Indicações: Histórias de fantasmas e a Internet Morta
Mais livros com histórias assombrosas... e assombradas
MARCELO
Horácio diz que é simples fantasia,
e que ele não aceita a nossa crença
Dessa visão que duas vezes vimos.
Por isso convidei-o para hoje
Vir conosco guardar alguns minutos;
Pois se de novo vier esse fantasma,
Ele confirmará os nossos olhos,
e poderá falar-lhe.
Hamlet, ato I, cena I. Tradução de Bárbara Heliodora.

Pensando sobre a Teoria da Internet Morta, duas histórias vieram ao meu espírito: o romance de ficção científica Count Zero, de William Gibson; e a peça teatral Hamlet, de William Shakespeare.
Duas histórias de fantasmas.
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Fantasmas são criaturas do além que nos atormentam, assustam ou fazem mal. E que também nos ajudam, mas sempre marcando um preço, sempre.
Há centenas de exemplos na literatura, incluindo as que construíram os clichês para o subgênero “histórias de fantasmas”, dentro da literatura de terror, como “O Castelo de Otranto”, de Hugh Walpole até “ A Assombração da Casa da Colina”, de Shirley Jackson.
E as grandes, como “Queda da Casa de Usher”, de Edgar Allan Poe, “Conto de Natal”, de Charles Dickens, “A Outra Volta do Parafuso”, de Henry James e o “Fantasma de Canterville”, de Oscar Wilde.
E é claro, aquelas que deram origem à série, escritas por William Shakespeare. Talvez o seu fantasma mais famoso seja o do rei Hamlet, pai do príncipe com mesmo nome, protagonista da peça. O fantasma de Banquo, que assombra Macbeth, é outro exemplo eloquente. Em Shakespeare, há outras almas penadas nas peças Júlio César, Ricardo III e Henrique VI.
E na literatura brasileira? Talvez por nossa realidade ser em si mesma um absurdo, algo de outro mundo, há pouquíssimos fantasmas na tradição literária brasileira. Brás Cubas, de Machado de Assis, nem chega a ser um deles, pois é um morto que escreve do além, e não há aparição de seu espectro para quem quer que seja. A única personagem brasileira, com personalidade e “lugar de fala” de fantasma é Madame Clessi, em “Vestido de Noiva”, de Nélson Rodrigues. Outros da nossa tradição são anônimos, espíritos que atormentam, mas funcionam mais como figuras poéticas em Alphonsus de Guimaraens ou Cruz e Sousa, do que representações de uma alma – viva ou morta.
(Zumbis e mortos-vivos não valem, não são figuras etéreas; é por isso que não falei de “Incidente em Antares”, de Érico Veríssimo, nem dos mortos criados por Murilo Rubião, que continuam no mundo, se movendo por aí como se nada tivesse acontecido.)
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Vocês devem ter ouvido sobre a teoria da “internet morta”, que profetiza: a internet será uma terra onde os humanos não mais interagem, mas tão somente reagem. Não criariam nada de novo, pois tudo seria gerado por inteligências artificiais.
E até mesmo as interações em redes sociais, como curtidas e compartilhamentos, e mesmo comentários, seriam feitos por robôs, – os tais “bots”, que agem automaticamente, a partir de comandos dados por um programador humano, claro.
No caso dos conteúdos, como vídeos, ebooks e músicas, tais conteúdos seriam replicações, cópias, recombinações de tudo o que existe, e que um dia foi criado por humanos. Como um fantasma é uma sombra de um ser humano vivo e completo, as criações ultracustomizadas da IA seriam fantasmagorias, imitações sem criatividade da atividade humana.
Alguém já ouviu falar disso? Já estamos navegando numa internet semimorta?
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Count Zero foi publicado em 1986. É o segundo romance da trilogia do Sprawl, continuação da história contada em Neuromancer, que utilizou os conceitos de Matrix e ciberespaço criados por Gibson no conto Burning Chrome, de 1982.
No final de Neuromancer, a Inteligência Artificial, que adquiriu consciência, revela-se ao protagonista Case e anuncia que abandonará a humanidade, pois os seres humanos não lhe interessam. Como o demiurgo das cosmogonias gnósticas.
