Sim, também houve
“falsas gringas”
A presença feminina no “movimento” aconteceu de forma invisível. Os produtores musicais criavam bandas fictícias para lançar LPs e precisavam de vocais femininos refinados. Várias cantoras brasileiras de altíssimo nível (que depois fariam carreiras na MPB ou como dubladoras) ganhavam a vida gravando essas faixas em inglês anonimamente.
Antes de se consagrar como uma das vozes mais sofisticadas da MPB e do jazz brasileiro, Jane Duboc morou nos Estados Unidos e voltou com um inglês perfeito. Nos anos 1970, ela gravou anonimamente para grupos de estúdio voltados ao mercado de “falsos gringos”, com participações em discos produzidos por grandes gravadoras que precisavam de vocais limpos e sem sotaque.
A curiosidade é que o grupo Fein, banda formada por Jane, seu marido Jay Vaquer (norte-americano verdadeiro) e outros, chamou a atenção de um produtor musical da gravadora CBS, chamado Raul Seixas. Ele contratou o grupo para gravar um compacto, e a banda produziu uma música, “Pollution”, que tinha uma letra que acabou sendo censurada pelo governo militar. Jane substituiu a letra por um scat singing (vocalização de sílabas sem sentido, muito comum no jazz) e a gravação foi aprovada para comercialização. Anos depois, o guitarrista Jay Vaquer, marido de Jane Duboc, trabalhou na banda de apoio de Raul, e o músico acabou se casando com a irmã de Vaquer, Gloria Vaquer.
Sarah Regina, a mesma cantora que mais tarde estouraria nas pistas de dança com “Amor Bandido” (1979) e cantaria as aberturas das novelas mexicanas do SBT começou gravando compactos românticos em inglês pela gravadora RCA, usando o pseudônimo de Sarah. Ela transitava perfeitamente entre os estúdios paulistas colocando voz em jingles, baladas em inglês e, posteriormente, tornando-se uma das vozes mais prolíficas do mercado de dublagem e canto infantil nos anos 1980 e 1990.
A cantora Maria Aparecida de Souza (Cidinha) integrava duas dessas bandas “fantasmas”: The Popcorn, criada para lançar baladas pop, e The Lovelets.
The Popcorn fez um sucesso estrondoso com o compacto contendo a música “Hot Potatoes”, em 1972.
O sucesso estrondoso do hit francês “Je t’aime moi non plus”, levou os produtores musicais brasileiros a criar uma “versão nacional genérica” para faturar no mercado local. Trancadas nas cabines de gravação, cantoras respeitadas do circuito, uma delas a própria Cidinha, tinham que simular respirações ofegantes, sussurros sensuais e gemidos românticos em inglês e francês por cima das bases musicais. Eram músicas assim que o grupo The Lovelets gravava.
O projeto deu tão certo que os discos do grupo vendiam milhares de cópias no Brasil para casais que acreditavam estar ouvindo uma produção erótica importada da Europa ou dos Estados Unidos. Era, na verdade, uma demonstração eloquente do jogo de cintura dos músicos brasileiros de estúdio.
Cidinha fez parte, posteriormente, do girl group Harmony Cats, nas décadas de 1970 e 80.
As bandas de estúdio The Lovelets e The Popcorn faziam parte do elenco da gravadora Top Tape, pequena empresa que faliu. O catálogo musical de pequenas gravadoras como essa estão numa espécie de “limbo jurídico”, e por isso, não se encontram versões digitais no Spotify e Youtube dessas músicas. Uma pena.
Grandes cantoras que faziam vocais de apoio para as estrelas da MPB, como integrantes do Trio Esperança (Evinha, Regina e Marizinha) ou do grupo As Frenéticas (Dhu Moraes, Edyr Duque, Leiloca Neves, Lidoka Martuscelli, Regina Chaves e Sandra Pêra), antes da fama, frequentemente faziam “bicos” remunerados em estúdios da Odeon, Som Livre e RCA.
Elas preenchiam as harmonias e faziam os coros românticos de fundo para os maiores sucessos de Michael Sullivan, Morris Albert e Terry Winter, sem nunca receber créditos nas capas dos discos.
E antes tarde do que nunca: Gretchen foi lançada na esteira do “movimento” dos “falsos gringos”, embora em nenhum momento tenha escondido que era brasileira. Mas todos os seus sucessos tinham uma mistura de francês e inglês nas letras (se é que podemos chamá-las assim).
O fim da era dos “falsos gringos”
(Final dos anos 1970)
A farsa dos artistas e bandas brasileiras que se passavam por estrangeiros começou a desmoronar por volta de 1977.
O mercado fonográfico internacional começou a olhar mais para o Brasil. Ficou mais fácil e barato trazer os artistas estrangeiros de verdade para fazer turnês no país. Quando astros internacionais reais começaram a aparecer na TV brasileira e fazer shows em estádios, ficou nítido o contraste técnico e de sotaque com os “falsos gringos”.
E também a Era Disco “explodiu”. O mercado de trilhas sonoras de novelas e pistas de dança mudou drasticamente com a chegada da Disco Music (impulsionada pelo filme Os Embalos de Sábado à Noite, de 1977). As gravadoras nacionais não conseguiam replicar em estúdios caseiros as superproduções de pistas de dança de grupos como Bee Gees e Donna Summer. A preferência voltou a ser pelas gravações originais importadas.
Lady Zu surfou na onda da Disco Music, mas cantando em português.
O que veio depois
O Pholhas tentou mudar o repertório para o português no final dos anos 70, mas o público rejeitou. Eles viraram uma banda clássica de nostalgia, tocando seus hits em inglês para o resto da carreira.
O Light Reflections se dissolveu. Seus integrantes seguiram caminhos distintos, alguns nos bastidores da publicidade e da produção musical.
Para os cantores solo, o fim da era foi a oportunidade de assumirem suas verdadeiras identidades. Fábio Júnior abandonou o terno de Mark Davis e estourou em português; Jessé largou o pseudônimo Tony Stevens e virou um gigante dos festivais de MPB; e a dupla Chrystian & Ralf abraçou o sertanejo moderno, tornando-se uma das maiores do país.


