O colunista do Estadão, Rodrigo da Silva, escreveu um artigo muito interessante na edição do jornal de hoje (6), com o título “Como a militância política atrapalha uma vitória de Lula”.
Ele capta um Lula que comanda a esquerda que nunca elegeu um presidente de esquerda no país, porque Lula está muito distante do que os ideólogos e os militantes do PT pensam sobre esquerda.
Além de que, Lula tem mais voto no Nordeste e adjacências, regiões extremamente conservadoras, que nunca foram centros do trabalhismo, do sindicalismo ou do progressismo. “Na verdade, por muito tempo, foram regiões marcadas pelo coronelismo, o voto de cabresto, o trabalho escravo e o domínio dos clãs familiares”.
Segundo o colunista, Lula vence na região não pelo que ele pensa, mas pelo que ele representa. “Um líder carismático, meio messiânico, nascido dessa terra, que fala como os locais e que se assemelha a eles. A ideologia do PT é insignificante neste contexto”.
Enquanto isso, no Sudeste, onde se encontra a estrutura para o desenvolvimento de ideias de esquerda, Lula tem dificuldades para avançar e predominam candidatos com ideias conservadoras de fato. Como se Lula estivesse sendo ofuscado pela sua militância, o que prejudica a captação e sua real imagem.
Ou seja, há uma distância muito grande entre Lula e o que se deseja de um Lula de esquerda, visto que seus governos foram todos conservadores e assistencialistas, de aliança com o que há de mais conservador no país.
Considero as observações razoáveis. Mas há um fator nessa composição que é a desonestidade lulista para brincar com esta confusão, tirando proveito dela. Talvez Lula seja mesmo esta mescla de elementos, que não o torna um político transparente em seus propósitos e, por isso, difícil de ser decifrado.
Por outro lado, Lula revela uma intelectualidade de esquerda, instalada nos centros universitários, que o confunde com um líder de esquerda. Uma intelectualidade que ainda não alcançou o entendimento adequado do que seja um líder de esquerda para o Brasil. Vivemos a ‘mística da esquerda’, que está agora chegando ao seu estertor. Até que nasça de fato um líder de esquerda.
Não creio que a escolha por Flávio Bolsonaro, se for este o desejo do eleitorado, seja uma escolha por um nome que possa trazer luz ao processo político nacional, mas sim, por um candidato que chegou na disputa para ser um contraponto ao lulismo canastrão. É também uma imagem conturbada.
O que Bolsonaro será, de fato, só o tempo dirá. No Brasil, elege-se ainda mais por esgotamento de ânimos do que por consciência e segurança, o que exige estar sempre alerta em relação ao passo dado e seus eventuais equívocos. É o preço que se paga por uma política surreal, bagunçada, perturbada. Não dá para relaxar com essa gente.
É fato também que, com uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro, a militância petista perde o controle de suas fantasias sobre a esquerda e começa agora a fantasiar os conservadores que tendem a assumir o poder. Há mais despreparo nas análises políticas do que supõe a vã filosofia




