Florestas em regeneração reduzem naturalmente o domínio de espécies não nativas
Cobertura verde nativa pode reverter o domínio de espécies arbóreas introduzidas por ação humana, protegendo os ecossistemas e a biodiversidade local

Espécies de árvores não nativas (ENN), ou seja, introduzidas no ambiente principalmente por ação humana, foram alvo de investigação em um trabalho publicado no periódico Nature Plants. O estudo da USP, que contou com dados de dez países, aponta que paisagens com maior cobertura florestal ajudam a limitar o crescimento das espécies não nativas durante a regeneração da vegetação nativa.
Manga, eucalipto, jaca, jambo e até o coqueiro estão entre as espécies não nativas presentes no Brasil, ocorrendo fora da sua área de distribuição natural, e só estão presentes em território brasileiro por intervenção humana. Algumas espécies são classificadas como não nativas (ou exóticas) apenas quando não estão associadas a problemas ecológicos. Mas as espécies ditas invasoras podem causar impactos ambientais – como competir com espécies nativas ou alterar o funcionamento dos ecossistemas –, econômicos e até sociais.
As ENN invasoras são uma das principais causas da perda de biodiversidade global e podem, eventualmente, comprometer a recuperação de florestas nativas após exploração humana, como é o caso dos terrenos agrícolas abandonados. No Brasil, um exemplo é a leucena, que se tornou uma ameaça ambiental e exige programas de controle.
“A leucena foi trazida por ser uma espécie útil para certas finalidades, como forragem e fixação de nitrogênio. Hoje ela se espalha sozinha, ocupando rapidamente o espaço disponível e impedindo que muitas espécies nativas consigam se estabelecer. Por isso, já é muito difícil controlar sua expansão”, explica Angélica Resende, engenheira florestal associada à Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP e líder da pesquisa.
Floresta secundária e o processo de regeneração
Para avaliar o comportamento dessas espécies em florestas secundárias em desenvolvimento, os pesquisadores buscaram entender como a densidade e a riqueza da vegetação não nativa (invasora ou não) mudam ao longo da sucessão florestal, se variam entre florestas secas e úmidas e quais fatores sociais, ecológicos e ambientais influenciam essas mudanças.
Para responder a essas perguntas, o trabalho se dedicou amplamente às florestas secundárias, aquelas que voltam a crescer depois que uma área desmatada é abandonada. Em muitos casos, basta retirar o fator de degradação, como o gado ou o cultivo agrícola, e a região se recupera sozinha.
“As florestas secundárias estão muito presentes nas paisagens modificadas pelo ser humano. Entender como elas se recuperam é fundamental para pensar em conservação e restauração em larga escala”, conta Angélica.
Usando dados de 1.561 parcelas florestais, foram analisadas 58 cronossequências de dez países neotropicais: Porto Rico, México, Costa Rica, Panamá, Venezuela, Guiana Francesa, Colômbia, Peru, Brasil e Bolívia. As cronossequências foram o método adotado para estudar, em um tempo tão curto, os efeitos de longo prazo das ENN nas florestas secundárias. “Como ninguém consegue acompanhar uma floresta durante cem anos, a gente substitui o tempo pelo espaço: estuda florestas de idades diferentes e reconstrói o processo de regeneração”, explica a pesquisadora.
Das 3.735 espécies florestais amostradas, 156 (4,2%) foram classificadas como não nativas em pelo menos um país. Elas ainda ocorreram em impressionantes 81% das cronossequências analisadas e foram mais comuns em florestas úmidas do que em florestas secas.
Segundo a pesquisadora, as espécies não nativas estão em todo lugar. Uma vez que passamos a reconhecê-las, percebemos que fazem parte da nossa paisagem cotidiana. A maioria das mais comuns são introduzidas ou cultivadas pelo seu valor cultural ou econômico – alimentação, produção de madeira, arborização ou outros usos –, mas passam a se espalhar sozinhas.
As análises revelaram, ainda, que nos estágios iniciais de sucessão das florestas secundárias (entre os primeiros 10 a 20 anos), as espécies arbóreas não nativas apresentaram alta densidade e riqueza relativas, representando 28% dos caules e 22% das espécies em florestas úmidas, e 9% dos caules e espécies em florestas secas. Após 50 anos, a densidade relativa caiu para 5% em florestas úmidas e 4% em florestas secas. Já a riqueza relativa estabilizou, permanecendo acima de 6% (seca) e 7% (úmida).

Restauração viva
A riqueza de espécies não nativas em florestas secundárias aumentou com o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do entorno. No entanto, tanto a densidade quanto a riqueza dessas espécies foram controladas pelo aumento da cobertura florestal circundante, proximidade agrícola e precipitação, ao contrário do carbono orgânico do solo, que favoreceu a retenção.
“O nosso estudo mostra que, quando a regeneração da floresta é bem-sucedida, as espécies invasoras vão perdendo espaço ao longo do tempo. Elas continuam presentes, mas deixam de dominar a comunidade”, afirma a pesquisadora. Os resultados do artigo sugerem que a regeneração natural das florestas e a manutenção de paisagens florestais relativamente intactas são soluções baseadas na natureza para controlar as ENN, protegendo assim a biodiversidade nativa, a integridade do ecossistema e os meios de subsistência locais.
Se não houver floresta por perto fornecendo sementes e propágulos, pode acontecer de aquela área ficar dominada pela espécie invasora. Por causa disso, Angélica destaca o papel das políticas públicas no controle dessas populações: “O grande desafio não é remover uma espécie invasora uma vez. É manter esse controle por décadas. Mas a boa notícia é que a própria regeneração da floresta pode reduzir naturalmente o domínio das espécies invasoras”, conta.
Com quase quatro anos de duração, o trabalho é o primeiro da série de estudos da rede 2ndFor a ser liderado por uma pesquisadora vinculada a uma instituição brasileira. O estudo contou com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
O artigo Non-native and invasive tree species are abundant in Neotropical secondary forest but decline over time pode ser acessado neste link: https://www.nature.com/articles/s41477-026-02327-3
Matéria: Sthephany Oliveira | Jornal da USP.




