Achados arqueológicos em antiga senzala no interior de São Paulo ajudam a reconstruir história enterrada
Artefatos encontrados na Fazenda do Pinhal, em São Carlos, dão indícios das formas de ocupação da senzala

Restos de fogueiras, cachimbos e contas de colar foram alguns dos objetos encontrados por uma equipe de arqueólogos no piso original da antiga senzala da Fazenda do Pinhal, em São Carlos, no interior de São Paulo. Enterrados a cerca de 50 centímetros de profundidade, os artefatos dão indícios que ajudam a reconstruir e imaginar as formas de ocupação da senzala pelas pessoas escravizadas que por lá passaram, bem como as tentativas de apagamento dessa história no pós-abolição.
Edificada ao longo de décadas na primeira metade do século 19, a antiga senzala passou por sucessivas reformas, intervenções e mudanças de uso que a descaracterizaram desde então. As escavações, realizadas entre 2022 e 2025, fazem parte de um processo que visa reinscrever o trabalho e o trabalhador na paisagem da propriedade rural. O levantamento arqueológico foi realizado no âmbito do Plano Diretor de Gestão Patrimonial (PDGP) da Fazenda do Pinhal, elaborado por Paulo César Marins, docente e atual diretor do Museu Paulista da USP.
Tombada em âmbito estadual em 1981 e pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1987, a Fazenda do Pinhal remonta aos anos 1830, no contexto da expansão cafeeira e da escravidão no interior paulista. Sob comando de Antônio Carlos de Arruda Botelho, futuro Conde do Pinhal, e de sua segunda esposa, Ana Carolina, futura condessa, a propriedade foi uma unidade cafeeira de destaque na época.
O sobrenome dos antigos proprietários nunca foi esquecido. Agora, os achados arqueológicos também ajudam a recuperar parte da memória das famílias negras que viveram na fazenda.
“Eu sou são-carlense. Por muitos anos contava-se a história da família Arruda Botelho. Na cidade, a gente cresce ouvindo sobre o Conde do Pinhal, o Antônio Carlos, antigo proprietário da fazenda. E quase nunca sobre os trabalhadores, os escravizados e as famílias negras que também construíram a cidade e especificamente aquela propriedade”, ressalta Joana D’Arc de Oliveira, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU) da USP.

Autora do livro Da senzala para onde? Negros e negras no pós-abolição em São Carlos-SP (1880/1910), Joana D’Arc é uma das autoras do artigo que apresenta os resultados das escavações. A docente também coordena o projeto que investiga a presença negra na Fazenda do Pinhal no pós-abolição.
“Naquele edifício moraram as famílias Zacarias e Silva, que estão na propriedade há mais de três gerações. Foram eles os responsáveis pela manutenção da fazenda durante um período de declínio, às vezes sem receber salário. Muitos deles não sabiam que aquele lugar tinha sido uma antiga senzala, eles descobriram isso ao longo do projeto”, afirma a pesquisadora.
Os artefatos encontrados na antiga senzala, além de formarem um rico conjunto de cultura material, revelam, por outro lado, a manutenção das formas de repressão e apagamento da população negra no pós-abolição. Segundo Joana D’Arc, “quando olhamos para as arquiteturas negras, principalmente do período escravista, muitas delas foram destruídas sob o discurso de ‘vamos destruir esses símbolos de violência’. Mas também porque esse tipo de edificação e cultura material não faz parte do repertório que os órgãos de preservação elegeram como representativos do patrimônio edificado nacional”.
Uma história enterrada a 50 centímetros da superfície
As primeiras escavações realizadas nas instalações da antiga senzala revelaram as diferentes camadas de ocupação do prédio. Entre eles, o piso de terra batida original. Acima dele, nos dois níveis mais recentes, foram identificados pisos de cimento queimado e de lajota, vinculados às ocupações recentes da família Silva e de imigrantes europeus.
A identificação de um piso original em escavações arqueológicas é incomum. Segundo Renato Kipnis, arqueólogo-chefe da escavação e diretor da Scientia Consultoria Científica, “na maioria dos sítios você não encontra esse piso. Isso acontece porque tem muita movimentação, vegetação, animais e os sedimentos acabam se misturando e dificilmente há um piso ‘original’. O que não acontece neste caso, pois ele sempre esteve protegido, apesar das ocupações”. Esse foi um dos motivos pelos quais se optou pela remoção dos pisos mais recentes da senzala.
Nesses níveis, foram encontrados uma moeda de 400 réis, datada de 1926, bicos de pena, ampolas de vidro e fragmentos de louça do início do século 20. Enquanto isso, no piso de terra batida foram encontradas duas moedas datadas de 1827 e cerca de nove estruturas de combustão, frequentemente associadas a sedimentos queimados, carvão, cinzas, ossos de animais e sementes carbonizadas. Essas estruturas de combustão são vestígios de fogueiras.
Em contextos de senzalas, mais do que evidências de atividades domésticas, as fogueiras também eram importantes espaços de sociabilidade. Para além do preparo de alimentos, aquecimento e iluminação, era ao redor delas que aconteciam os encontros, a contação de histórias, a transmissão dos saberes e a realização de rituais, práticas mantidas pelas famílias negras que viveram no edifício posteriormente.

