A filosofia da ciência é uma plataforma ampla, um campo complexo do pensar onde convivem dogmáticos, realistas, idealistas, religiosos e pesquisadores aplicados, que estão preocupados mesmo com o mundo das tecnologias.
Não há mal algum nisso, porque essa diversidade alimenta as reflexões sobre o grau de sofisticação dessa plataforma, desse ambiente aberto para a liberdade. Pensar filosoficamente sobre a ciência é um exercício estupendo e aberto.
Há, evidentemente, quem confunda ciência com sua aplicação tecnológica. Neste caso, a filosofia fica corrompida, uma vez que ela é bem mais abrangente que a ciência aplicada, cujo fundamento é resolver problemas objetivos, para facilitar a vida, trazer mais conforto, ampliar a produtividade, combater os males que afligem as pessoas. É prática e funcional.
Para se compreender melhor a filosofia da ciência, temos que nos ater a tudo aquilo deixado de lado quando fazemos um recorte para analisar apenas aquilo que pretendemos. Deixamos de lado porque não temos a dimensão exata da realidade, da amplitude da natureza, como queira.
O filósofo Edgar Morin, que morreu recentemente, sacava sua velha amiga, a teoria da complexidade, para explicar isso que tento observar. Se é complexa, não temos exatamente a noção do que ela representa e de seus impactos.
Mas sabemos de antemão que há mais mistérios entre o céu e a terra do que supõe sua vã filosofia. Shakespeare calha como uma luva. (”There are more things in Heaven and Earth, Horatio, than are dreamt of in your philosophy”).
É evidente que o quebra-cabeça chamado natureza vai aos poucos se abrindo para podermos entendê-la melhor. No entanto, em cada passo para a frente, novas dúvidas surgem e dão margem para novos e novos estudos.
O velho Heráclito já dizia que “A natureza gosta de ocultar-se” (phýsis kryptesthai philei). São Tomás de Aquino, com seu olhar cristão para a vida, dizia que conhecer a natureza era conhecer a Deus. Sendo assim, ele considerava salutares os avanços científicos, uma vez que todo conhecimento novo trazido pelos pesquisadores era um passo a mais em direção ao criador.
Mais ainda. Ele dizia que Deus deixava pegadas, que seriam categoria de pensamento, suponho, para que as chaves da natureza abrissem novas portas para o conhecimento.
Aos poucos vamos avançando nessa discussão, porque o assunto vai longe. Na próxima edição da Revista de Domingo voltarei a este tema. Mas para finalizar, vale recordar também Platão, que não achava possível entender a natureza a partir da observação direta.
Por isso a relação que o pensador da Academia fazia ente natureza e o sol, que não pode ser visto diretamente, sob o risco de queimar os olhos. Ou seja, ele exige um filtro. Ele falava de ver o sol a partir da água de um lago, por exemplo.
Com isso, estamos tendendo para a tese de que o conhecimento da natureza exige uma reflexão madura de tudo aquilo que almejamos saber, como se o conhecimento fosse, antes de tudo, um processo mental. Durma com este barulho.




