
Causada principalmente pelo tabagismo e pela exposição prolongada a gases e poluentes, a doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) caracteriza-se por uma limitação crônica e progressiva do fluxo aéreo. Quarta principal causa de morte no mundo em 2021, a doença restringe a qualidade de vida dos pacientes conforme avança. Por isso, pesquisadores do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina (FM) da USP vêm estudando o uso da fita elástica adesiva na região do tórax e abdome em complemento aos tratamentos existentes.
Considerando resultados anteriores do grupo que sugerem possíveis impactos da técnica sobre sintomas respiratórios, uma nova pesquisa investigou seus efeitos sobre a mobilidade do diafragma ー o principal músculo da respiração ー e a mecânica toracoabdominal, isto é, a movimentação da caixa torácica e do compartimento abdominal que controla a entrada e saída de ar.
A técnica consiste na aplicação estratégica de fitas elásticas adesivas sobre os músculos reto abdominal, oblíquo interno e músculos intercostais internos, a fim de otimizar a mecânica respiratória. Nos experimentos, os pacientes foram divididos ao acaso em grupos ー com todos recebendo o tratamento, mas em momentos diferentes (modalidade de estudo conhecida como randomizado crossover). A pesquisa avaliou os efeitos agudos da utilização das fitas por um curto período de tempo, durante os exames. De acordo com Estéfane Caroline Monteiro Reis, autora da pesquisa de mestrado, os testes identificaram alterações no padrão ventilatório e na distribuição dos volumes entre os compartimentos torácico e abdominal, além de redução pontual da sensação de falta de ar e da percepção de fadiga em repouso.

O trabalho é um dos desdobramentos de uma linha de pesquisa abordada pelo Laboratório de Investigação em Fisioterapia e Exercício (LIFFE) do HC-FMUSP, coordenado pelo professor Celso Carvalho. Estéfane Reis comenta que o início da análise sobre o uso das fitas como tratamento complementar para a DPOC se deu em resposta à demanda do próprio Hospital das Clínicas. “Há alguns anos, ao observar o número crescente de pacientes com essa doença e a sua maior limitação durante as mínimas tarefas do cotidiano, Thiago Fernandes Pinto, idealizador da técnica nessa população, considerou que as propriedades elásticas das fitas poderiam contribuir de forma complementar ao tratamento”, diz.

Progressão da DPOC
Na DPOC, a inflamação crônica, a obstrução das vias aéreas e, particularmente nos pacientes com enfisema, a redução da capacidade do tecido do pulmão retornar ao tamanho que tinha antes da inspiração (recolhimento elástico) podem dificultar a expiração e favorecer o aprisionamento do ar e a expansão dos pulmões além do seu tamanho normal (hiperinsuflação). A inflamação crônica também pode provocar alterações estruturais e estreitamento das pequenas vias aéreas, aumentando a resistência à passagem do ar e dificultando especialmente a expiração.
Com a hiperinsuflação pulmonar, a caixa torácica pode permanecer mais expandida e as costelas assumirem uma posição mais horizontalizada. “Consequentemente, o diafragma, principal músculo inspiratório, torna-se mais aplainado passando a operar em uma condição mecanicamente desfavorável. Isso pode reduzir sua capacidade de gerar pressão durante a inspiração”, detalha Estéfane Reis.
Juliana de Melo Batista dos Santos, orientadora do estudo, comenta que a progressão desses sintomas faz com que os pacientes desenvolvam intolerância ao exercício. “E não estamos nos referindo apenas ao exercício físico estruturado. Atividades cotidianas que aumentam a demanda metabólica, como caminhar, subir escadas ou realizar tarefas domésticas, também podem se tornar progressivamente mais difíceis devido às limitações ventilatórias e aos demais comprometimentos sistêmicos associados à doença.” Em casos mais graves, a dificuldade com tarefas cotidianas também pode resultar em quadros de ansiedade, depressão e isolamento social.
Desdobramentos
A pesquisa conduzida por Estéfane Reis foi a terceira realizada por membros do LIFFE sobre os efeitos das fitas elásticas adesivas. O primeiro estudo, realizado por Thiago Fernandes Pinto, mostrou que a aplicação das fitas em curto prazo foi associada à redução da sensação de falta de ar e à assincronia toracoabdominal — caracterizada pela falta de coordenação entre o movimento dos compartimentos torácico e abdominal durante a respiração — dos pacientes com DPOC. O segundo estudo, feito por Eloise Arruda dos Santos, analisou a influência do uso contínuo das fitas ao longo de 14 dias e também detectou redução da falta de ar, além de apontar melhorias na qualidade de vida relacionada à saúde dos pacientes.
Agora o terceiro estudo buscou analisar a influência das fitas elásticas adesivas sobre a mecânica toracoabdominal, especialmente a função do diafragma, com o objetivo de investigar os aspectos responsáveis pela melhoria dos sintomas demonstrada nas pesquisas anteriores. Para a realização dos testes, 48 homens não obesos com DPOC entre os graus moderado e muito grave foram triados pelo ambulatório de doenças respiratórias do HC-FMUSP.
A professora Juliana dos Santos explica que a amostra foi restrita a homens não obesos para reduzir possíveis fatores de confusão. A obesidade pode modificar a mecânica respiratória, enquanto, nas mulheres, características anatômicas da região mamária poderiam interferir tanto no posicionamento das fitas quanto em algumas das avaliações realizadas.