“A Jorgina Silva [uma das ex-moradoras do edifício da antiga senzala que acompanhou as escavações] contou que o pai dela, comumente, fazia fogueiras quando estava muito frio dentro de casa, para aquecer os filhos. E ali no entorno, eles contavam histórias e tinham uma série de conversas. Ao descobrir que a população escravizada tinha essa prática da fogueira dentro da antiga senzala, não só para alimentação, ela não conseguiu conter a emoção”, conta Joana D’Arc.
“O que nos faz ver a senzala para além de um dispositivo de poder, mas também como um espaço que foi habitado por essas pessoas. Independentemente das situações de violência a que foram submetidos, eles empregaram os seus saberes. Não só na construção dessa edificação e de todas as outras, como também empregaram e gravaram aquele lugar com seus conhecimentos em torno de temas religiosos, culinária, práticas culturais e da constituição das suas famílias”, completa a docente.
Outros vestígios reforçam a presença de práticas religiosas de origem africana. Isso porque, no nível do piso original, também foram exumados dois cachimbos e duas contas de colares, elementos que representam uma forma de conexão com o ancestral, cuidado e proteção. No contexto escravocrata, embora comum, o uso do cachimbo era reprimido, especialmente entre a população negra.
A associação entre o cachimbo e o escravizado data do século 17 e se tornou mais frequente no século 19. Benedito Silva, um dos membros mais velhos da família Zacarias, lembra que o hábito persistiu na sua família: “Minha mãe mesmo fumou o cachimbo até pouco antes de morrer, fumava e acendia”.
As contas de colares encontradas ampliam a discussão. Associadas às práticas religiosas de origem africana, as contas também eram associadas aos escravizados fugidos. Para o babalorixá Isaías, um dos representantes de terreiro que acompanhou as escavações, as contas encontradas remetem ao culto aos Orixás: “[…] a conta que foi encontrada na cor amarela, que me remete a Oxum, né? E muito antigamente alguém já cultuava a Oxum”.
Com a finalização das escavações, o próximo passo do trabalho é a análise arqueológica, catalogação e interpretação do material encontrado. Mas esse não será o fim da história.
Segundo Kipnis, após o fim das análises, os achados serão levados a algumas casas de Candomblé e Umbanda de São Carlos. A intenção é captar outras interpretações e visões acerca dos artefatos, para que elas sejam incorporadas aos relatórios elaborados pelos arqueólogos. Além disso, outras produções virão, como um filme-documentário, gravado durante as escavações com pesquisadores, representantes de terreiro, ativistas do movimento negro e ex-moradores e ex-funcionários da Fazenda do Pinhal.

A partir do acervo da propriedade, hoje a Fazenda do Pinhal sedia um Centro de Estudos, Pesquisa e Educação (Cepe). O intuito é entender e reinterpretar o passado do local. A fazenda também recebe visitas previamente agendadas, além de oferecer cursos e oficinas.
“Os resultados da escavação vão continuar aparecendo. Iremos realizar conversas com os visitantes sobre o material que foi extraído das escavações e trazer mais pesquisadores de outros lugares, como já trouxemos”, afirma Lucília Siqueira, docente da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e coordenadora da implementação do PDGP e do Cepe da Fazenda do Pinhal.
Para saber mais sobre a Fazenda do Pinhal, acesse este link.
Matéria: Maykon Almeida | Jornal da USP