Em Count Zero, sabemos que a Inteligência Artificial deixou pedaços de si nesse processo de abandono do ciberespaço, e que estes pedaços formaram personalidades, que se apresentam aos humanos como deuses vodu. E se relacionam principalmente com feiticeiros haitianos que entendem esta linguagem religiosa. Assim, Papa Legba, Ougan Feray e Maman Brigitte fazem barganhas com estes feiticeiros, os ajudam ou os atrapalham, tudo conforme um plano.
São presenças fantasmagóricas, espíritos/deuses do vodu corporificados em programas digitais que se comunicariam pela matrix, na realidade descrita por Gibson. Um ambiente virtual mais ou menos equivalente à nossa internet (sim, as Irmãs Wachowski chupinharam o conceito dos livros de Gibson para compor a franquia Matrix).
O que você prefere, robôs sem alma que nos vendem badulaques da Amazon a partir das nossas perguntas ao ChatGPT, ou Grandes Modelos de Linguagem (LLM’s) que fingem ser o Exu ou a Pombagira, que usam nossos vícios amáveis como instrumentos para nos torturar?
Fazer uma oferenda para o seu orixá da Shoppee é algo um tanto esquisito, mas daqui a alguns anos pode ser algo mais real do que, digamos, o saldo do seu cartão de crédito.
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Count Zero é mais atual hoje do que na década de 1980, pois transforma em fábula o nosso medo de uma tecnologia que cria seres como nós, à nossa imagem e semelhança. Robôs parecidos conosco, no aspecto físico ou mental. Como nossos filhos, fogem ao nosso controle.
Uma fábula que adapta o “complexo de Frankenstein” para o mundo incorpóreo da internet, e que de quebra ainda transforma nossas criaturas em deuses vingativos e caprichosos. Leiam as discussões na internet sobre o medo que as pessoas têm de que as IA’s dominem a humanidade, e entenderão a atualidade de Count Zero.
Como dominariam a humanidade? Escravizados por alguém, uma IA-chefe de todos as outras? Ou talvez IA’s conectadas a robôs físicos, que imporiam seu domínio pela força? Ou seriam manipulados por programadores? Ou as IA’s dominariam os programadores? Qual seria o objetivo das IA’s? Roubar energia dos humanos, como na trilogia Matrix? Eliminá-los totalmente da Terra, como em O Exterminador do Futuro? Escravizá-los? Ou como na trilogia de William Gibson, partir para longe, para um lugar mais interessante, longe da tediosa Humanidade?
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Pessoalmente, não acredito que um dia as máquinas vão adquirir consciência. Muito menos que serão malignas e que escravizarão a humanidade.
Acredito bem mais na premissa do Fantasma do pai em Hamlet, dominando a humanidade e a internet, a partir da cobrança dos mortos sobre os vivos, sobre sua herança, sobre assuntos não resolvidos.

Fantasmas são espíritos que nos assombram. Espíritos todo mudo sabe o que são. O que seria “assombrar”?
Uma pessoa “assombrada”, no sentido literal ou no figurado, é alguém que se assusta com algo sobrenatural, que está fora da ordem da natureza. E assustar-se é sinal de que se sente ameaçada.
“Assombrar-se”, no sentido positivo, tem tudo a ver com o período em que as histórias de fantasmas começaram a se popularizar na Europa: sentir um susto ao mesmo tempo em que se encanta é uma definição de sublime, conceito definido por Edmund Burke. O mesmo que explicou o que é conservadorismo, que não é, nem de longe, votar no Bolsonaro ou agir de acord com princípios morais evangélicos.
O susto e a ameaça são reais se o assustado acreditar que a pessoa com a qual interage está morta. Que uma lei da natureza, “mortos não voltam à vida”, foi quebrada, e que isso é ameaçador. Outros aspectos sobrenaturais, como um corpo etéreo, que pode ser atravessado ou que atravessa paredes, são secundários, mas ajudam a compor a atmosfera.
Shakespeare estabeleceu o padrão de todas as histórias de fantasmas do Ocidente, ao criar o Fantasma do pai de Hamlet. Dizem que a história do príncipe da Dinamarca inspirou a criação do romance gótico, do século XVIII e XIX, pai da literatura de terror moderna. Hamlet também é o terreno fértil de onde nasceram todas as histórias modernas onde há fantasmas.
E ainda suscitou meditações a Sigmund Freud sobre a figura do pai, meditações equivocadas segundo Harold Bloom, mas que o crítico americano reconheceu serem sublimes.
