Na criação de frangos, a dor de galos e galinhas afeta o bem-estar dos pintinhos
Experimentos em criadouros mostram que dores na locomoção, especialmente em galinhas, prejudicam o desenvolvimento dos descendentes

Pesquisadores da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP investigaram a relação entre as dores de galos e galinhas, manifestada em dificuldades de locomoção, na percepção da dor e no bem-estar dos frangos de corte e seus descendentes. O estudo, realizado em ambientes de criação comercial de aves, revela que a dor nos progenitores, em especial a claudicação materna, altera a resposta da prole, influenciando de forma negativa a sensibilidade à dor e comprometendo seu desenvolvimento.
As conclusões do estudo são apresentadas em artigo publicado na revista científica Scientific Reports. “O trabalho investigou possíveis impactos da claudicação, um indicador comportamental de dor, em progenitores, galos e galinhas reprodutores, sobre suas crias diretas, os frangos destinados à produção de carne”, afirma ao Jornal da USP o professor da FMVZ Adroaldo José Zanella, que orientou a pesquisa de mestrado do veterinário Marco Aurélio Pereira de Almeida.
Além claudicação, que é a dificuldade de locomoção manifestada, por exemplo ao “mancarem”, as crias também foram avaliadas quanto à sua sensibilidade a um estímulo doloroso – no caso, uma pressão mecânica nas pernas sem causar lesão – em um processo fisiológico conhecido como nocicepção.
A nocicepção é a primeira reação do processamento sensorial da dor, e o reflexo nociceptivo é o movimento que leva a espécie a se afastar defensivamente de uma fonte geradora de estímulo nocivo. A resposta representa a integração de todos os componentes do sistema biológico responsáveis pela dor. O limiar nociceptivo quantifica numericamente qual é o nível do estímulo nocivo que levou ao afastamento.
“O sistema é modulado por fatores genéticos e ambientais. Em trabalhos anteriores, demonstramos que dor em fêmeas suínas gestantes reduzem a sensibilidade nociceptiva de leitões”, acrescenta o professor, enquanto explica o procedimento. “O teste avalia a organização do sistema nervoso, dos receptores na periferia, a passagem pela espinha dorsal, e o processamento final por várias regiões do cérebro, como tálamo, ínsula e áreas corticais. Ou seja, a avaliação faz uma validação completa de como um estímulo, que potencialmente causa dor, é percebido pela espécie.”
A investigação ocorreu em três etapas dentro de instalações convencionais no sistema produtivo avícola brasileiro. “A primeira aconteceu em uma granja de reprodução, onde reprodutores foram identificados como claudicantes ou não e distribuídos em quatro grupos de acasalamento, pareando alternativamente machos e fêmeas claudicantes e não claudicantes”, explica Marco Aurélio de Almeida.
A segunda etapa foi realizada em um incubatório, onde ovos e pintinhos foram identificados conforme a condição locomotora dos progenitores. “Por fim, a terceira fase foi feita em uma granja onde os pintinhos foram criados e, já como frangos adultos, agrupados de acordo com a condição dos progenitores. Então foram avaliados quanto à locomoção e ao limiar nociceptivo, medido como a pressão necessária para fazer surgir a resposta à dor”, destaca Almeida.
Sensibilidade à dor
Na investigação com os frangos, o estímulo foi gerado através de uma pressão mecânica nas pernas das aves, sem causar dano aos animais, através de um equipamento chamado algômetro, que indicou digitalmente o nível de pressão aplicada em gramas por centímetro quadrado. A pressão representativa do momento em que os frangos movimentaram as pernas foi registrada como o limite ou limiar nociceptivo.
