O homem deseja a felicidade, mas tem uma queda especial pela desgraça. Vejo nisso a hipocrisia epicurista misturada com tragédia grega.
A felicidade é sempre uma idealização, inatingível, enquanto a desgraça está no Instagram diariamente, carregada de sangue, com acidentes incontornáveis e fatais.
A idealização da felicidade tornou-se também uma aposta, com ganhos rápidos e salvadores. As bets estão aí para provar, mas resultam, de fato, em mais pobreza e sofrimento. É o jardim das aflições. (Desculpe-me, Olavo.)
A tragédia, em seu sentido original, muito relacionada ao teatro grego, era uma forma de catarse. Pela experiência coletiva, em praça pública, o povo sentia o peso da morte e a necessidade da união para seguir vivo e forte.
Hoje, tragédia é tragédia mesmo. Foi banalizada em todos os sentidos e se parece mais com questões pessoais do que coletivas, sintetizada na triste frase “antes ele do que eu”.
A felicidade também não é mais fruto de um trabalho coletivo. O jeitinho brasileiro serve para resolver problemas pessoais. Há quem diga que todos os seres humanos estão abertos à corrupção (com dinheiro que traria a felicidade), basta apenas a oportunidade, contrariando os ensinamentos de Machado de Assis.
O Bruxo do Cosme Velho dizia que ““a ocasião faz o furto; o ladrão nasce feito”. Hoje podemos afirmar que só nos falta a ocasião, porque a moral da bandidagem se coletivizou de tal forma que até a corrupção nacional tornou-se apenas um lugar-comum. Veja os nossos principais candidatos à presidência da República como exemplos.
Se a felicidade se tornou apenas uma questão pessoal e não coletiva; se o crime está em nós, o que podemos entender de Santo Agostinho? Quais ensinamentos nos daria São Tomás de Aquino? É a vitória da narrativa. Kant teria vencido em suas teses de que o mundo é o que desenhamos dele?
O discurso hipócrita teria tomado o lugar da moral, como já apontava Sócrates em relação à sua querida Atenas, dominada por sofistas? Seria como se cada ser humano tivesse duas facetas: uma moralista, para uso público, e uma criminosa, para uso particular.
Leo Strauss diria que essa guinada, que desvirtuou completamente a moral humana, é fruto de séculos de distorções teóricas, que se avolumaram nos tempos considerados modernos a partir de Maquiavel, em que o homem não tem mais nem a responsabilidade pelo que é. Já iniciei essa discussão aqui e pretendo dar continuidade posteriormente.
Mas antes quero ter certeza de que nem tudo está perdido, uma vez que há sim um grande movimento social, tenha ele base religiosa ou não, que acredita na saída pelo comportamento idôneo, pelo trabalho e pela fé, com valores sólidos, desenvolvidos no seio da família.
Não se trata de moralismo, mas sim de compreensão do que é eterno. Seria um contraponto ao historicismo, ao relativismo, ao positivismo que dominam amplamente a cabeça de políticos e de analistas do mundo real. Esses que fazem sucesso na imprensa.
Aos poucos, vamos nos aproximando mais das matrizes que dão base a esse entendimento. Mas, em síntese, há uma onda crescente de pessoas que acreditam na felicidade espiritual e não são epicuristas de se esconder em jardins enquanto o mundo pega fogo. E há também aqueles que entendem de tragédia, e por isso são demasiadamente humanos, sem serem nietzschianos, nem sartreanos, muito menos volúveis e instagramáveis.
O futuro será uma eterna resistência e um confronto entre hipócritas narcisistas e as pessoas decentes, que sabem intuitivamente, ou não, que o mundo não pode ser deixado nas mãos dessa gente, sob o risco de um colapso geral.




