Quem já ouviu a canção “Feelings” com Frank Sinatra, Julio Iglesias, Ella Fitzgerald, Nina Simone, Dionne Warwick, ou um dos outros 300 artistas (aproximadamente) que a gravaram, provavelmente sabe que o compositor, e seu primeiro intérprete, com quem o hit “estourou”, foi Morris Albert, em 1975.
Mas você sabia que o verdadeiro nome do artista é Maurício Alberto Kaisermann? E que a música foi composta para a trilha internacional da novela da TV Globo “Corrida do Ouro”?
Esta e muitas outras músicas, que ainda hoje tocam nas rádios e canais do Spotify e Youtube que tem a nostalgia como tônica, ainda “enganam” muita gente. Que pensa que os seus intérpretes e compositores são estrangeiros.
Mal sabem que eram brasileiros, e que em sua maioria, fizeram o seu trabalho para fazer parte de trilhas internacionais de novelas da Globo; que eram contratados da gravadora Som Livre (que existia para vender as trilhas das telenovelas da emissora, e pertencia a ela); e que tinham nomes artísticos em inglês, mas eram 100% brazucas.
Esse é o fenômeno que ficou conhecido no mercado fonográfico como “a era dos falsos gringos". No início dos anos 1970, a TV Globo percebeu que o pagamento de direitos autorais de músicas estrangeiras era alto, e passava por muita burocracia. A solução foi colocar compositores e cantores brasileiros para criarem e gravarem baladas românticas em inglês.
Interessante é que outras emissoras, como a TV Tupi e a Bandeirantes, também usaram a mesma “estratégia”. Para que o público acreditasse que eram astros americanos ou britânicos, as gravadoras e emissoras impunham aos cantores que adotassem nomes artísticos anglófonos.
Bandas como Os Carbonos gravavam com nomes genéricos ingleses como músicos de estúdio, embora fossem uma banda bem brasileira. Outras, como Pholhas, mal disfarçavam sua origem, mas como cantavam em inglês, ninguém se dava conta da sua real nacionalidade.
O fato é que, embora a nacionalidade e idioma fossem fingidos, o talento deles era real: muitos se tornaram gigantes da MPB, do pop e do sertanejo anos depois (embora não todos).
O único a ter carreira internacional, Morris Albert, ultrapassou as fronteiras da trilhas de telenovelase e o meio artístico do Brasil. Embora um pequeno problema tenha embaçado um pouco seus méritos - o que iremos contar abaixo.
O que é mais curioso, ou estranho, é que as gravadoras que utilizaram do expediente concentraram seus esforços em nomes masculinos - pouquíssimas cantoras fizeram parte do “movimento” dos “falsos gringos”. Provavelmente, porque as baladas românticas dos falsos gringos emulavam as composições interpretadas por vozes masculinas aveludadas cantando dores de amor, como Elvis Presley, Paul Anka, Frank Sinatra e Johny Mathis. E pelo fato das cantoras terem aceitação muito grande no mercado nacional, cantando em português. Por isso, aparentemente, não havia “necessidade” de haverem também cantoras fingindo que tinha o inglês como língua original.
Como as gravadoras escondiam a identidade dos artistas
As gravadoras montavam verdadeiras operações de guerra para proteger a farsa, pois se o público descobrisse que o artista internacional do momento era, na verdade, um brasileiro da periferia ou do interior, o encanto e as vendas acabariam.
Chrystian (da futura dupla Chystian & Ralf), por exemplo, era terminantemente proibido de dar entrevistas em português. Se um jornalista se aproximasse nos bastidores da TV, o artista precisava fingir que não entendia o idioma, usando assessores que fingiam “traduzir” as perguntas.
Os departamentos de marketing das gravadoras criavam biografias fictícias completas. Imprimiam folhetos distribuídos para as rádios dizendo que o cantor tinha nascido em cidades como Nova York, Boston ou Londres.
Como eles não podiam fazer turnês longas (já que o sotaque ou a falta de músicos estrangeiros os denunciariam), as gravadoras alegavam que o artista estava “de passagem pelo Brasil” ou “ocupado demais gravando nos EUA”, limitando suas aparições a dublagens rápidas em programas como o de Chacrinha ou Silvio Santos.
Confira alguns dos “falsos gringos” a seguir, e na parte 2 do artigo.