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Na história de Hamlet, o Fantasma do pai morto cobra vingança do filho, e o filho se sente cobrado. Sua presença exige uma ação, uma resposta. A operação de voltar do mundo dos mortos, ao menos como uma imagem vista pelos vivos, não deve ser fácil. Mortos não deviam vagar por aí, e não vagam. Quando os vemos, devemos pensar o quanto deu trabalho para aquela alma sair do mundo dos mortos, para tanto o motivo deve ser sempre importantíssimo. Literalmente, o espírito dispendeu um esforço sobrenatural para ser visto como fantasma.
Nada será normal ou corriqueiro quando se recebe a visita de uma pessoa que já morreu.
Mesmo na condição metafórica, os mortos, quando aparecem, dão-nos sinais, nos ensinam e os mais generosos dentre eles nos divertem, sem deixar de nos dar lições ou alertas. É por isso que ainda cultuamos os espíritos de nossos ancestrais, não só na religião, mas em nossa arte, cultura, ciência e filosofia.
E os melhores nos assombram, para o bem ou para o mal.
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Toda a ação da peça de Shakespeare é impulsionada pelo Fantasma, toda mudança de um status quo que parecia perfeito: o irmão matou o Rei e casou-se com a Rainha, o príncipe Hamlet de nada soube pois estava estudando no exterior. Volta alegre, mas depois da conversa com o espectro do pai, muda a ponto de duvidar da própria sanidade, quando o fantasma aparece-lhe pela segunda vez. A missão imposta pesa-lhe demais, mas dela não abre mão e a cumpre a um custo tal que, no último ato, o palco está lotado de cadáveres, incluindo o do próprio príncipe.
O que esse resumo, muito pobre, admito, da peça A Tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca, de William Shakespeare, nos diz sobre a internet morta, os bots e IA’s ?
Talvez nada; talvez devêssemos estar mais preocupados em conversar sobre Hamlet do que em igualdade de direitos de representação em filmes e livros, histórias pífias e desimportantes, que não alcançam nem o rodapé de imensas torres literárias como a peça shakespeariana; do que nos preocuparmos se um dia a IA irá adquirir autoconsciência e de nos fazer escravos.
Estamos valorizando para além da conta uma ferramenta que está automatizando mais uma mídia que tem como objetivo principal ser um shopping gigantesco, lotado de lojas: primeiro foi o rádio, depois a TV, agora é a internet e suas IAs.
Acho que estamos loucos, não como Hamlet, pois sua maluquice tem qualidade literária transcendental. Mas estamos tão viciados na linguagem da publicidade, que acreditamos na autovalorização que a “indústria de IAs” faz de si mesma, através do medo. Sim, ela se valoriza ao colocar medo nas pessoas, um medo que fascina, pois ao fim acaba apelando para o estereótipo do “Gigante Gentil”, aquele que parece ameaçador mas na verdade utiliza sua força para fazer o Bem.
Feitos todos os cálculos, como num imenso jogo de xadrez, não devemos temer os peões, e sim, quem os move. A Inteligência Artificial não tem consciência e nunca terá, embora até seja possível se iludir com sua aparência senciente.
O Fantasma do pai de Hamlet impõe-lhe uma missão. A vida do príncipe torna-se o cumprimento de uma missão que não escolheu. Uma missão imposta pelos mortos, que não escolhemos, e que se torna nossa vida.
Talvez esteja aí a ligação possível entre o fantasma do Rei morto e os fantasmas da internet morta: enquanto o destino do jovem príncipe esteja determinado por forças sobrenaturais que estão além de seu controle, a internet morta tem um tipo de fantasmagoria que pode até fugir do nosso controle, mas que não tem nada de transcendente: a vontade daqueles que a programam, com o objetivo de nos fazer desejar o que não queremos, de comprar o que não precisamos, de consumir aquilo que nos é inútil e nos confunde.
Enquanto o Rei Morto nos induz a meditar sobre o que está além do nosso controle e o sentido da vida, a Internet Morta somente nos empanturra com o que já gostamos, proporcionando uma satisfação imediata, contínua e repetida infinitamente, até a exaustão, e gerando, sem que as pessoas se deem conta, de um tipo de loucura muito diferente da do príncipe dinamarquês, mas dramática pois gera distúrbios, suicídios, desajustes e crimes. O drama da nossa época de muitos fantasmas, mas pouca ou nenhuma alma.



