Futebol brasileiro: baixa maturidade organizacional de clubes inclui gestão fragmentada da informação
Gestão incipiente limita a capacidade de transformar o conhecimento em diferencial competitivo sustentável

O futebol contemporâneo não é definido apenas pelo desempenho em campo, mas também pela capacidade de gestão fora dele, envolvendo planejamento estratégico, uso de dados e integração entre diversas áreas, como marketing e tecnologia. A modalidade é cada vez mais orientada por dados e análise de desempenho, e a gestão eficiente das informações passou a ser um fator decisivo para o sucesso das organizações esportivas – grandes volumes de dados podem ser convertidos em vantagem competitiva concreta.
Um estudo na Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP buscou compreender a gestão do conhecimento em times de elite do futebol nacional e como essas práticas podem contribuir para a geração de vantagem competitiva. Os resultados indicam que, embora existam iniciativas pontuais, os clubes operam majoritariamente em níveis iniciais de maturidade, concentrados nos estágios de informação e conhecimento, ainda desconectados de uma estratégia institucional mais ampla. Isso pode limitar a capacidade das organizações de transformar conhecimento em diferencial competitivo sustentável.
Gestão do conhecimento no futebol nacional
Trabalhando com orientação do professor Ary José Rocco Júnior, a pesquisadora Marcella Rodrigues da Silva buscou verificar se o conhecimento é tratado como um ativo estratégico ou apenas como um subproduto das rotinas operacionais de seis agremiações que disputaram a Série A do Campeonato Brasileiro em 2022. “No futebol, a vitória não se resume apenas ao campo. A gestão do conhecimento também conquista resultados. Transformá-los em estratégia é um grande desafio de gestão”, afirma Marcella.
Inicialmente, foram examinados os portais de transparência e relatórios de gestão, a fim de identificar a organização e o compartilhamento de informações administrativas. Posteriormente, foram aplicados questionários a gestores dos clubes estudados.
A partir da análise dos dados coletados, a pesquisadora classificou a maturidade da gestão do conhecimento dos times em cinco níveis. O Nível 1 (Dados) representa o estágio mais rudimentar, em que o processamento ocorre de forma individual e fragmentada. No ápice, o Nível 5 (Sabedoria), a organização conduz todos os seus processos com base no conhecimento de forma consciente e planejada. Essa estrutura permitiu cruzar a percepção dos dirigentes com a realidade prática descrita nas justificativas.

“Gestão feudal”
A pesquisa revela um cenário de baixa maturidade organizacional, com os clubes operando predominantemente nos níveis iniciais de Dados e Informação. As práticas de gestão do conhecimento são isoladas e carecem de um sistema institucionalizado, o que limita a criação de diferenciais competitivos. O estudo identificou barreiras culturais severas, descritas por gestores como uma “gestão feudal”, na qual o conhecimento é retido como fonte de poder e o diálogo é evitado para não expor problemas internos.
Um dos achados centrais é a profunda lacuna entre a percepção dos dirigentes e a realidade técnica em relação à maturidade da gestão do conhecimento. Enquanto gestores atribuíram uma média de nível 3,0 (Conhecimento), a análise técnica da pesquisadora apontou 2,4 (Informação). Na arquitetura organizacional, detectou-se a ausência generalizada de planos de cargos, carreiras e remuneração e de critérios de sucessão. Essa fragilidade torna as agremiações vulneráveis a perdas cognitivas massivas sempre que ocorre uma troca de comissão técnica.
O estudo aponta entraves como a centralização de decisões, mas identifica a transição para Sociedades Anônimas do Futebol como um potente catalisador de transparência e governança. Por outro lado, a tese faz um alerta crítico: altos investimentos em tecnologias, como softwares de desempenho, não geram valor se operarem como estruturas verticalizadas isoladas. Uma validação por juízes especialistas confirmou que os relatórios publicados pelos clubes são majoritariamente protocolares e não servem como ativos estratégicos de decisão.
“A principal conclusão é que os clubes brasileiros não utilizam a gestão do conhecimento de maneira estruturada para gerar vantagem competitiva. E isso importa porque, em um futebol cada vez mais complexo e profissionalizado, vencer também depende da capacidade de aprender e preservar conhecimento para decidir melhor” – Marcella Rodrigues da Silva
Como contribuição prática, o trabalho oferece um roteiro para que os clubes brasileiros alcancem o patamar de “ecossistemas inteligentes”. As recomendações incluem a criação de fóruns interdisciplinares e sistemas estruturados de retenção de saber. A pesquisadora reforça, ainda, que a gestão de conhecimento no esporte não é apenas uma questão de tecnologia, mas uma construção fundamentalmente humana e social.
O diagnóstico é considerado um marco inédito para a indústria do esporte nacional. O estudo abre caminho para que as entidades transcendam a gestão intuitiva e adotem modelos baseados no aprendizado organizacional, fundamentais para a competitividade no futebol moderno.
O estudo completo, intitulado Dimensões críticas da maturidade em gestão do conhecimento em clubes de futebol no Brasil para geração de vantagem competitiva, está disponível no Banco de Teses da USP, pelo link: https://teses.usp.br/teses/disponiveis/39/39136/tde-15052026-094033/pt-br.html
Matéria: Guilherme Ike | Jornal da USP.



