaixou a cabeça e seguiu andando. Percebeu também que até seu cão de estimação o havia abandonado.
Quando chegou em casa, lá estava seu cão, rindo de felicidade, com os dentes novos que havia encontrado na rua.
Moral da história: Quem ri por último pode ser o primeiro a te trair.




