Crédito da imagem: o autor e Microsoft Designer AI Image Generator.
Shifting. A nova onda da molecada. A molecada, ou seja, “os jove”, como dizia a minha vó. Já não se fazem mais jovens como antigamente.
“Shifting”, da expressão em inglês “reality shifting”, em português “mudança de realidade”. É como sonhar acordado. Mas de forma auto-induzida. Você cria um cenário, cria os personagens, e imagina como vai se relacionar com ambos. Um sonhar acordado, só que auto-induzido. Mas espere, tem mais.
Tudo pode ser criado por você, jovem, ou pode ser pegar emprestada a ambientação dos livros do Harry Potter, um dos universos preferidos desta nova onda. Aliás, encontrar-se com o personagem Draco Malfoy, desse universo, é o “shifting” preferido de milhares de pessoas.
Essa ambientação é chamada de “desired reality”, “DR” para os íntimos. Não confundir com “discutir a relação”, quem vai querer fugir da realidade para isso???
Parece uma mistura de transe místico, “viagem” de drogas, sessão de autohipnose e RPG (role playing game).
Um padre (olha só, tem que um padre dizer isto), ouvi falando outro dia que, quando ele mesmo era moço, juventude era sinônimo de alegria e andar em bando. (Ele não fala que os jovens já eram bem arrogantes, há quarenta, cinquenta anos, em sua certeza absoluta que eram os donos do mundo.) Hoje, o padre constata que quando vemos o jovem, na verdade o vemos pouco, pois está enfurnado no quarto. Conseguimos vê-lo mesmo quando é forçado a ir para a escola. Sempre de mau-humor, cara fechada, poucas palavras. Quando fala, não consegue se expressar, é só confusão. Dá-lhe psicólogo, diagnóstico de TDAH, ritalina e o escambau.
Nós, adultos, vemos os jovens largados aos videogames, ao TikTok, aos memes, às séries pra lá de duvidosas no Netflix, muita solidão, zero atividade física. Sabemos que tudo isso aí tem provocado muitos suicídios entre eles (e também entre adultos e idosos), que não querem viver neste mundo como se apresenta a eles (difícil recriminá-los e dizer que estão errados).
Nós, do alto da nossa “sabedoria”, pontificamos, nas nossas conversas (cada vez menos frequentes) e nas redes sociais (essas sim, fervendo) como esse estilo jovem atual mostra uma falta tremenda de imaginação, favorece a solidão e acaba com a saúde desses imaturos.
E então aparece o shifting. Uma atividade que não usa drogas, usa a imaginação e até favorece a interação entre pessoas que compartilham o mesmo universo para “shiftar” (se ainda não apareceu esse verbo, daqui a pouco vem, tenham paciência). Elas querem comentar as “viagens”, e trocam técnicas entre si de como melhorar as experiências.
O que pensar disso? Dei um nome para o meu lado rabugento, sr. Kurz, muito prazer. Ele me diz duas coisas: 1. é uma modinha, e 2. Eles deviam exercitar a imaginação pela via tradicional, pela leitura de livros.
O sr. Kurz grunhe estas frases no meu cabeção, babando de incorfomismo e rancor porque os bons tempos se acabaram e tiraram o alcool do Biotônico Fontoura, ele foi comprar Ferroquina no boteco da esquina e disseram pra ele que não se fabrica mais. Ele babou mais ainda quando disseram que a Caracu ainda existe, mas tinha acabado no estoque.
O sr. Jacó, que é o meu lado compreensivo, bonzinho até, fica pensando na onda dos RPGs, que veio para o Brasil na década de 1990. Histórias criadas pelos próprios adolescentes, a partir de universos pré-estabelecidos.
Ah, tenha dó, não vai reclamar disso, sr. Kurz. Todo mundo que escreve parte de algum lugar. Até Shakespeare, nenhuma de suas histórias é criação original, são todas reescritas, geniais e muitíssimo melhores que as histórias pescadas das fontes, verdadeiras obras-primas. Mas o enredo, a sinopse, não eram criações suas.
Fico em dúvida de como terminar esta crônica. Coloco no ringue o sr. Jacó e o sr. Kurz, dois velhos senhores, um rabugento e rancoroso, outro paciente e compreensivo. Soa o sino, e as perguntas são atiradas no ar:
Se essa moda de shifting pegar:
É para nos preocuparmos?
Para nos prevenirmos?
Para incentivarmos?
Quer saber quem ganhou o combate? Eu também quero.
Só para você ver que não estou inventando, acesse as matérias abaixo:



