Flashes de uma memória que se perdeu no tempo
Ou, momentos de um indiozinho que se enroscou nos próprios sonhos
Hoje, Piracicaba completa 259 anos. Faz tempo que eu a conheço, mas nem tanto assim. A Vila Independência da minha infância era praticamente uma área rural e Luciano Guidotti iniciava o asfalto de todas as ruas, como parte do seu projeto urbanístico.
O que ele trazia de bom, para nós, crianças de rua, era ruim. Recordo como se fosse hoje a lambreta que quase me atropelou, porque o asfalto trouxe velocidade. Recordo também que peguei a bicicleta do meu pai escondido e quase morri virando a Frei Luiz Santana em altíssima velocidade.
Sou do tempo da Vila Sapo, que era uma imensa favela à beira do Ribeirão Piracicamirim. Era o início do caos. Pouco antes dessas imagens degradantes, tenho sim fragmentos de um outro mundo. Meu pai gostava de pescar no ribeirão com peneira para pegar lambaris. Enquanto isso, eu e minha mãe ficávamos descansando sobre um lençol sobre uma areia branca e fininha à margem. Havia mata ciliar, sim senhor, e muitos pássaros a alegrar aquela visão do paraíso.
Vi, portanto, o início da mortandade de peixes no Ribeirão Piracicamirim. Eram tantos peixes asfixiados que eu sentia o peso de um tempo novo que se iniciava, sem eu poder fazer absolutamente nada, mesmo me sentindo o Daniel Boone do meu filme preferido. Quem é daquele tempo sabe o que estou dizendo.
Sim, matei muitos pássaros com o meu estilingue. Eu era caçador. Mas, naqueles tempos, todos os meninos eram caçadores. Depois fazíamos churrasquinho no quintal e comíamos as caças com chá, produzidos em canecas de alumínio no mesmo fogão improvisado.
Já crescidinho, recordo que decidi fazer um estilingue para matar a saudade da infância e atirei uma pedra em um pássaro pequeno que acabava de pousar na laranjeira do quintal da minha casa. Matei o bichinho. Fiquei tão triste que destruí o estilingue naquele mesmo momento e enterrei minha vítima aos pés daquela árvore como um símbolo da minha maturidade.
São microlembranças que falam alto para mim. De vez em quando, penso que aprendi muito acompanhando o ciclo da natureza. O sol da Escola Agrícola (era assim que chamávamos a Esalq) ao amanhecer era uma dádiva divina. Incomparável. Eu descobria os segredos da paisagem daquele parque gigantesco como um selvagem, que se via misturado àquele universo de sonhos.
Mesmo sozinho, eu era um rei, um privilegiado de viver aqueles momentos.
Eu não queria escrever um texto nostálgico, mas fui levado a ele sem controle. Por isso, resolvi preservar esses fragmentos assim. Acredito que cada menino daquele tempo teria um texto diferente, mas com impressões parecidas. Porque nós somos filhos da transição de uma natureza ainda preservada para um mundo que fugiu completamente do nosso controle. Um mundo de asfalto, poluição e velocidade. Sou quase um dinossauro, mas bem mais novo do que a Noiva anciã, que completa hoje seus 259 aninhos.




