Dia desses acordei nostálgico. Enquanto eu preparava meu café, via um menino magricelo que atravessava um pastinho com a rapidez e a leveza do vento. Aquele menino era eu.
Fui ao meu escritório. Um senhor estava sentado na sarjeta chorando. Era o Bertico, que acabava de levar uma garfada em uma das mãos. Ele lamentava o nível de violência a que sua mulher, a dona Abigail, havia chegado. Sua mão sangrava.
Resolvi então esperar no sofá para ver o que estava acontecendo com os meus pensamentos. Percebi que no meu colo havia um menino desmaiado e eu o levava para sua mãe. “Toma. Ele estava muito agressivo. Apanhou na rua e desmaiou. Esta foi a única forma que eu tive de ajudá-lo”.
Era muito estranho esse excesso de flashes de uma só vez, como se toda a minha vida pregressa se revelasse em cápsulas, de forma agressiva para mim. Até que avistei um calango gordo no jardim.
Era um calango maravilhoso, que desafiava a natureza, porque ele se divertia próximo da minha cachorra. Mas, de repente, ouvi minha filha gritando e corri em direção a ela. O calango estava morto aos seus pés e a cachorra se postava soberana, como quem havia vencido uma batalha.
Ao menos minha memória estava recuperando acontecimentos mais recentes, pensei, como se eu voltasse à realidade gradativamente. No entanto, só me dei conta mesmo do momento quando minha esposa entrou na sala muito brava. “O que está acontecendo com você? Vá lá na cozinha e limpe aquele fogão agora!”
Era o leite derramado. Havia me esquecido dele. Pelo menos, era a realidade se impondo definitivamente. “Hoje é meu dia”, pensei comigo. E fui limpar o fogão. No trajeto até à cozinha, percebi que a casa estava silenciosa. Eram quatro horas da manhã e minha mulher dormia.



