Experiência e gênero de atletas influenciam visão e força do chute nos pênaltis
Jogadoras profissionais de futebol se destacam por olhar mais focado e chutes colocados; jogadores têm visão mais ampla no momento da batida e chutam com mais força

Pesquisadores da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP identificaram os fatores que influenciam o olhar e a potência do chute em cobranças de pênalti no futebol. A partir da análise de imagens feitas no momento das cobranças, o estudo, publicado na revista Experimental Brain Research, mostra que o desempenho dos batedores está ligado à experiência e ao gênero. Jogadoras profissionais foram melhores em pênaltis colocados, com visão mais focada, enquanto os atletas profissionais se destacaram tanto pela colocação quanto pela força, com um olhar mais amplo.
Independentemente do gênero ou da experiência, os pesquisadores recomendam a todos os jogadores que treinem o olhar e calibrem o chute, se fixando de forma rápida e precisa na bola, sem se distrair com o goleiro e buscando espaços no gol com a visão periférica. “No futebol, a cobrança de pênalti é um momento de pressão elevada, porque pode decidir uma partida ou um campeonato”, afirma o professor Cássio Meira Junior, da EACH. “Pesquisas mostram que tanto o gênero quanto o nível de experiência influenciam a forma como jogadores e jogadoras usam a visão nessa situação. Para quem bate, o olhar ajuda a manter a concentração e a escolher o alvo.”
“Futebolistas experientes costumam fixar os olhos na bola ou no canto do gol onde querem chutar, ignorando distrações como os movimentos do goleiro ou o barulho da torcida. Já os menos experientes podem se deixar levar por essas interferências, desviando o foco e aumentando a chance de erro”, relata Meira Junior. “Estudos também indicam que homens e mulheres podem adotar estratégias visuais diferentes. Por exemplo, algumas jogadoras tendem a observar mais o corpo da goleira, enquanto os jogadores focam em pontos específicos como a bola ou o pé de apoio.”
De acordo com o professor da EACH, para quem tenta defender, o olhar é usado para “ler” os sinais do adversário, pois observam detalhes como a posição da perna de apoio ou o movimento do tronco de quem bate para antecipar a direção do chute.
“Em suma, o olhar durante a batida de pênalti não é apenas um detalhe técnico, mas um recurso estratégico que envolve concentração, leitura do adversário e resistência à pressão, com gênero e experiência moldando a forma como cada atleta usa esse recurso para aumentar as chances de sucesso”
Todos os jogadores avaliados pela pesquisa eram cisgênero, dispostos em equipes de futebol da capital, litoral e do interior paulista. O comportamento do olhar na batida de pênalti foi analisado com um sistema de rastreamento visual por óculos com câmeras (uma que filmou o olho e outra que filmou a cena), um pequeno computador acoplado em uma mochila nas costas de quem bateu o pênalti e um laptop que registrou os dados.
Olhar na batida de pênalti foi analisado através de rastreamento visual por óculos com câmeras, que filmaram o olho e a cena, um pequeno computador acoplado em uma mochila nas costas e um laptop que registrou os dados – Vídeo: Arquivo Pessoal
Experiência
Os resultados mostraram que as variáveis visuais e de desempenho foram influenciadas tanto pelo gênero quanto pela experiência. “Homens tendem a distribuir mais o olhar entre a bola, o goleiro e diferentes áreas do gol, o que amplia a integração de pistas visuais e ajuda na antecipação”, aponta Meira Junior. “Já as mulheres mantêm fixações mais curtas e focadas, especialmente na bola e em zonas-alvo específicas, o que pode evitar distrações, mas também limitar a variabilidade estratégica.”
Segundo o professor, essas diferenças refletem não apenas fatores biológicos, como força e coordenação, mas também aspectos socioculturais, como formas distintas de treinamento e expectativas no esporte. “A experiência modifica a forma como o olhar é usado: profissionais, independentemente do gênero, apresentam padrões de fixação mais estáveis e conseguem usar o foco na bola como recurso de precisão, sem perder informações periféricas importantes”, observa. “Já os amadores, quando fixam demais na bola, tendem a reduzir a precisão, pois negligenciam outras pistas relevantes, como a posição do goleiro ou os espaços livres no gol. Isso mostra que a prática e o treinamento refinam o controle da atenção visual.”
O estudo revela, ainda, que a experiência pode atenuar algumas diferenças de gênero, mas não elimina todas. “Por exemplo, as jogadoras profissionais tiveram mais sucesso em pênaltis colocados, enquanto jogadores homens se destacaram tanto nos pênaltis potentes quanto colocados”, ressalta Meira Junior. “A interação desses fatores explica por que certos grupos se destacam em determinados tipos de cobrança, potente [pela força] e colocada [pela precisão], por exemplo, reforçando a necessidade de treinos adaptados às características de cada atleta.”
“Batedores profissionais devem evitar fixações excessivamente longas na bola, pois isso pode reduzir a precisão. O ideal é usar fixações breves e direcionar o olhar para zonas específicas do gol, como as bordas inferiores, combinando foco central com visão periférica para antecipar o movimento do goleiro”, diz o professor. “Batedoras profissionais mostraram maior sucesso em pênaltis colocados, então a recomendação é continuar explorando essa estratégia, mas também investir em treinos que aumentem a potência do chute e ampliem a variabilidade de alvos, tornando as cobranças menos previsíveis e mais difíceis de defender.”
Meira Junior salienta que os batedores amadores tendem a mirar mais no centro do gol, o que facilita a defesa, por isso, é recomendável treinar pênaltis nas extremidades, especialmente nas bordas inferiores, e desenvolver maior controle visual para distribuir o olhar entre bola, goleiro e alvo. “Batedoras amadoras apresentaram padrões mais polarizados, colocados baixos e potentes no centro, assim, é importante treinar a consistência nas cobranças colocadas e variar os alvos”, diz. “De forma geral, todos os atletas devem treinar o uso do olhar como ferramenta estratégica com fixações curtas e precisas na bola para calibrar o chute, evitando distrações com o goleiro e explorando a visão periférica para identificar espaços livres no gol.”
O trabalho foi realizado pelo Grupo de Estudo e Pesquisa em Capacidades e Habilidades Motoras (Gepcham) da EACH. Participaram os alunos de mestrado Bruno Silva e Cintia Cortes, o pesquisador de pós-doutorado Dalton Oliveira e os professores Cássio Meira Junior e Marcelo Massa, do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Atividade Física (PPGCAF) da EACH. O artigo Gender and expertise affect visual search and performance in football penalty kicks foi publicado na revista científica Experimental Brain Research.
Matéria: Júlio Bernardes | Jornal da USP.



