Falta de doadores dificulta transplantes de rim e tratamento da Doença Renal Crônica (DRC)
Apesar de recorde histórico de transplantes, ainda há escassez de órgãos para transplante

A Doença Renal Crônica (DRC) é um grave problema de saúde pública, que exige transplante do rim em pacientes na fase final da doença. A enfermidade atinge cerca de uma a cada dez pessoas no mundo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS).
A diálise e o transplante renal estão entre as principais opções de tratamento. Porém, no Brasil, o longo tempo de espera, o baixo número de pessoas inscritas na fila de doadores e sobretudo a escassez de doadores de órgãos prejudicam, e muitas vezes impossibilita, o transplante do rim para milhares de pacientes. Mesmo com essas dificuldades, o SUS bateu recorde de transplantes de órgãos em 2024.
Segundo o Ministério da Saúde, o SUS registrou mais de 6 mil transplantes de rim em 2024 (dados mais recentes disponíveis). Uma boa notícia, embora estes números ainda estejam longe de atender à demanda, pois cerca de 38 mil pessoas aguardam na fila por um transplante renal no Brasil (dados da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos – ABTO). Apenas entre janeiro e junho de 2025, 1.303 pacientes morreram enquanto esperavam pelo órgão.
Para o professor e urologista do Departamento de Cirurgia e Anatomia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, Carlos Augusto Fernandes Molina, esse cenário mostra de maneira dramática a crise de escassez de órgãos disponíveis para transplante. Ele destaca que a baixa taxa de doação está diretamente relacionada à recusa familiar no momento da perda. Pela legislação brasileira, a retirada de órgãos só ocorre com autorização dos familiares do doador, com morte encefálica confirmada.
“É muito importante esclarecer a população que as pessoas que desejarem ser doadoras de órgãos manifestem essa vontade aos familiares. O familiar, conhecendo esse desejo prévio, fica mais confortável para tomar essa decisão em um momento de luto, que é extremamente difícil”, explica.
A manifestação prévia do desejo de doar órgãos facilita a abordagem das equipes responsáveis pela captação e contribui para o aumento das doações, essenciais para ampliar o número de transplantes renais e de outros órgãos.
Baixo número de pacientes em diálise na fila
Molina informa que apenas cerca de 20% dos pacientes em diálise estão inscritos na lista de espera para o transplante renal. De acordo com o urologista, a falta de conscientização e o medo em relação ao procedimento ainda afastam muitos pacientes dessa possibilidade.
“Muitos têm insegurança, acham que permanecer em diálise oferece a mesma sobrevida que o transplante, o que não é verdade. Quem é transplantado acaba tendo uma taxa de sobrevida superior”, afirma. Por outro lado, há pacientes que desejam o transplante, mas não atendem aos critérios clínicos e cirúrgicos necessários para serem incluídos na lista.
A necessidade de combinar prevenção, informação e solidariedade é essencial, diz Molina. “É fundamental conscientizar a população sobre a importância de se cuidar, para evitar que um dia [a pessoa] se torne um paciente renal crônico. E, ao mesmo tempo, estimular a doação de órgãos, porque sem o doador não há transplante, mesmo com toda a estrutura pronta”, conclui.
Características da DRC
A Doença Renal Crônica apresenta perda progressiva da função dos rins e, em muitos casos, evolui de forma silenciosa. Os sintomas costumam aparecer apenas em estágios avançados, o que dificulta o diagnóstico precoce e compromete o tratamento.
Entre as principais causas da DRC em adultos estão a hipertensão arterial e o diabetes, condições que apresentam alta prevalência na população brasileira. A forma mais grave da doença é o estágio 5, quando o paciente passa a necessitar da chamada terapia renal substitutiva – o transplante.
Diálise e transplante: diferenças no tratamento
Nos casos mais avançados da doença, as opções de tratamento são a diálise e o transplante renal. Nenhuma delas represente a cura definitiva da DRC, mas o transplante é a alternativa que oferece melhores resultados a longo prazo. Molina explica que o transplante funciona como uma forma de substituir um rim que perdeu sua função, assim como a diálise, mas com ganhos significativos para o paciente. Ainda assim, o rim transplantado tem tempo limitado de funcionamento, podendo exigir, futuramente, o retorno à diálise ou a realização de um novo transplante.
O Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, em parceria com a Liga de Cirurgia e Transplantes da FMRP, produziu recentemente vídeos educativos voltados a pacientes com Doença Renal Crônica em estágio avançado. O material busca esclarecer como funciona o transplante renal e como é a vida após o procedimento.