Mark Davis
O jovem Fábio Júnior adotou o pseudônimo de Mark Davis, e sob essa identidade, ele compunha e cantava em inglês fluente. Estourou nacionalmente com a música “Don’t Let Me Cry” em 1974, que entrou na trilha sonora da novela A Barba Azul, da TV Tupi. Ele também chegou a usar o codinome Uncle Jack.
Chrystian & Don Elliot
Muito antes de formarem a dupla sertaneja Chrystian & Ralf, os irmãos goianos cantavam em inglês.
Chrystian (José Pereira da Silva Neto) gravou a balada romântica “Don’t Say Goodbye” em 1973. A música virou tema do casal principal da novela Cavalo de Aço e vendeu milhões de cópias. O sucesso foi tanto que ele precisava se apresentar na TV fingindo que não falava português para manter o mistério.
Ralf (Ralf Richardson Pinto), seu irmão, também entrou na onda e adotou o nome de Don Elliot, chegando a fazer vocais de apoio e gravar covers de Michael Jackson e Johnny Mathis. Ele também gravou vocais de apoio para outros músicos sob os pseudônimos Ralff e Little Robinson.
Tony Stevens
Jessé (Jessé Florentino Santos), dono de uma das vozes mais potentes da MPB, famoso pelo hit “Porto Solidão” nos anos 1980, iniciou sua trajetória no mundo musical disfarçado de estrangeiro. Como Tony Stevens, ele colocou músicas como “If You Could Remember” e “Flying High” nas paradas de sucesso nos anos 70.
A música acima foi composta pelos brasileiros Caion Gadia, Felipe Neto e Marco Antônio Galvão, sob os pseudônimos de Hamilton, Mark Lee e Williams. A melodia, belíssima, não é inteiramente original: ela foi totalmente baseada na peça erudita "Arioso", da Cantata nº 156, do compositor alemão Johann Sebastian Bach.
E mais curioso ainda: a canção teve uma versão em português, feita por Flávio Venturini, do Clube do Esquina, que ganhou o nome de “Céu de Santo Amaro”, que homenageou Caetano Veloso. Ambos gravaram esta versão no álbum Porque Não Tínhamos Bicicleta, de 2003.
Morris Albert
Maurício Alberto Kaisermann foi o mais bem-sucedido de todos os “falsos gringos” e alcançou o que nenhum outro conseguiu: sucesso mundial real. Ele compôs e gravou “Feelings” em 1974, para a trilha internacional da telenovela “Corrida do Ouro”, da Globo.
A música alcançou 160 milhões de cópias vendidas e se tornou um clássico global, entrando no Top 10 da Billboard nos EUA, além de alcançar o 4º lugar nas paradas britânicas. Foi regravada por lendas como Nina Simone, Frank Sinatra, Ella Fitzgerald e Barbara Streisand e muitos outros.
O francês Loulou Gasté, compositor de “Pour Toi”, gravada em 1956 pela cantora Line Renaud, sua esposa, declarou em 1987, em processo judicial, que a música do “falso gringo” Albert era um plágio. Embora a música do francês não tenha sido um sucesso, e as canções tenham apenas uma leve semelhança, os especialistas convenceram o tribunal que a melodia do brasileiro tinha sido mais do que simplesmente “inspirada” pela francesa: para infelicidade do brasileiro, ambos tinham contrato sob a mesma gravadora, a Fermata. Alegou que o brasileiro podia ter tido acesso às partituras da canção de Gasté.
E ganhou a causa: Albert foi condenado a pagar uma indenização de US$ 500 mil (uma fortuna na época), obrigado a colocar o nome do francês nos créditos de “Feelings” como coautor, e até hoje 88% dos direitos (segundo o tribunal que julgou o processo, a porcentagem de plágio cometida por Albert) vão para os herdeiros de Gasté.
Morris Albert hoje vive na Itália, e jura de pés juntos que não plagiou a música do francês; o tribunal chegou a declarar, em sua sentença, que possivelmente tenha sido um plágio inconsciente - como o que ex-beatle George Harrison cometeu, ao compor e gravar “My Sweet Lord” (1970), um “plágio” de “He’s so fine” (1963), do grupo vocal feminino The Cliffons.
Conheça mais “Falsos Gringos” na parte 2 deste artigo: clique aqui para ler!