Após a triagem, os pacientes selecionados foram avaliados por meio de ultrassom e pletismografia optoeletrônica — avaliação tridimensional do tórax feita por câmeras que medem o volume de ar em cada compartimento. Os voluntários foram divididos aleatoriamente para realizar o primeiro exame com ou sem a fita e retornaram uma semana depois para realizar a segunda avaliação. Estéfane Reis explica que o ultrassom e a pletismografia foram realizados duas vezes, com e sem a fita, tanto em repouso quanto após exercício, para que os resultados de cada paciente pudessem ser comparados entre si.
Foi possível inferir que a aplicação das fitas elásticas adesivas promoveu uma redução pontual das sensações de fadiga e falta de ar durante o repouso e uma redução da mobilidade do diafragma após o esforço com o uso da fita elástica.
Porém, de acordo com Juliana dos Santos, a redução da mobilidade diafragmática observada não deve ser interpretada isoladamente como uma piora da função respiratória dos pacientes. Os resultados indicam que a aplicação das fitas promoveu alterações na mecânica toracoabdominal e no padrão ventilatório, com mudanças na distribuição dos volumes entre os compartimentos do tórax e do abdome. Assim, a menor mobilidade do diafragma após o esforço pode estar relacionada a uma modificação da estratégia ventilatória durante o uso das fitas, mas os mecanismos responsáveis por esse achado ainda precisam ser investigados.
As pesquisadoras projetam que as próximas etapas da pesquisa podem incluir a ampliação do perfil dos participantes, a fim de identificar quais subgrupos de pacientes apresentam maior resposta à técnica. Além disso, como o aumento da mobilidade diafragmática inicialmente esperado não foi observado, a professora Juliana dos Santos destaca que esse mecanismo não parece explicar os efeitos identificados com o uso das fitas. Novos estudos serão necessários para investigar outras hipóteses e compreender quais aspectos da dinâmica toracoabdominal podem estar envolvidos nesses efeitos, contribuindo para avaliar o potencial de aplicação clínica da técnica.
A dissertação Efeito da fita elástica adesiva na mobilidade diafragmática e mecânica toracoabdominal em indivíduos com DPOC moderada a muito grave está disponível no Banco Digital de Teses e Dissertações da USP: https://teses.usp.br/teses/disponiveis/5/5170/tde-20052026-172041/pt-br.html
Matéria: Hellen Indrigo | Jornal da USP.



