Estudo reforça papel da genética na investigação da baixa estatura em crianças
Pesquisa mostra que testes genéticos modernos ajudam a identificar causas da baixa estatura sem origem clínica aparente e permitem tratamentos mais personalizados

Um estudo com participação da Faculdade de Medicina da USP mostra que o sequenciamento genético pode identificar as causas da baixa estatura em crianças quando a condição não apresenta uma explicação clínica evidente.
Segundo o professor Alexander Augusto de Lima Jorge, da disciplina de Endocrinologia e Metabologia da Faculdade de Medicina da USP e um dos autores da pesquisa, entre 80% e 90% da altura de uma pessoa é determinada por fatores genéticos. Ele explica que a investigação tradicional, voltada para a identificação de doenças sistêmicas, não esclarece todos os casos. A maioria das crianças com baixa estatura é saudável e pertence a famílias com histórico da condição, o que reforça a importância da investigação genética.
“A base genética da baixa estatura pode afetar questões hormonais, o desenvolvimento do esqueleto e da cartilagem de crescimento, responsável pelo alongamento dos ossos, além de estar relacionada a doenças sistêmicas mais graves”, afirma o pesquisador.
Como funcionou o estudo
Os pesquisadores realizaram uma revisão sistemática da literatura científica. Foram analisados mais de mil estudos sobre testes genéticos em crianças com baixa estatura, dos quais cerca de 130 atenderam aos critérios da pesquisa por investigarem casos cuja causa não havia sido identificada por avaliação clínica.
A equipe comparou diferentes estratégias de análise genética, desde exames que avaliam um único gene até técnicas mais modernas, como o sequenciamento do exoma, capaz de analisar simultaneamente milhares de genes. Segundo Lima Jorge, os testes que avaliam múltiplos genes apresentaram um ganho expressivo na taxa de diagnóstico.
O estudo também mostrou que as características clínicas da criança influenciam a chance de identificar a causa genética. Casos de displasias esqueléticas ou síndromes associadas a outras alterações, como malformações ou distúrbios do neurodesenvolvimento, apresentam taxas de diagnóstico que chegam a quase 50% com os métodos atuais.
Mesmo entre crianças aparentemente saudáveis, cuja única manifestação clínica é a baixa estatura, a investigação genética pode trazer respostas. De acordo com o pesquisador, aproximadamente uma em cada sete crianças desse grupo apresenta uma alteração em um único gene capaz de explicar a condição. Embora a taxa de diagnóstico seja menor do que nos casos sindrômicos, os resultados reforçam a importância da investigação genética mesmo quando a baixa estatura é o único sinal clínico.
Tratamento mais individualizado
Lima Jorge destaca que identificar a causa da baixa estatura permite personalizar o tratamento de cada paciente.
Segundo ele, há situações em que o diagnóstico genético contraindica o uso do hormônio do crescimento devido ao risco de efeitos adversos. Além disso, conhecer a origem da condição possibilita a realização de exames específicos para monitorar possíveis complicações e definir um acompanhamento mais adequado.
O sequenciamento do exoma é realizado no Brasil desde 2012, tanto em laboratórios privados quanto no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. De acordo com o pesquisador, já existem iniciativas para ampliar a oferta desse exame também no Sistema Único de Saúde (SUS).
Diretriz orienta investigação genética
Os resultados da pesquisa também subsidiaram a elaboração de um consenso internacional para orientar médicos na investigação genética da baixa estatura.
Segundo Alexander Lima Jorge, a diretriz define quais testes devem ser solicitados, em quais pacientes eles são indicados e como seus resultados devem ser interpretados. A expectativa é reduzir o número de casos classificados como de causa desconhecida e ampliar o acesso a diagnósticos mais precisos e tratamentos personalizados.
Além de beneficiar o diagnóstico e o tratamento, a identificação da causa genética também traz vantagens para as famílias. O resultado permite esclarecer a origem da condição, orientar o aconselhamento genético para futuras gestações e facilitar o diagnóstico precoce de outros parentes que possam apresentar a mesma alteração genética.
Fonte: Jornal da USP.