“A nocicepção é considerada protetiva ao risco potencial de dor e lesões. Frangos com limiar elevado podem ter se habituado com a dor e não expressar respostas fisiológicas e comportamentais de estarem sofrendo com ela”, observa o professor. “Isso gera possibilidade de perdas produtivas e comprometimento ao bem-estar. Animais com respostas a estímulos potencialmente dolorosos alteradas apresentam maior morbidade [adoecimento] e menor expectativa de vida em comparação com aqueles que apresentam nocicepção normal. Compreender as origens do desenvolvimento da sensibilidade à dor é, portanto, essencial para o bem-estar.”
Frangos com incapacidade severa de locomoção representaram 3% dos animais, porcentagem relevante por indicar sofrimento incompatível com continuidade de vida e em um setor produtivo que trabalha com perdas de mortalidade de até 5%. “Em estudos anteriores, machos apresentaram pior locomoção que fêmeas, independentemente da condição dos pais”, relata Zanella. “Neste estudo, porém, demonstramos também que os machos tiveram menor sensibilidade à dor, especialmente na perna esquerda.”

De acordo com o professor, uma possível explicação, semelhante ao observado em humanos com dor crônica, é que a dor persistente possa reduzir a resposta ao estímulo de nocicepção. “Detectamos diferenças entre os grupos CC, descendentes de fêmeas e machos claudicantes, e CS, fêmeas claudicantes e machos saudáveis, em relação ao grupo SS, descendentes de fêmeas saudáveis e machos saudáveis, que apresentou os menores limiares nociceptivos indicando maior sensibilidade a estímulos nocivos do que todos os outros grupos de tratamento”, descreve o professor. “Esses achados reforçaram a hipótese de que a claudicação parental, particularmente a claudicação materna, influencia a sensibilidade à dor da prole.”
Zanella destaca que a percepção de dor é fundamental para a homeostase dos animais – a estabilidade nos parâmetros como temperatura, pH, pressão e glicose no sangue – podendo definir sua sobrevivência. Entre os efeitos nos pais, frangos machos prole de fêmea claudicante com macho não claudicante apresentaram menor capacidade de responder à dor do que os frangos machos descendentes de fêmeas e machos não claudicantes. Isso sugere que condições locomotoras dos reprodutores modulam a nocicepção da prole, afetando seu bem-estar.
O crescimento populacional e os hábitos de consumo indicam que a produção de frangos continuará intensa, reforçando a necessidade de integrar eficiência produtiva e bem-estar animal, enfatiza Almeida. “Considera-se que fatores genéticos, ambientais e possíveis efeitos transgeracionais e intergeracionais influenciam a modulação do limiar nociceptivo, por mecanismos ainda a serem esclarecidos. Os achados relatados reforçam a importância de mitigar problemas locomotores e indicam potenciais linhas de investigação sobre lateralização, cronicidade da dor e diferenças entre sexos”, recomenda. E explica que, como o limiar nociceptivo é relativamente simples de avaliar, abre-se também a possibilidade de utilizá-lo como ferramenta de monitoramento do bem-estar animal na avicultura industrial, e instrumental no melhoramento das raças.
O estudo foi desenvolvido durante a pesquisa de mestrado de Marco Aurélio Pereira de Almeida, com orientação do professor Adroaldo José Zanella, do Centro de Estudos Comparativos em Saúde, Sustentabilidade e Bem-Estar do Departamento de Medicina Veterinária Preventiva e Saúde Animal da FMVZ. O projeto teve a colaboração da doutoranda Ana Carolina Dierings Montechese, da FMVZ, da professora Camila Squarzoni Dale, da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), especialista na área de modulação de dor, e do zootecnista Vitor Abreu, consultor de bem-estar animal da empresa BEA Consultoria e Treinamento na Produção Animal, que ajudou na coleta de dados. O professor Cihan Çakmakçı, do Departamento de Biotecnologia Agrícola, Divisão de Biotecnologia Animal, da Universidade Van Yüzüncü Yıl, na Turquia, conduziu a análise estatística dos dados coletados.
O artigo Nociceptive thresholds in broiler chickens are modulated by lameness of their progenitors and sex category está disponível neste link.





